Dogma perigoso

Foco excessivo no valor para o acionista pode sacrificar as demais partes interessadas

Governança Corporativa/Governança/Edição 129 / 1 de maio de 2014
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Como vimos na edição passada, a criação de valor para o acionista serviu de pano de fundo para o movimento da governança corporativa desde seu início, na década de 1980. Desde então, as práticas recomendadas pelos códigos de governança são vistas como ferramentas para aumentar a riqueza dos sócios.

À primeira vista, esse entendimento parece adequado. Afinal, o valor para o acionista deveria ser consequência do resultado de longo prazo da empresa. O problema é que o conceito foi convertido em busca frenética do maior retorno financeiro possível no curto prazo. No caso das companhias listadas, ocorreu algo ainda pior: a geração de valor foi reduzida à ideia de que maximizar o preço das ações deveria ser o objetivo maior da administração. As empresas passaram por um processo crescente de financeirização”, em que a governança corporativa serviu de suporte a essa crença.

Há um sério efeito colateral aí. Na medida em que os executivos procuram o maior ganho para seus acionistas a qualquer custo, muitas companhias pressionam e sacrificam cada vez mais o interesse das outras partes (empregados, fornecedores, comunidades e sociedade), bem como o das próximas gerações — o que inclui os próprios acionistas futuros.

Isso ficou claro na última crise global, quando os bancos com maior alinhamento financeiro entre executivos e sócios e grande presença de investidores em seus conselhos sofreram os piores prejuízos. Dirigentes e muitos investidores, entre os quais gestores de fundos, embolsaram ganhos enormes nos anos pré-crise. Quando o colapso ocorreu, a conta ficou para os stakeholders e a sociedade. Ambos jogaram o jogo do “cara, eu ganho; coroa, você perde”. Como a responsabilidade dos acionistas é limitada, em muitos casos eles gostam de jogar a moeda, bem como de incentivar os executivos a fazer o mesmo.

Essa correlação vale não apenas para os bancos, mas também para as empresas que continuam a gerar passivos futuros potencialmente explosivos (como os de ordem ambiental, trabalhista e social). Esses passivos serão arcados integralmente pela sociedade, e não pelos acionistas. Há sempre um incentivo perverso para que os investidores, principalmente aqueles de curto prazo, saiam antes de as consequências virem à tona.

Segundo Colin Mayer, da Universidade de Oxford, a boa governança depende do equacionamento de três questões: o alinhamento de interesses entre gestores e sócios; a transferência de recursos entre as diversas partes interessadas da empresa; e as relações entre os diferentes grupos e gerações de acionistas. Ao se concentrar apenas na primeira questão, a governança causa desequilíbrios importantes. Quanto mais se reduz o problema à composição de interesses entre executivos e sócios, mais cresce o conflito entre estes e os outros stakeholders, bem como a divergência entre os acionistas atuais e os futuros.

O foco excessivo no resultado financeiro tem originado outros problemas importantes: subinvestimento em capital físico e humano pelas empresas; desprezo a aspectos morais nas decisões corporativas; desumanização dos vínculos com stakeholders; proliferação de escândalos empresariais; e menor confiança do público no mercado de capitais.

Obter retornos financeiros adicionais à custa do sacrifício das partes interessadas e das gerações futuras não constitui boa governança empresarial. Tendo em vista que as companhias possuem prazo de vida indeterminado, os administradores devem se concentrar em promover relações saudáveis e longevas com seus stakeholders e a sociedade. Afinal, é isso que a Lei das S.As. exige, em seu artigo 154.


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Tags:  criação de valor CAPITAL ABERTO mercado de capitais stakeholders financeirização Colin Mayer Universidade de Oxford alinhamento de interesses transferência de recursos crise global partes interessadas sociedade Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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