Tubarão no aquário

Uma história de ganância e húbris — ou como 9 bilhões de dólares sangraram em poucas semanas

Gestão de Recursos/Prateleira/Edição 122 / 1 de outubro de 2013
Por 


Hedge hogs: The cowboy traders behind Wall Street’s largest hedge fund disaster              Barbara T. Dreyfuss             Editora: Random House                              320 páginas, 1ª edição, 2013

O dicionário Houaiss define húbris como “orgulho arrogante ou autoconfiança excessiva; insolência”. Atribuía-se, na Grécia antiga, ao herói cuja arrogância desafiava os deuses, que não toleravam a afronta e o puniam. A derrocada do fundo de hedge Amaranth, em setembro de 2006, é um exemplo clássico do conceito grego, personificado na figura de um negociador de commodities de energia de 32 anos, Brian Hunter. A autora de Hedge hogs, Barbara T. Dreyfuss, narra a trajetória do protagonista dessa história, desde a sua formação acadêmica e profissional até o sucesso estrondoso no Amaranth Advisors LLC, seguido de sua virtual sublimação.

A classe de ativos conhecida como “fundos de hedge” tem uma história razoavelmente breve: evoluiu de um punhado de veículos obscuros de investimento voltados aos ultrarricos na década de 1990 para um segmento que gere, atualmente, US$ 2 trilhões. Em sua forma original, os fundos tinham como estratégia produzir ganhos nos mercados em alta e protegê-los na baixa (“hedge” significa proteção, em inglês). Agora, diferenciam-se por buscar retornos acima da média — “alfa”, no jargão de mercado — em ações, renda fixa, imóveis e commodities. Devido a essas características, os fundos de hedge bem-sucedidos têm forte apelo para investidores institucionais que buscam diversificação e retornos superiores. Era o caso do Amaranth, que chegou a gerir cerca de US$ 9 bilhões.

Concebido como um fundo multiestratégia diversificado, em dois anos o Amaranth ampliou a parcela de seu patrimônio investida em derivativos de energia de 12% para mais de 50%. Mas o que levou todos os funcionários a ignorar preceitos básicos de gestão de ativos e ser coniventes com níveis de risco altamente tóxicos? A resposta é a mesma de sempre: ganância. Bebia-se na fonte dos bônus polpudos que a performance estelar de Hunter havia proporcionado em 2004 e 2005. Por isso, havia pouco incentivo para que ele jogasse dentro das quatro linhas dos limites de risco (alguém lembra o caso de Nick Leeson e do finado Banco Barings, em 1995?).

O jovem canadense de QI alto cresceu profissionalmente na esteira da desregulamentação do mercado de energia americano, especializando-se em derivativos de gás natural. Após a implosão da Enron, que havia criado a infraestrutura desse segmento, vários negociadores de energia foram absorvidos por bancos de investimento e, posteriormente, por fundos de hedge. Hunter rapidamente construiu sua fama como excelente estrategista de derivativos e conhecedor do mercado de gás. Entregava retornos astronômicos, apesar da elevada volatilidade.

Contudo, em sua busca por resultados cada vez mais espetaculares, chegou a negociar 50% de todos os contratos de gás, tornando-se um tubarão num aquário pequeno. Ao primeiro cheiro de sangue do tubarão, os lambaris atacaram e o fim foi quase instantâneo.

Uma lição interessante do livro trata da seleção do gestor de um fundo de hedge e seu posterior monitoramento. O investidor deve buscar meios de garantir a execução da estratégia vendida no prospecto. No caso do Amaranth, o desempenho fantástico em 2004 e 2005 fez os investidores se esquecerem de questionar a origem dos retornos e, principalmente, seu nível de volatilidade. Em se tratando de uma classe de ativos sujeita a baixa regulamentação e supervisão, cabe ao investidor praticar o velho e bom caveat emptor (“cuidado ao comprar”).

 


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