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Airbnb e Uber despertam a atenção de investidores para startups da economia compartilhada

Gestão de Recursos / Reportagem / Edição 146 / 1 de novembro de 2015
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Ilustração: Marco Mancini/Grau180.com

premioA primeira coisa que chamou a atenção da executiva brasileira Maria Paula Oliveira ao desembarcar em São Francisco, na Califórnia, em maio de 2013, foi um carro com um imenso bigode rosa. Estava na cidade do amor livre, “onde tudo pode”, e imaginou que se tratasse de algo relacionado ao movimento gay. Não demorou a descobrir que seu palpite estava errado. O veículo era o símbolo de um dos ícones da economia compartilhada: a Lyft, companhia de transporte concorrente da Uber (ambas colocam em contato motoristas particulares e potenciais usuários por meio de um aplicativo de celular). A partir daí, a proximidade de Maria Paula com a economia compartilhada só aumentou. “Um dia, me sugeriram pedir a outra pessoa que fizesse supermercado para mim e mandasse entregar via Instacart (aplicativo de delivery de compras). Eu já havia usado Airbnb e Couchsurfing para encontrar hospedagem, e então pensei: tem alguma coisa muito grande mudando.”

Para entender o tamanho dessa transformação, Maria Paula tomou uma decisão inusitada. Em outubro de 2013, resolveu fazer uma imersão de 75 dias na economia compartilhada — a ideia era tentar obter por meio dela tudo o que precisasse. Uma das primeiras coisas que fez foi usar o Feastly para oferecer um jantar pago em casa. A proposta do aplicativo é juntar quem é bom na cozinha com quem é bom de garfo. “Foi uma das melhores experiências que eu e meu marido tivemos”, conta. “Esse movimento é tão forte em São Francisco que, assim que postei o anúncio do jantar, vendi todos os lugares em menos de um dia. O único problema foi que na data faltaram cadeiras”, lembra Maria Paula. A solução? Usar de novo ferramentas da economia compartilhada para encontrar quem as emprestasse. O mergulho nesse universo foi tão intenso que a executiva, com passagens no Brasil pela Serasa Experian, se tornou consultora de negócios especializada em ajudar empresas de inovação.

Dinheiro não falta

A economia compartilhada era, até por volta de 2008, mais uma das promessas gestadas no efervescente Vale do Silício, na Califórnia. Foi só depois da disseminação dos smartphones e do acesso à internet para uso em celulares que uma série de negócios começou a ser pensada dentro da lógica da mobilidade e da conveniência, de forma inédita. Esse foi o estopim para o surgimento das companhias que seduziram Maria Paula e hoje fazem a cabeça de milhões de pessoas — entre elas, os investidores.

É gigantesco o volume de dinheiro injetado em companhias da economia compartilhada, principalmente nos Estados Unidos. De acordo com a consultoria americana Crowd Companies, as empresas do gênero já receberam cerca de US$ 26 bilhões de investidores de todo o mundo. O primeiro aporte foi feito na americana Elance-oDeske, em 2000 — hoje chamada Upwork, ela coloca em contato trabalhadores freelancers e potenciais empregadores. A cifra é mais de quatro vezes superior aos US$ 5,7 bilhões arrecadados em conjunto (antes da venda do controle ou abertura de capital) por 17 estrelas das redes sociais, entre elas Facebook, Twitter e Youtube, e cresce em ritmo acelerado. Até 2012, as empresas da economia compartilhada atraíam anualmente menos de US$ 1 bilhão em investimento. Em 2013, esse montante subiu para US$ 1,8 bilhão e, em 2014, para US$ 8,5 bilhões. Neste ano, até setembro, o total beirava US$ 13 bilhões.

De 2010 para 2015, o grupo de gestoras de capital de risco que investem em negócios da economia compartilhada também deu um salto. Saiu de menos de 20 para 198, em abril, de acordo com a CB Insights, consultoria especializada em reunir informações sobre os movimentos de gestoras de venture capital e investidores-anjo. A lista de interessados em aportar recursos nesse segmento é vasta: inclui desde estrelas da música americana, como Britney Spears, a figurões da nova economia, como Jeff Bezos (Amazon) e Shawn Fanning (Napster), a gigantes do setor financeiro, como Goldman Sachs e BlackRock. A Uber já captou US$ 6,3 bilhões de investidores. Sua homóloga na China, a Didi Kuaidi, US$ 4,4 bilhões. O Airbnb, US$ 2,3 bilhões.

Menos vulneráveis

A atração dos investidores pela economia compartilhada nada tem a ver com modismo. O modelo de negócios dessas empresas é menos vulnerável a oscilações econômicas, já que, de modo geral, elas não produzem nada. Seu trabalho é promover e mediar por aplicativos e outras plataformas digitais a relação entre pessoas que têm recursos subutilizados e pessoas que querem utilizá-los. “Esse modelo permite o acesso ao excedente de capacidade que está ao nosso redor”, observa Lisa Gansky, autora do livro Mesh: por que o futuro dos negócios é compartilhar. Ativa investidora de companhias desse segmento, ela já colocou dinheiro em cerca de duas dezenas de empresas, entre as quais TaskRabit, Feastly e Sidecar. Para ela, a força da economia compartilhada vem do fato de os usuários poderem acessar o que precisam, quando precisam e só pagar pelo que usam.

Um dos exemplos mais bem-acabados do modelo é a Uber. O aplicativo da companhia para celular permite que qualquer pessoa cadastrada e dona de um carro trabalhe como motorista para outras que precisam de transporte. Funciona de maneira muito parecida com um táxi, mas sem a necessidade de licenças públicas. De forma similar, o Airbnb conecta proprietários de imóveis a viajantes interessados em hospedagem por curtas temporadas. Tudo de forma remota, rápida e sem burocracia. Nos dois casos, a comunidade de usuários pode avaliar os serviços prestados. “A origem dos negócios relacionados à economia compartilhada está na imensa quantidade de recursos desperdiçados do lado dos consumidores”, diz Derek Chu, um dos executivos líderes da área de investimentos em empresas da economia compartilhada da americana Menlo Ventures. Fundada em 1976, é uma das mais antigas gestoras de capital de risco do Vale do Silício.

Na visão de Chu, os marketplaces — termo usado pela Menlo para classificar companhias como Uber e Airbnb — são a forma mais eficiente de acesso e realocação de recursos desperdiçados. “É uma situação em que todos ganham. Do lado da demanda, as pessoas têm acesso ao que querem. Do lado do fornecedor, é possível fazer mais dinheiro. E o marketplace coleta um percentual da transação por estar no meio do caminho e ser a parte que dá segurança ao negócio”, explica o executivo.

A Menlo é atualmente uma das maiores investidoras em empresas da economia compartilhada. Seu portfólio é formado por 11 negócios do gênero, entre os quais a Uber. No segmento de moda, por exemplo, a gestora investe na Poshmark, plataforma para as mulheres comprarem ou venderem roupas que não usam mais. Na área de animais de estimação, aportou recursos na Hover, uma espécie de Airbnb para cachorros, gatos e outros bichos. Em comida, está na Munchery, que entrega em casa refeições preparadas por chefes de cozinha. Chu não dá detalhes do desempenho de cada uma delas. Afirma apenas que a Menlo, por ora, está “feliz” com todos os investimentos.

A avaliação é parecida na General Atlantic, outra grande investidora em negócios da economia compartilhada, com participações na Uber, no Airbnb e na chinesa Meituan, a versão chinesa da Groupon. De acordo com Anton Levy, diretor administrativo e global de internet e tecnologia da gestora, as companhias desse segmento estão transformando o comportamento dos consumidores e, ao longo do processo, também o de indústrias globais, como a de viagens. Uma vantagem desses negócios, afirma, é a conjugação de qualidades que impulsionam sua rentabilidade. Como têm uma estrutura de pessoal enxuta e não precisam investir em ativos para crescer, as margens tendem a aumentar muito na medida em que mais pessoas usam a plataforma, detalha Levy.

A baixa quantidade de ativos também faz com que essas empresas larguem na frente das tradicionais na hora de atender picos de demanda. Da mesma forma, em momentos de crise, a adaptação é mais fácil. Por fim, tão importante quanto essa flexibilidade é o potencial que algumas delas possuem de se expandir para além dos serviços que lhes deram origem, acrescenta Lisa Gansky. A Uber, por exemplo, está testando a oferta de serviços de entregas; o Airbnb, pacotes de turismo e jantares relacionados a viagens.

A expansão faz sentido diante do potencial desse mercado. Segundo estudo feito pela PwC, a economia compartilhada pode movimentar até US$ 335 bilhões em 2025, levando em conta apenas cinco segmentos de mercado: crowdfunding e empréstimos diretos, compartilhamento de veículos, TV e vídeo, hospedagem e plataformas de busca de trabalho para freelancers. Em 2013, verificou a consultoria, as companhias da economia compartilhada geraram US$ 15 bilhões em receita, o equivalente a 5% do total movimentado por empresas da economia tradicional nos setores pesquisados. Daqui a dez anos, o percentual de participação projetado alcança 50%.

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Sinais de bolha?

Há quem avalie, no entanto, que as companhias da economia compartilhada geram mais espuma do que substância e que uma bolha semelhante à das ponto.com poderia estar se formando ao redor delas. Nas estimativas do mercado, a Uber valia no fim de setembro US$ 50 bilhões. O número, calculado com base em quanto a companhia já conseguiu captar em rodadas de investimento, é ligeiramente inferior ao valor de mercado de gigantes centenárias da velha economia — como a GM, dona de uma capitalização de mercado de US$ 52,6 bilhões. Chris Myers, presidente da BodeTree, startup dedicada a tornar temas financeiros facilmente compreensíveis para pequenos empreendedores, fez um levantamento e chegou à conclusão de que, cotada ao valor atual, a Uber vale mais que 80% das empresas listadas no índice S&P 500. Nos cálculos apresentados por ele num artigo de maio deste ano publicado na revista Forbes, a Uber teria que gerar anualmente receita bruta de US$ 37,7 bilhões e receita líquida de US$ 7,1 bilhões para justificar a avaliação. Porém, segundo dados divulgados pela imprensa, a companhia irá alcançar neste ano US$ 10 bilhões de receita bruta e US$ 2 bilhões de receita líquida. Por ter capital fechado, a Uber não tem obrigação de publicar suas informações financeiras.

O Airbnb, por sua vez, é precificado em US$ 25 bilhões. Outras 13 empresas têm valor estimado em mais de US$ 1 bilhão — Wework, Didi, LendingClub, Etsy, HomeAway, Lyft, Beepi, Prosper, Chegg, Ola Cabs, Tujia, Rocket e Grab Taxi. A maior parte delas, no entanto, tem capital fechado, o que dificulta a avaliação da saúde financeira e dos resultados alcançados até agora. Entre as maiores, cinco — Etsy, HomeAway, Chegg, Lending Club e Freelancer — já fizeram uma oferta pública inicial de ações (IPO). Com exceção da HomeAway, as outras nunca reportaram lucro.
O estágio de maturação dos negócios e a dificuldade de algumas delas de controlar o rápido crescimento das despesas explicam o aperto na última linha do balanço.

Diante desse cenário, as ações dessas companhias padecem. Inicialmente vendidos a US$ 30 em 16 de abril, um dia após o IPO, os papéis da Etsy estavam cotados a menos da metade disso no fim de setembro. As ações de HomeAway, Chegg e Lending Club também valiam, no encerramento do nono mês do ano, menos ou o mesmo preço do IPO. A exceção é a australiana Freelancer. Suas ações foram lançadas a 0,5 dólares australianos no fim de 2013 e em 22 de setembro valiam por volta de 1,4. O valor reflete os resultados positivos da companhia. No primeiro semestre de 2015, registrou lucro de 14,7 milhões de dólares australianos, montante 40% superior ao obtido no mesmo período de 2014.

Tropeços

O desempenho das companhias de economia compartilhada listadas em bolsa mostra que é preciso cautela. A euforia com o setor pode atrapalhar a visualização dos riscos. Questões regulatórias, por exemplo, podem travar o funcionamento dessas empresas. O serviço da Uber enfrenta resistência em diversas grandes cidades do mundo, nas quais o serviço de transporte público em veículos de passeio é monopólio de táxis (leia também a coluna Análise). Já São Francisco, berço da economia colaborativa, rediscute atualmente a legislação de aluguéis de curta duração, motivada em parte pela desconfiança de que a dedicação exclusiva de imóveis a serviços como o Airbnb possa agravar a falta de moradia na cidade.

Apesar desse cenário, Chu, da Menlo, não vê motivo para desânimo. “Nossa prioridade, neste momento, é prever os riscos do negócio. Ao longo do tempo, se ele for bem-sucedido, os percalços legais podem ser superados”, afirma. “O risco maior, ao nosso ver, é deixar de embarcar nessas grandes companhias. ”

Autora do livro Peers Inc, Robin Chase pondera que as startups da economia compartilhada, assim como outras empresas em estágio inicial, têm mais chances de fracassar. Porém, isso é algo a que os investidores desse filão estão acostumados. Neste ano, a Homejoy, startup da economia compartilhada especializada em serviços de limpeza doméstica, encerrou suas atividades depois de levantar US$ 39,7 milhões em cinco rodadas de captação de recursos. De acordo com o site CrunchBase, que compila dados sobre o mercado de startups de tecnologia, a companhia possuía cerca de 20 investidores — entre eles, nomes proeminentes como Google Ventures, YCombinator, First Round e Andreessen Horowitz. O motivo da quebra foram processos trabalhistas movidos por prestadores de serviço da Homejoy. Eles alegaram ser tratados como funcionários pela empresa, embora não recebessem os benefícios previstos pela legislação.

Em edição recente, a revista de negócios e inovação Fast Company publicou uma reportagem intitulada “A economia compartilhada está morta, e nós a matamos”, na qual trata do fracasso de oito grandes promessas lançadas entre 2007 e 2010. Entre elas, Ecomodo, Crowd Rent, Share Some Sugar e NeighborGoods. Todas elas facilitavam o empréstimo ou aluguel de bens, serviços ou espaço entre pessoas físicas. Dessas, só resta a última, segundo a publicação, e graças a um investidor com interesse pessoal no negócio. Na maior parte dos casos, o desinteresse do público no serviço foi o motivo para o fim das empresas, informa a revista. Em geral, havia mais gente interessada em alugar ou pegar emprestado algum item, como uma furadeira, do que gente disposta a cruzar a cidade para buscá-lo. A diferença de preço entre comprar uma nova e alugar também não compensava.

Negócios verde-amarelo

No Brasil, os dois nomes mais conhecidos da chamada economia compartilhada são os das gigantes Airbnb e Uber.
A segunda, em particular, vem causando polêmica e atraindo grande atenção da imprensa por causa da reação negativa, e em alguns casos violenta, de taxistas ao serviço. Mas à sombra delas cresce o interesse pela economia compartilhada e o número de negócios que funcionam dentro desse sistema.

Maria Paula Oliveira conta que em visita ao Brasil, em setembro, resolveu reunir de improviso alguns contatos profissionais e colegas para um bate-papo sobre o tema. A expectativa era de que aparecessem entre 15 e 20 interessados, mas o encontro acabou reunindo 80 pessoas. Segundo ela, existem no País cerca de 100 iniciativas mapeadas na área. Entre os exemplos mais conhecidos estão sites de crowdfunding, como o Catarse. Mas há também as plataformas Cabe na Mala, que coloca em contato viajantes internacionais e gente que precisa de algo de fora do Brasil; Quinto Andar, uma versão do Airbnb para locação de imóveis por longo prazo; Tem Açúcar, que permite pedir emprestado a quem mora por perto bicicletas, aspirador de pó e outros objetos; e Bliive, criada para viabilizar a permuta de conhecimentos entre os usuários. Presente em aproximadamente 100 países, a Bliive é uma das startups brasileiras mais badaladas internacionalmente. Sua fundadora, Lorrana Scarpioni, foi apontada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) como um dos dez brasileiros mais inovadores.

São várias as formas com que essas companhias têm se capitalizado. Segundo declarações de seus sócios à imprensa, a Quinto Andar se financia com investidores nacionais e estrangeiros — os seus nomes, contudo, não foram revelados. Já a Cabe na Mala tem como investidor-anjo Fabio Povoa, co-fundador da Movile, especializada em criar aplicativos para plataformas móveis. A Bliive participa atualmente do programa Sirus, do governo britânico, que oferece bolsas de £ 50 mil a projetos promissores. Ainda há desafios a serem vencidos. Mas uma coisa é certa, na visão de Omar Antônio Caraballo Montes de Oca, gerente sênior da prática de private equity e bens de consumo da A.T.Kerney: empreendedores costumam encontrar uma solução quando existe demanda.

Mundo compartilhado

Alguns dos principais negócios da economia compartilhada, no Brasil e lá fora

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