Testando a água

Fundações saem da zona de conforto e fazem seus primeiros investimentos no exterior

Gestão de Recursos / Reportagem / Edição 128 / 1 de abril de 2014
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Os investidores institucionais estrangeiros descobriram o Brasil há mais de uma década, quando aportaram recursos para engordar os rendimentos de suas carteiras. Agora, uma marcha contrária começa a ganhar corpo: os fundos de pensão brasileiros se voltam para o exterior, com o objetivo de diversificar seus investimentos. Ainda se trata de um movimento tímido, recheado de apostas conservadoras, como quem põe o pé na água para se acostumar com a temperatura.

A iniciativa foi capitaneada por Previ, Petros, Funcef e Valia (entidades de previdência fechada, respectivamente, dos funcionários do Banco do Brasil, da Petrobras, da Caixa Econômica Federal e da Vale), mas já atrai outras fundações, como a Fundação Cesp e a Fundação Itaú Unibanco. Todas fizeram os primeiros investimentos em fundos de ações estrangeiros entre o fim de 2013 e março deste ano. Espera-se que, ao conhecer melhor o mercado externo, aumentem paulatinamente o peso dessa classe de ativo em suas carteiras e ingressem na aldeia global, onde a diversificação geográfica das aplicações já é prática antiga.

“Os investimentos no exterior serão a classe de ativos que mais vai crescer no portfólio dos fundos de pensão nos próximos anos”, acredita Carlos Garcia, sócio da Itajubá Investimentos, que distribui produtos para as fundações. Os fundos de pensão dos mercados desenvolvidos aplicam em torno de 30% dos seus patrimônios em ativos internacionais. Essa parcela pode ser bem maior nos países em que o mercado de capitais interno não consegue absorver toda a poupança previdenciária. É o caso do Chile, que, em janeiro de 2014, tinha 42,4% dos US$ 162,9 bilhões do sistema de previdência estavam investidos no exterior (leia também quadro abaixo).

No Brasil, onde a previdência fechada representa cerca de 14% do Produto Interno Bruto (PIB), ainda estamos longe desse patamar. Além disso, de acordo com o último consolidado estatístico da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), de setembro de 2013, apenas 0,1% dos R$ 638 bilhões de patrimônio das fundações brasileiras estava alocado em ativos estrangeiros, notadamente em títulos da dívida externa e em Brazilian depositary receipts (BDRs). O percentual é ínfimo, tendo em vista que, de acordo com a Resolução 3.792 do Conselho Monetário Nacional (CMN), poderia atingir até 10%.

O maior entrave ao investimento no exterior é normativo. As aplicações devem passar por um fundo
sediado no Brasil, no qual a fundação não pode ter mais de 25% das cotas

A Fundação Itaú Unibanco foi uma das primeiras entidades de previdência a aplicar em fundos no exterior. No ano passado, investiu em um veículo gerido pelo próprio Itaú que compra cotas de vários fundos de ações sediados no exterior. Já no início de 2014, aportou recursos numa carteira da BB DTVM que também aplica em fundo estrangeiro. Os investimentos em ativos de fora representam 1,5% do seu patrimônio de R$ 22 bilhões. “Temos apetite para aumentar essa fatia, mas há alguns limitadores, como o interesse na renda variável”, explica Gabriel Amado de Moura, diretor de gestão de risco da fundação. Como na renda fixa há melhores oportunidades por aqui, os fundos de pensão têm focado os investimentos no exterior em ações.

O maior entrave ao investimento dos fundos de pensão brasileiros além-mar, no entanto, é normativo, conforme observa Raphael Santoro, consultor de investimentos da Mercer. Pela resolução do CMN, essas aplicações devem passar necessariamente por um fundo sediado no Brasil que investe em outros fundos no exterior. A fundação pode deter no máximo 25% das cotas desse veículo, o que significa dizer que ela precisa encontrar pelo menos mais três cotistas dispostos a entrar no mesmo barco. Porém, achar investidores com estratégia de alocação similar e casar o interesse de todos não costuma ser tarefa fácil.

Por isso, mesmo que existam fundações com apetite para abocanhar nacos maiores, a expectativa é restrita: o mercado deve se desenvolver lentamente. Tome-se o exemplo da Previ, que aplicou recentemente R$ 30 milhões num fundo global de ações gerido pela BlackRock. Pela política de investimento do fundo de pensão, esse montante poderia ser bem maior — até 0,22% do seu patrimônio de cerca de R$ 165 bilhões, o equivalente a R$ 350 milhões, em apenas um fundo ou distribuídos entre vários. Antonio Benevides, gerente de mercado de capitais da Previ, avalia que a quantia investida dificilmente alcançará esse valor. Considerando que a fundação pode ter no máximo 25% das cotas de um fundo, este deveria ter patrimônio superior a R$ 1,4 bilhão para absorver todos os recursos. Até agora, o maior fundo mútuo criado para receber aportes das fundações foi justamente o da BlackRock, que recebeu recursos de seis instituições e alcançou patrimônio de R$ 205 milhões. “Todos os nossos investidores revelaram interesse em aumentar as alocações, mas antes querem acompanhar o investimento para ver se vale a pena”, afirma Bruno Stein, diretor da BlackRock.

A Fundação Cesp aplicou R$ 12 milhões em dois fundos de ações — o da BlackRock e outro da Schroders. Contudo, não deve aumentar a quantia investida ao longo do ano: “Temos que ir devagar. Ninguém navega numa nova classe de ativos aplicando uma parte representativa do patrimônio”, diz Jorge Simino, diretor de investimentos da Fundação Cesp. Hoje, o montante administrado pelo fundo de pensão é de aproximadamente R$ 22 bilhões.

Unindo forças
A necessidade de as fundações diversificarem seus investimentos teve início com a queda mais acentuada da taxa de juros, a partir de 2012. É a opinião de Luiz Fernando Pedrinha, responsável pela área de investidores institucionais da Franklin Templeton. Porém, foi só ano passado que elas deram um passo concreto nesse sentido. Em abril, a Previ promoveu um encontro entre 15 gestores de recursos e representantes de várias entidades de previdência fechada que culminou com a escolha de quatro gestores para investir no exterior: BlackRock, Schroders, Franklin Templeton e J.P. Morgan.

Como as fundações só podem aplicar em ativos estrangeiros a partir de um fundo local, a BB DTVM, já parceira de longa data delas, criou quatro fundos que investem na carteira dos gestores escolhidos. Todas elas aplicam em ações com alta liquidez, de grandes empresas, e são vistas como conservadoras. “Os resultados do investimento em ações globais têm baixa correlação com os obtidos no mercado brasileiro, não só pela diversificação geográfica, mas também porque no exterior há papéis de mais segmentos”, afirma Carlos Takahashi, presidente da BB DTVM.

Agora que a porta foi aberta, outras gestoras devem entrar. É o caso da independente M Square, que terá um fundo de ações globais distribuído para institucionais pela Itajubá Investimentos. O M Square Global Equity Managers já tem patrimônio de R$ 127 milhões e aplica em fundos de ações de gestores estrangeiros que atuam com foco em valor.

Até o momento, as entidades de previdência estão olhando, essencialmente, para os fundos de ações. Entender esse mercado é mais fácil, em comparação com, por exemplo, o de renda fixa, que envolve análise de crédito. Supõe-se, entretanto, que, passado o momento inicial de aprendizado, outras classes de ativos terão lugar no portfólio das fundações: “O segundo movimento de aplicação no exterior deve ser em private equity”, analisa Garcia, da Itajubá. Uma nova leva de investimentos também pode ocorrer se a regulamentação da previdência aberta, que hoje não permite o aporte de recursos em ativos estrangeiros, for alinhada com a da congênere fechada.

Caso as aplicações no exterior se revelem um investimento de retorno atraente e pouco risco, Simino, da Fundação Cesp, acredita que elas deverão aumentar consideravelmente. “É possível que as fundações brasileiras concentrem 5% do seu patrimônio no exterior nos próximos cinco anos”, prevê. Expectativa similar à de Stein, da BlackRock: “O percentual aplicado fora pode chegar a 3% do patrimônio em quatro anos”. Para ele, são poucas as chances de o número crescer muito mais do que isso, já que o Brasil é visto como um país de grandes oportunidades em renda variável e infraestrutura no longo prazo. Na renda fixa, os juros permanecem elevados em relação ao resto do mundo. Ainda assim, a diversificação geográfica tende a ser positiva para os fundos.
Os primeiros resultados da expedição poderão ser conferidos em breve.

Ilustrações: Beto Nejme/Grau180.com


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