Gosto amargo

Cosan tenta reparar danos à sua imagem após figurar na lista de empregadores que exploram mão de obra em condições análogas à escravidão

Especial/Governança Corporativa/Reportagem/Sustentabilidade – Coletânea de Casos/Temas / 1 de abril de 2011
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Maior produtora do mundo de energia elétrica oriunda do bagaço e da palha da cana-de-açúcar, a Cosan, como muitas companhias, diz ter a sustentabilidade como um dos pilares de seu negócio. Há pouco mais de um ano, no entanto, esse discurso foi posto em xeque. O nome da empresa foi parar, no dia 31 de dezembro de 2009, no cadastro de empregadores flagrados explorando mão de obra em condições análogas à escravidão, atualizado semestralmente pelo Ministério do Trabalho. Poucos minutos depois da publicação da “lista suja”, a ONG Repórter Brasil, que monitora os direitos trabalhistas no setor de bioenergia, divulgava a informação na internet. O episódio ganhou tamanha repercussão que o BNDES cancelou a liberação de empréstimos, já aprovados à companhia, no valor de
R$ 788 milhões. A rede Walmart, por sua vez, anunciou a suspensão da compra do açúcar da Barra e dos óleos automotivos Esso e Mobil, pertencentes à Cosan. O resultado foi sentido nas ações da sucroalcooleira que, em um único dia, despencaram cerca de 5%.

Auditores do Ministério do Trabalho justificaram que a inclusão da Cosan na lista deveu-se a uma ocorrência registrada em junho de 2007, na usina Junqueira, em Igarapava (SP), adquirida pela Cosan em 2002. Foram registrados 13 autos de infração, dentre eles, trabalhadores sem registro formal, menores de 18 anos em trabalho pesado, falta de vasilhas para refeições, instalações sanitárias insuficientes e ausência de local adequado para refeições. Os funcionários encontrados em condições irregulares tinham sido admitidos por uma empresa terceirizada de cana-de-açúcar. “O setor agrícola ainda está atrasado em relação a outros nas práticas sustentáveis, mas, com a internacionalização e a vinda de players externos, a pressão para reverter essa situação será crescente”, diz a advogada Carolina Gazoni, assessora do Iclei, agência internacional de desenvolvimento sustentável para governos locais.

Duas semanas após a história se tornar pública, a Cosan obteve uma liminar da Justiça para retirar seu nome do cadastro. Com isso, conseguiu retomar os contatos com o BNDES e o Walmart, mas o estrago em sua imagem já estava feito. “O fato mostra que o problema trabalhista no setor sucroalcooleiro persiste e que há muitas dimensões que ainda precisam ser aprimoradas pelas empresas”, observa o coordenador da área de biocombustíveis da ONG Repórter Brasil, Marcel Gomes. “Em conversas recentes com uma outra empresa que atua no setor de biocombustíveis, ouvimos que o tema não é valorizado na cadeia de açúcar e etanol”, lamenta Gomes.

“O problema trabalhista no setor sucroalcooleiro persiste. Há muitas dimensões que ainda precisam ser aprimoradas pelas empresas”

Para Sergio Serapião, da consultoria Via Gutemberg, as empresas com uma ampla rede de terceirizados devem monitorar continuamente esses profissionais. “Agir depois pode ter um preço bastante elevado”, ressalta.

Roberto Gonzalez, professor de sustentabilidade da Faculdade Trevisan, avalia que a questão trabalhista no agronegócio tem de ser vista de uma forma muito mais ampla pelas empresas. É preciso pensar em cada detalhe. “As companhias devem se perguntar: há banheiros? Eles são adequados? Os facões que os cortadores usam estão enferrujados? Há local nos ônibus para que esses facões sejam colocados ou eles podem causar acidentes em caso de uma freada brusca do veículo?”, questiona.

Procurada pela reportagem, a Cosan não quis conceder entrevista. Sua visão sobre o ocorrido foi divulgada, em 2010, no relatório anual da empresa, num capítulo específico intitulado “Episódio da Lista Suja”. No documento, a Cosan explica que “em diligência executada em junho de 2007 pelo Grupo Especial Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, foram encontradas irregularidades na empresa José Luiz Bispo Colheita ME, na região de Igarapava (SP), onde a empresa prestava serviço de corte manual da cana-de-açúcar para diversas unidades produtoras da região. Entre elas, a Junqueira, de propriedade da Cosan, única empresa a ser chamada no local. Das 13 irregularidades verificadas pela fiscalização, nenhuma fez referência ou analogia a trabalho escravo, mas, em geral, apontaram meras irregularidades trabalhistas”.

A companhia cita ainda que, semanas depois do ocorrido, recebeu os 13 autos de infração endereçados a ela e que, “atendendo ao pedido dos auditores fiscais do Ministério do Trabalho e movida por boa-fé, a Cosan se responsabilizou pelo pagamento de todos os direitos trabalhistas dos 42 empregados da empresa José Luiz Bispo Colheita ME, além de lhes reembolsar as despesas de alimentação e transporte. Toda a ação ficou registrada em um Termo de Encerramento da fiscalização, no qual a Cosan ressaltou que o caso envolvia trabalhadores de terceiros. A empresa também excluiu o fornecedor de sua lista”.

Segundo a companhia, “é importante lembrar que, naquele ano de 2007, a empresa acabara de assinar o Protocolo Agroambiental do Setor Sucroalcooleiro, que estabelece uma série de princípios de natureza ambiental, o que já demonstrava o comprometimento com as boas práticas socioambientais”. Ainda de acordo com o relatório, na safra 2010/2011, 100% dos profissionais que trabalharam em terras próprias ou arrendadas pela companhia eram funcionários diretos da Cosan. Além disso, aproximadamente 80% das operações de compra de cana de fornecedores passaram a ser feitas por mão de obra contratada diretamente pela empresa. As iniciativas, conforme a Cosan, têm como objetivo reduzir ao máximo eventuais problemas no relacionamento com os trabalhadores. Se elas vão dar resultado, é história para um próximo episódio.


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