Um por todos

Ganha força a proposta de um relatório anual que integre — e não apenas reúna — as informações financeiras, sociais e ambientais

Bimestral/Gestão de Recursos/Reportagem/Edição 87 / 1 de novembro de 2010
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Se você trabalha na área de relações com investidores (RI) ou de comunicação de uma companhia aberta, é muito provável que já tenha ouvido falar dos relatórios anuais integrados — aqueles que unem informações financeiras, ambientais e sociais. Mas é também possível que não tenha conseguido adotá-lo porque, antes de tudo, não sabe exatamente o que é um relatório integrado e nem como fazê-lo. Bastaria juntar as informações sobre esses três aspectos em uma única encadernação? Certamente não. O desafio aqui é um tanto mais complexo, mas não se intimide. A verdade é que ainda não existem diretrizes claras sobre como integrar os relatórios.

As poucas companhias que se propõem a isso seguem critérios próprios ou, muitas vezes, vão pelo caminho mais fácil e equivocado que acabamos de citar: unem seus relatórios anual e de sustentabilidade em uma mesma publicação e se dão por satisfeitas. Mas há uma boa notícia para quem estiver disposto a levar essa história a sério: as discussões sobre como obter a tão propalada integração estão a mil por hora no mundo todo.

Em agosto, foi formado o Comitê Internacional do Relatório Integrado (IIRC, na sigla em inglês), com representantes de empresas de auditoria, como KPMG, PwC e Deloitte; do mundo acadêmico, como Harvard; da sociedade civil, como WWF e Global Reporting Initiative (GRI); e de reguladores, como a International Organization of Securities Commissions (Iosco), órgão que congrega comissões de valores mobiliários de diversos países. Na ocasião, a presidente do comitê executivo da Iosco afirmou que, no futuro, a criação do IIRC será vista como um divisor de águas no desenvolvimento dos relatórios corporativos.

O comitê tem como meta estabelecer diretrizes até 2020 para a integração dos dados. Nelmara Arbex, vice-presidente da organização não governamental GRI, referência no desenvolvimento de diretrizes para a elaboração de relatórios socioambientais, e integrante do grupo formado para sugerir ideias ao IIRC, afirma que, até agora, foi discutida a necessidade de se estabelecerem princípios para preparar os relatórios e para a definição das informações que farão parte desses documentos. A próxima reunião do IIRC será em janeiro.

O mundo todo está se voltando ao relatório integrado, porque o planeta vive uma crise financeira e climática

A ideia de integrar dados financeiros e de sustentabilidade ganhou força especialmente após a crise financeira de 2008, que aumentou a preocupação com a forma de divulgação de dados das companhias. “Com a crise, pôde-se perceber que não se enxergava muitas informações”, comenta Roberto Gonzalez, diretor da MediaGroup e conselheiro do fundo Ethical. Também cresceu o público a quem os dados divulgados se destinam. “Após a crise de 2008, em que grandes instituições sumiram da noite para o dia, ficou patente a necessidade de divulgar informações não só para os acionistas, mas para a sociedade como um todo”, admite Ricardo Zibas, gerente de sustentabilidade da auditoria KPMG.

Essa lista de destinatários é extensa. James Heffernan, coordenador de programas educacionais da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), uma treinadora certificada da GRI, afirma que, no ambiente dos negócios de hoje, clientes, fornecedores, comunidades, funcionários, assim como reguladores e governos, demandam informações sobre as atividades e a performance das companhias. Com isso, o número de informações requeridas aumentou, incluindo dados sobre direito dos trabalhadores, igualdade no ambiente de trabalho, políticas de investimento na comunidade e cuidados com o meio ambiente.

Para o consultor de empresas Lélio Lauretti, estamos diante de mudanças no modo de enxergar a atuação das companhias. “O capitalismo de hoje não é mais o do proprietário ou do administrador. É o capitalismo que discute qual o papel da empresa na sociedade”, ressalta. Para Nelmara, da GRI, está cada vez mais claro que um investidor que quer saber se a empresa tem futuro não pode se basear apenas em dados financeiros, pois ter bons resultados hoje não é suficiente para afirmar que isso vai continuar. “É preciso saber como ela está administrando riscos financeiros, sociais e ambientais”, alerta.

De acordo com Mervyn King, presidente da GRI, o mundo todo está se voltando ao relatório integrado porque o planeta vive uma crise financeira e climática, decorrente da degradação do ecossistema e da perda de biodiversidade. “Nós usamos os recursos naturais mais rapidamente do que a natureza pode gerá-los.” Ele acredita que as empresas precisam aprender a traçar estratégias para conduzir seus negócios de forma diferente e produzir mais com menos. “Só poderemos saber se elas estão fazendo isso quando tivermos uma forma integrada de divulgação”, defende.

NA PRÁTICA — Há algumas sugestões para quem pretende começar essa jornada para integrar os relatórios financeiro e de sustentabilidade. Lauretti, autor do livro Relatório Anual, recomenda partir da demonstração contábil e incluir nela dados essenciais referentes a sustentabilidade, que mostrem o impacto da companhia na sociedade e no meio ambiente, sem entrar em detalhes de interesse mais restrito, como quanto se está economizando em luz e papel, por exemplo.

Gonzalez sugere que, ao falar do ativo intangível contabilizado, a companhia trate também dos seus reflexos ambientais e sociais. Ao inserir, por exemplo, uma nota explicativa em uma demonstração contábil sobre risco trabalhista, processos e demissões, a empresa pode aproveitar e explicar a razão desses processos, descrever a política em relação a benefícios, discorrer sobre o nível de satisfação dos seus funcionários. Ao mesmo tempo, em um relatório de sustentabilidade, pode-se mencionar os impactos financeiros dos problemas e ações socioambientais.

Forme uma equipe responsável por conciliar as informações contábeis com as socioambientais

Para cada item do relatório, portanto, a proposta é dar informações que serão úteis tanto aos acionistas como aos demais stakeholders, esclarece Carlos Eduardo Lessa Brandão, conselheiro da GRI pelo Brasil e membro do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). “Ao fazer isso, é possível que a companhia se dê conta de algo e decida mudar um procedimento.” Uma dica é formar uma equipe responsável por integrar as informações contábeis societárias com as socioambientais, normalmente apresentadas conforme o método do GRI. Gonzalez sugere, inclusive, que as empresas criem comitês com representantes das áreas contábil e socioambiental, não esquecendo a jurídica. A ideia é promover a conexão entre os dados.

Mas para chegar ao relatório integrado que vem sendo discutido mundo afora ainda será necessário percorrer alguns passos. De acordo com Josefa Garzillo, diretora executiva de consultoria com foco em sustentabilidade da Ernst & Young Terco, é necessário haver primeiro um processo de alinhamento interno e mapeamento do estágio atual da companhia. “Trata-se de saber onde estou e aonde quero chegar”, explica.

O interesse em publicar um relatório integrado está cada vez mais presente nas companhias brasileiras, observa Paulo Henrique Praes, consultor sênior da Global RI. “Vemos clientes perguntando sobre isso.” Ernesto Cavasin, gerente sênior da PwC, enxerga que a tendência é forte. Em sua opinião, os investidores e as empresas têm aprendido que o custo de remediar um passivo ambiental ou social é muito maior que o de evitá-lo. Por isso, essa informação torna-se tão fundamental.

PRIMEIROS PASSOS — Citada como um modelo internacional, a Natura produz seu relatório anual de forma integrada desde 2002. O diretor de assuntos corporativos, Rodolfo Guttilla, conta que o documento é produzido de maneira empírica, coletando dados com todas as áreas responsáveis por cada tema do relatório. “Ainda estamos buscando maneiras eficazes de dar significados correlativos entre os resultados econômicos, sociais e ambientais.”

Hoje, no Brasil, as informações sobre impactos ambientais das companhias são requeridas no item 7.5 do relatório de referência. Antes de instituir o documento, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estudou regras aplicadas em outros países e recomendações de entidades especializadas. Questionada pela CAPITAL ABERTO sobre a possibilidade de mais normas, a autarquia afirmou que considera o padrão e o nível de informações socioambientais exigidos pela Instrução 480 apropriados para o momento.

Nessa questão do formulário, as empresas informam desde atividades mais simples, como coleta seletiva, a projetos desenvolvidos e prêmios recebidos. A Gafisa, por exemplo, relata que, em média, 3% do valor de obra de seus empreendimentos é destinado à proteção do meio ambiente. O Itaú Unibanco cita o descarte sustentável de lixo eletrônico e uso de energia renovável para abastecer prédios administrativos. Já a Petrobras relata que investiu em 2009 cerca de US$ 1,013 bilhão em projetos ambientais, especialmente na redução de emissões e resíduos resultantes de processos industriais.

A Suécia é um dos países mais exigentes em relação a informações sobre sustentabilidade. Em 2007, suas estatais passaram a ser obrigadas a produzir relatórios sobre impactos ambientais. O estudo Increasing responsability through transparency?, da universidade Uppsala, divulgado em setembro, mostrou como a exigência estimulou atividades das companhias nesse campo na Suécia. “O relatório é também uma ferramenta para mudar atitudes. Ele não precisa ser como a linha de chegada, e sim, como uma arma para começar a pôr em prática um processo de sustentabilidade”, concluem os autores do estudo. Na Dinamarca, outro país exigente com o tema, as grandes empresas devem produzir, desde 2008, relatórios com princípios de responsabilidade social corporativa em um modelo “comply or explain” (pratique ou explique).


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