Foco na cultura

Conselhos devem se dedicar mais a esse aspecto e menos aos controles financeiros

Governança Corporativa / Governança / 11 de Fevereiro de 2018
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Ilustração: Rodrigo Auada

Ilustração: Rodrigo Auada

“Um dos papéis-chave do conselho de administração é determinar cultura, valores e ética da companhia. Os executivos devem liderar pelo exemplo e garantir que bons padrões de comportamento permeiem todos os níveis da organização. Isso ajuda a prevenir desvios de conduta, práticas antiéticas e contribui para a empresa alcançar sucesso em longo prazo.” Prefácio do Código de Governança Corporativa do Reino Unido (tradução livre)

Estabelecer uma cultura saudável — baseada em confiança, transparência, prestação de contas, elevada motivação intrínseca, segurança psicológica, cooperação, empatia e solidariedade — é a chave para se assegurar comportamentos éticos em qualquer organização. O conselho tem um papel-chave na construção desse ambiente virtuoso, como destaca a declaração do código britânico de governança.

O tema é relevante porque as evidências mostram que uma cultura sadia proporciona às empresas ao menos cinco benefícios: maior produtividade, melhor comportamento ético, mais criatividade e inovação, maior resiliência em momentos de crise e decisões mais alinhadas aos valores e ao apetite a risco da organização.

Um dos principais estudos que corroboram essa afirmação foi feito com 1.348 CEOs e CFOs de empresas americanas que representam 20% da capitalização de mercado do país. Mais do que 90% afirmaram que a cultura é um dos três aspectos que mais afetam o valor de suas empresas, enquanto 92% acreditam que uma melhoria da cultura levaria a um aumento do valor. Adicionalmente, 85% dos executivos acreditam que uma cultura deficiente aumenta a chance de comportamentos antiéticos e só 16% acreditam que suas empresas hoje têm a cultura desejada.

Os escândalos corporativos recentes no Brasil deixaram claro como uma cultura tóxica causa sérios prejuízos à reputação e enorme destruição de valor. Esses escândalos não foram causados por ausência de áreas de controle ou documentos de governança, mas por culturas perniciosas caracterizadas por intimidação, opacidade, desconfiança, pressão pelo consenso, agressividade, estresse, busca pelo lucro de curto prazo a qualquer custo e medo.

Existem ao menos dez sinais de alerta que indicam a presença de uma cultura tóxica e que podem ser observados pelos conselheiros: presença de um controlador ou CEO dominante há muito tempo no cargo; demonstrações de arrogância pelos principais executivos; elevada pressão para alcance de metas (principalmente quando muito ambiciosas); falta de acesso à informação; ambiente excessivamente hierarquizado e com baixo nível de abertura no relacionamento entre altos executivos e empregados; ausência de diversidade nos principais órgãos de governança; predominância de pensamento de silo ou de feudos; ausência de planejamento sucessório estruturado; incentivos inadequados ou desalinhados ao longo prazo; e tolerância a pequenas infrações éticas ou regulatórias, em especial quando oriundas dos executivos que geram melhor resultado financeiro.

Por outro lado, há três iniciativas principais que os conselhos podem promover a fim de fomentar uma cultura saudável. A primeira é definir um propósito maior a ser perseguido e os valores que devem orientar as atitudes de todos no dia a dia. A segunda é articular claramente a cultura desejada para a organização, traduzindo-a em comportamentos esperados. A terceira envolve a criação de ferramentas e indicadores a fim de se avaliar se a cultura idealizada vem sendo de fato praticada no cotidiano.

O fundamental para os conselhos é assegurar o alinhamento entre propósito, valores, estratégia e cultura na sua organização. Isso é, sem dúvida, muito mais importante do que procurar controlar tudo o que acontece na rotina da empresa.


Referência:

Graham, John R., et al. Corporate culture: Evidence from the field. No. w23255. National Bureau of Economic Research, 2017.


*Alexandre Di Miceli da Silveira é sócio-fundador da Direzione Consultoria e autor de Governança corporativa: O Essencial para Líderes. O articulista agradece a Angela Donaggio pelos comentários e sugestões.



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