A ética no Brasil tem jeito?

Por que a consciência não é suficiente para determinar a prática

Bimestral / Governança Corporativa / Opinião / Edição 155 / 7 de maio de 2017
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Hamilton Frediani de Faria Corrêa*

Hamilton Frediani de Faria Corrêa*

Se você é motorista e usa o Waze, considere o seguinte. Você está dirigindo e, ao tentar interagir com o aplicativo, surge uma tela que o impede — o sistema detecta que o veículo está em movimento e supõe que você está ao volante. Mas ele oferece a opção de destravamento do teclado: basta você “declarar” que é o passageiro. O que você faz? Esse toque é suficiente para você parar o carro antes de continuar com os ajustes? Sempre que pergunto isso a grupos os risinhos rolam soltos.

Mais duas perguntas. A ética no Brasil tem jeito? Ou tem jeitinho? A primeira pergunta fala do desejo de ética, um ideal de comportamento civilizado, disposição para seguir as leis e sacrificar nossos interesses sempre que isso significar não causar danos aos outros. A segunda, meio debochada, nos remete à ética do desejo — e aí as coisas se complicam. O jeitinho, no diminutivo, parece um atributo da nossa cultura, como a caipirinha, ou um dado exclusivo da nossa natureza, tal qual a jabuticaba. Não fosse por seu valor ambíguo.

Como quase tudo em psicanálise, quando se trata de marcar um divisor entre o patológico e o normal, a questão é mais de intensidade da manifestação que de ausência ou presença de sintoma. Sim, o jeitinho é uma resposta bem brasileira, motivo de certo orgulho, de certa capacidade de improvisar num ambiente pouco estável, inseguro e imprevisível (curiosamente, o jazz é o representante musical por excelência da improvisação, e uma de suas raízes está no blues antigo e em sua gente sofrida com o trabalho escravo no sudeste dos EUA no início do século 20).

Seres de desejo

Mas nós, brasileiros — como nós, humanos — não somos seres apenas de necessidade; somos seres de desejo, sujeitos a uma governança que não é a corporativa, social ou cultural. Como bem formulou Freud: “Não somos senhores dentro da nossa própria casa”. A lei do desejo é amoral e manda que o sujeito busque autossatisfação (“só me comprometo com o que é meu”). Evidente que isso não é da boca para fora, mas do pensamento para dentro, bem para dentro, inconsciente.

As condições ambientais, que podemos traduzir por cultura interna, são em parte determinantes da conduta ética. Ninguém em sã consciência dirá, ao ser questionado em público, que mentiria para o Waze. Mas e diante de condição propícia, como a ausência de testemunhas?

Não podemos dissociar o impacto da cultura-Brasil sobre a cultura interna de uma empresa. Em 2013, o Valor Econômico publicou parte de um levantamento feito pela consultoria ICTS com 3,2 mil funcionários em 45 empresas. O título é direto: “Falta ética entre funcionários do País”. Os resultados mostraram que mais da metade dos funcionários tende a conviver sem restrições com a falta de ética e quase 70% demonstram alguma flexibilidade na aderência aos princípios éticos e às normas de conduta da organização.

Dada a abundância de exemplos no Brasil, esses resultados não surpreendem. Então podemos pensar que “o tom que vem do topo” é influenciado pelo “tom que vem de fora”. Se as empresas praticam atos ilícitos em benefício próprio, e isso é tão sistêmico, por que não a minha empresa? Se a empresa em que trabalho faz, por que não eu? É uma trama complexa, e sua resolução talvez tenha que ser traumática, pois todos precisaremos em algum momento abdicar de atalhos para nos darmos bem. Fechando ainda mais a lente: já vi empresários ficarem “reféns” de funcionários pegos em flagrante, mas contra os quais não puderam agir justamente pelo fato de esses profissionais terem testemunhado atos empresarias igualmente censuráveis.

O mesmo desafio existe no plano doméstico. O tom vem de casa, mas também da escola. Certo dia meu filho conta que a professora de espanhol aplicou, de maneira inédita, uma prova no tablet, mas sem desabilitar o corretor ortográfico. O resultado foi que não apenas os alunos daquela classe, mas todos daquele 6º ano, se saíram bem na avaliação. Perguntei ao meu filho se não havia ocorrido a ele, ou aos colegas, apontar o equívoco para a mestra. “Claro que não, né pai? Imagina como essa pessoa seria detestada!”. Em tom um pouco pesado, disse a ele que com essas pequenas espertezas se começa a conviver, tolerar e desejar escolhas que levam a ganhos ilícitos, incentivando-o a refletir e a fazer algo a respeito. Depois ele me contou que noutra turma um dos garotos teve a coragem de apontar o erro. As provas foram anuladas e refeitas.

Governança psíquica

Se a surpresa não está nas causalidades culturais dos fenômenos identificados na pesquisa da ICTS, talvez possa estar em novas maneiras de se encarar a influência do ambiente e o papel das lideranças na construção de uma cultura ética.

Introduzo, para isso, a noção de “governança psíquica”. O termo nos aproxima dos conflitos e processos inconscientes implicados nas escolhas éticas que fazemos no âmbito profissional-corporativo. A ideia concerne a uma luta entre o que poderíamos representar como desejo de criação empreendedora e transformadora da realidade versus o apelo à ação íntegra, mais adaptativa aos limites e proibições. Mas o problema com as interdições é que elas nos remetem a forças primitivas de inibição do desejo. “Em nosso psiquismo a lei se mistura e confunde com as palavras de ordem que nos foram sendo sopradas por nossos pais, professores e outras fontes com a finalidade de botar freios no movimento desejante”, diz Freud.

Esse processo, importante para nos instalar no mundo civilizado, ao mesmo tempo aniquilará partes do desejo que, apesar de não ilegais, não correspondem aos padrões normativos daqueles ou daquilo que nos insuflaram as proibições. Nosso psiquismo vai se rebelar diante dessa ameaça de aniquilamento do desejo e responder com comportamentos que confrontam e desobedecem à lei de maneira intencional e explícita (perversão), estão de costas para a lei (psicoses) ou obedecem à lei de maneira cega e inquestionável (neurose obsessiva). Claro que estou me referindo a casos extremos, a saídas “patológicas”, que se diferenciam das saídas “normais”. Desafiar a lei, por exemplo, virou quase um modelo de negócio das startups de tecnologia. Casos práticos, Uber e Airbnb abalaram cadeias de valor estabelecidas à força de tradições e regulações. Por outro lado, geraram renda, novos usuários e uma melhora geral no nível dos serviços. Já os atos ilícitos cometidos em nome de obtenção de vantagem competitiva configuram uma saída pragmática, patológica e perversa para se fazer frente às travas burocráticas e à insegurança jurídica do País.

Então, como equacionar essas forças? Do lado de fora, as leis são “relativas” ou “contra nós”, e devemos desafiá-las e mudá-las se quisermos fazer valer o nosso desejo. Pelo lado de dentro, devemos seguir à risca os códigos de condutas e adotar práticas em conformidade com as normas e regras internas, sem espaço para ambiguidades interpretativas, pois o que está um jogo é o patrimônio empresarial.

Há boas inciativas em curso. A Operação Lava Jato representa concreta e simbolicamente o nosso “desejo de ética”, o “tom que vem de fora”. Internamente, as empresas adotam a governança corporativa e o compliance para minimizar riscos e perdas. Essas medidas são bem-vindas. Note-se, porém, que privilegiam o vigiar, investigar, controlar, punir e prevenir em nome de proteger o valor da empresa. Mas qual é o valor desse “valor da empresa” para o sujeito singular? Lembremos que, por mais consciente e socialmente negado que seja, o sujeito do inconsciente se orienta pela ética do desejo. Como seria possível que esse sujeito adulto, capaz de fazer escolhas por si mesmo e ser responsabilizado por elas, tomasse o desejo de ética por seu desejo e não como instruções normativas que o jogam de volta à fase heteronômica, em que “palavras de ordem eram sopradas por pais, professores e cuidadores”?

Proponho suplementar a lógica da denúncia com a lógica da renúncia. Sim, podemos renunciar a certos comportamentos, desde que encontremos objetos de desejo que nos satisfaçam à altura dos que foram substituídos. Trata-se de fazer um deslocamento da mentalidade do dono (investidor, fundador, CEO) para uma mentalidade de dono (colaboradores). Se “só me comprometo com o que é meu”, como posso tomar as crenças e as boas práticas da empresa como minhas? Como trago para mim o propósito da organização, uma vez que ela já existia antes de mim e continuará a existir depois de mim? Como isso irá satisfazer a mim e à empresa ao mesmo tempo?

Nova mentalidade

A resposta está na possibilidade de enxergar a vida na empresa como a construção conjunta e contínua de uma história relevante para o mundo. Uma narrativa com a força de chamado para algo maior, com a qual cada um tem a opção de se identificar, a oportunidade de conectar parte de seus valores, exercer parte de sua vocação e realizar parte de seu desejo. Repito “parte” para reforçar que algum grau de renúncia será sempre necessário para se produzir ganhos e evitar perdas compartilhadas.

Como podemos instigar essa mentalidade de dono e uma ética coletiva, apesar de todas as influências ambientais que parecem se opor a isso? A primeira medida seria entender que o ambiente somos nós e não uma instância abstrata da qual somos um produto passivo. É possível, sim, blindar a empresa contra o vácuo de valores deixado pela cultura-Brasil, dar um passo à frente e posicionar as empresas como espaços irredutíveis de integridade, transformando o ambiente de dentro para fora.

Em nosso mundo interno, a alçada do psiquismo que faz escolhas levando em conta o desejo, os recursos de que dispõe para satisfazê-lo e as proibições incontornáveis é o ego. Transpondo o desafio para o mundo interno das empresas, não podemos circunscrever esse domínio mediador à cúpula diretiva, mas atribuí-lo às três camadas de liderança desse sujeito coletivo: estratégicas, gerenciais e operacionais — literalmente, o EGO coletivo. Por quê? Os poucos ocupantes dessas posições fazem escolhas que afetam o comportamento de dezenas, centenas ou milhares de outros, por isso formam o que eu chamo de matriz das relações, um espelho dos comportamentos esperados. O tom vem do topo (o ideal do propósito e das crenças), de baixo (a execução no concreto da realidade) e do meio (gestão do que é viável entre o ideal e o real).

Onde há um EGO que consegue tomar distância do ambiente a ponto de se reconhecer “em parte” nele, é possível transformá-lo. Um EGO fortalecido assim pode chamar para si a responsabilidade pelas transformações. Por espelhamento, outros se sentirão atraídos por essa mentalidade de dono, criando um movimento coeso e confiável com o intuito de preservar a integridade da história coletiva e ao mesmo tempo fazê-la avançar, assumindo o ônus e o bônus dessas escolhas.

O garoto que apontou o lapso para a professora entendeu, na experiência, a essência da frase de José Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo, não salvo a mim mesmo”. Notável para um menino de 12 anos, mas não para nós, os mais crescidos.


*Hamilton Frediani de Faria Corrêa (hamilton@clinicacorporativa.com.br) é fundador da Clínica Corporativa


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Tags:  Governança Corrupção ética ​governança corporativa Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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1 comentário

May 18, 2017

Inspirador. Parabéns!!!!



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