Ascensão dos acionistas universais reforça a importância de avaliar as externalidades

Governança Corporativa/Governança/Edição 135 / 1 de novembro de 2014
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A externalidade é o impacto que uma transação econômica entre dois personagens gera sobre um terceiro não envolvido diretamente nessa relação. As empresas produzem externalidades positivas e negativas para a sociedade, de que se podem citar como exemplo, respectivamente, a inovação e a poluição.

Apesar de aparentemente técnica, essa discussão é fundamental na governança corporativa, que afeta a vida de todos nós. Há certo consenso ao dizer que as companhias, principalmente aquelas dos setores primário e secundário, são verdadeiras máquinas de externalidades: impõem sistematicamente custos à natureza e à sociedade sem pagar por eles. Concorda-se também em que o preço dos produtos deve refletir seus verdadeiros custos sociais, a fim de que os efeitos nocivos sejam reduzidos.

A polêmica sobre o tema ocorre na definição do responsável por assegurar a minimização das externalidades. Para os defensores do movimento da sustentabilidade empresarial, a conta é da companhia. Isto é, caberia a cada empresa, de forma ativa e independente das leis, bancar o custo de seus impactos ambientais.

Por outro lado, na opinião dos críticos do movimento, a mitigação das consequências negativas deveria ser responsabilidade exclusiva dos governos, que são eleitos e devem prestar contas à opinião pública pela deterioração do espaço natural. Desse ponto de vista, deixar uma questão tão importante ao critério voluntário e descoordenado das empresas prejudicaria as bem-intencionadas, que se veriam em desvantagem competitiva em relação àquelas menos preocupadas com suas pegadas ecológicas.

Entre os dois extremos, uma atitude provavelmente consensual para as companhias realmente interessadas em melhorar a relação com a natureza é apoiar ativamente a criação de normas ambientais mais exigentes em suas indústrias. Assim, todos os membros do setor se sujeitariam a padrões rigorosos.

O debate ganha importância com a ascensão, nas últimas décadas, do chamado acionista universal. Devido ao peso crescente de investidores institucionais como sócios relevantes das companhias abertas, o cidadão comum, beneficiário final desses fundos, se tornou o principal acionista da maioria das grandes empresas. Nos Estados Unidos, por exemplo, 65% da população adulta investe em fundos que, por sua vez, possuem participações acionárias altamente diversificadas.

Essas pessoas são, a um só tempo, consumidores, funcionários e cidadãos das comunidades afetadas pelas companhias. Sua relação, portanto, vai muito além da propriedade das ações (daí a expressão “universal”), já que também são stakeholders interessados no bem-estar duradouro da sociedade.

O acionista universal arca com grande parte dos impactos causados pela organização. Segundo estimativas da ONU, as externalidades produzidas por uma amostra global de 3 mil empresas custaram US$ 2,15 trilhões para seus investidores em 2010. Logo, o preço que eles têm que pagar pelo efeito colateral de suas companhias muitas vezes é inferior ao ganho financeiro obtido como acionistas. Em outras palavras, o cidadão comum fornece o capital que é utilizado contra ele mesmo.

Para alguns autores, o florescimento do acionista universal deveria incutir nos gestores dos fundos uma visão mais ampla de sua atividade, que passasse a analisar as externalidades criadas pelos alvos de investimento. Com isso, agiriam em favor do mais amplo interesse de seus beneficiários, algo que vai além do retorno acionário proporcionado pelas empresas.

Fonte: pri; unep finance initiative. Universal ownership: why environmental externalities matter to institutional investors. 2010. Disponível em: www.unpri.org/publications.


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