Um outro olhar sobre a taxa de juros

A peculiar — e incômoda — relação entre dívida e riqueza no Brasil

Gestão de Recursos / Colunistas / 7 de outubro de 2017
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Evandro Buccini*

O elevado déficit primário brasileiro é um problema per se. E fica ainda mais dramático se olhado em conjunto com a vultosa dívida pública — fruto de décadas de gastos do governo superiores à receita, com altas taxas de juros que só pioram a situação. Normalmente mede-se a dívida em relação ao PIB, mas a razão entre dívida e riqueza também ajuda na análise do problema. Indicadores de riqueza são escassos; poucos países emergentes compilam essa informação. Utilizando dados de uma pesquisa recente da Rio Bravo Investimentos para aproximar dados de riqueza para o Brasil, vamos tentar olhar a elevada taxa de juros brasileira também por esse ângulo.

Mesmo antes da atual crise, a dívida pública brasileira era elevada se comparada à de outros países emergentes e, recentemente, a posição do Brasil ficou ainda pior. Considerando a dívida bruta, conceito mais abrangente que registra as obrigações de todas as esferas do governo, o Brasil alcança 81,2% do PIB pelo conceito do FMI (mesma fonte de dados para todos os países), a maior entre uma lista de países emergentes. O segundo mais endividado é a Hungria, com sua dívida equivalente a 73% a PIB. Na outra ponta do ranking está a Rússia, com apenas 17,1%. Na América Latina, o país mais próximo ao Brasil é o México, com 57,2%. A comparação com países desenvolvidos não é aconselhada, pois eles têm maior riqueza, como veremos adiante, e maior capacidade para se endividar. Entre países com a mesma nota de crédito do Brasil, considerando as três principais agências de rating, o Brasil é igualmente o mais endividado.

A situação não era diferente no passado, mas a distância para os comparáveis aumentou. Desde janeiro de 2014, a dívida bruta aumentou pelo menos 20 pontos percentuais, a maior velocidade de deterioração já registrada. A piora desse importante indicador fiscal foi além da sugerida pelo resultado primário, que saiu de superávit de 1,15% do PIB para déficit de 2,8% do PIB. Após a crise de 2008, o governo implantou o que ficou conhecido posteriormente como “nova matriz econômica”. Um dos pilares dessa política foi o agigantamento do BNDES, que aumentou a dívida em cerca de 500 bilhões de reais. Além disso, a diferença entre o custo de captação do Tesouro e a remuneração dos empréstimos adicionava alguns bilhões a essa dívida todos os anos. Algo parecido acontece com as reservas internacionais, que rendem aproximadamente a taxa de juros americana, hoje próxima a 1% ao ano.

Os economistas brasileiros quebram a cabeça há anos tentando responder à pergunta: por que a taxa de juros é tão alta no Brasil? Em 2011, na Casa do Saber de São Paulo, Gustavo Franco, André Lara Resende, Samuel Pessôa e Luiz Gonzaga Beluzzo debateram o tema (os vídeos estão no YouTube). Apesar das discordâncias, a boa condução das contas públicas foi apontada por todos os participantes como uma condição fundamental para a queda sustentável da taxa de juros.

Ainda sem resposta definitiva para a questão, fiz ao lado de Gustavo Franco na Rio Bravo um trabalho (ainda não publicado) para medir a riqueza das famílias no Brasil, sob inspiração do trabalho do economista francês Thomas Piketty, que usou esse tipo de dado para aprofundar seu estudo sobre desigualdade. Nos EUA, ainda no início das pesquisas de contabilidade nacional, os economistas acreditavam que riqueza teria um papel maior do que tem atualmente no acompanhamento da economia, mas a dificuldade em medi-la tornou o PIB praticamente a única variável utilizada.

Uma métrica pouco acompanhada é a relação entre dívida e riqueza. Utilizando a base de dados de Piketty, os trabalhos de James Davies e os de órgãos governamentais de cada um dos países, vemos que, em média, as nações desenvolvidas têm dívida bruta igual a 20% da riqueza das famílias. Isso equivale a uma dívida próxima a 70% do PIB e riqueza superior a 4 vezes o PIB, em números aproximados. No Brasil, já vimos que a dívida bruta é de 80% do PIB. A riqueza é inferior a 2 vezes o PIB; portanto a razão entre dívida e riqueza é superior a 55%. Considerando apenas a riqueza financeira (que exclui principalmente ativos imobiliários), a relação supera 100%. Os cálculos para a riqueza no Brasil ainda são preliminares, mas abrem caminho para muitos estudos. Para testar a robustez dos resultados, os comparamos com outros trabalhos e vimos que são compatíveis.

Os números chocam. A dívida do governo equivale a praticamente toda a riqueza financeira do País. Sem aumentar a dívida externa, ou a parcela de estrangeiros na dívida interna, o governo precisa pagar juros exorbitantes para colocar títulos adicionais nos portfolios de investidores brasileiros. Para isso, deve pagar a elevada taxa de juros, que expulsa todos os outros ativos das carteiras de investidores individuais e institucionais.


*Evandro Buccini (evandro.buccini@riobravo.com.br) é economista da Rio Bravo Investimentos


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Tags:  PIB juros taxa de juros crise dívida pública Evandro Buccini déficit primário Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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