Passos além do ESG

Conferência na Califórnia deixa claras a complexidade e a relevância do investimento de impacto

Gestão de Recursos / Artigo / 3 de dezembro de 2017
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Marcelo Coimbra*

Marcelo Coimbra*

Os desafios globais hoje são enormes, e, nesse contexto, tem ficado a cada dia mais evidente a questão dos investimentos de impacto. Não foi à toa que recentemente cerca de 3 mil pessoas — entre as quais me incluo — reuniram-se em São Francisco, na Califórnia, para durante três dias discutir a dinâmica desse tipo de investimento na Socap17 – Social Capital Markets, conferência que já está em sua 10ª edição.

Partindo da premissa da força do capital, existe um ideal compartilhado por aqueles que de alguma forma se envolvem com investimento de impacto: colocar o poder do capital a serviço da mudança social e ambiental. Não há dúvidas de que é necessário buscar caminhos para redirecionar o investimento; ele deve estar alinhado ao empreendedorismo social de forma que se garanta simultaneamente retorno financeiro.

Uma pergunta está no centro do debate: o mercado de capitais poderia atuar positivamente em relação às mudanças climáticas, promovendo inclusão social sem abrir mão do lucro? A eclosão de um novo mercado de empresas com negócios sociais — uma verdadeira “economia de impacto” — representa uma resposta afirmativa a essa questão.

Trata-se de um nível mais avançado que a introdução de fatores ESG (environmental, social and governance) nas empresas. O conceito de negócios de impacto não se restringe à adoção de medidas que reduzam impactos sociais e ambientais negativos da operação ou do processo produtivo. A inserção da dimensão ESG nos negócios de impacto é bem mais profunda; chega à essência ao colocar questões ambientais, sociais ou coletivas como objetivo em si da empresa, mas sem renúncia ao lucro. São empresas com um forte sentido de propósito.

Podem ser citadas como áreas de interesse de negócios de impacto microcrédito, habitação popular, energia renovável, serviços de saúde para a baixa renda, eficiência energética e agricultura sustentável.

Pesquisa anual da GIIN (Global Impact Investing Network), principal entidade dedicada ao investimento de impacto e participante da Socap17, mostrou que há no mundo 114 bilhões de dólares direcionados a impact investing assets neste ano, alta de 17% sobre 2016.

Uma breve observação da programação da Socap17 permite que se compreenda os temas que estão em torno do investimento de impacto, com destaque para negócios e propósito, inovação social, equidade racial, economia de vizinhança e comunitária, educação, mudanças climáticas, fintechs inclusivas, blockchain, bancos comunitários, B Corps, social bonds e empresas sociais.

O investimento de impacto também já recebeu acolhida no mundo jurídico. Em especial nos EUA, escritórios butiques especializados e áreas de grandes escritórios trabalham com assuntos relacionados a B Corps, social purpose corporations, estruturação de fundos, incentivos fiscais, social bonds, impact securities e inserção de exigências sociais e ambientais em documentos jurídicos nas operações de fusões e aquisições.

O perfil dos participantes da conferência refletiu com fidelidade a composição plural do ecossistema do investimento de impacto: grandes fundos de investimento que já nasceram nesse ambiente, “impact ventures”, investidores tradicionais que decidiram alocar recursos em negócios sociais (family offices, por exemplo), representantes da academia¹ e empreendedores sociais de diversas áreas.

É consenso que políticas sociais estatais, declarações de boa vontade — via organizações e acordos internacionais — e ações filantrópicas e de responsabilidade social corporativa não são capazes de fazer frente aos desafios globais — daí a busca de um caminho diferente. A atividade econômica é causadora de grande parte dos problemas da humanidade, mas se devidamente orientada por valores éticos e se perseguir fins sociais e ambientais poderá contribuir decisivamente para a virada do jogo. E um bom funcionamento do mercado é condição básica para o livre desenvolvimento de uma nova economia, fundamentada na busca da satisfação das verdadeiras e mais essenciais necessidades humanas. Players do investimento de impacto afirmam que um dos maiores desafios hoje é mensurar o propósito arraigado em cada empresa e o impacto que de fato a organização produz.

Importante destacar a participação, na Socap17, de cidades como Washington DC, Amsterdã e Toronto. Ao apresentar suas políticas de incentivo ao investimento de impacto, elas mostraram que o setor público tem o importante papel de criar estratégias para promover o empreendedorismo social como forma de impulso ao desenvolvimento local. E a nova visão de smart cities fortalece ainda mais essa relação público-privada na área de investimentos de impacto.

A Socap17 deixou claro, portanto, que investimento de impacto não é apenas um modismo. Trata-se de uma consistente e efetiva resposta a desafios que a humanidade enfrenta hoje.


*Marcelo Coimbra (marcelo.coimbra@fcrlaw.com.br) é sócio do escritório Fleury, Coimbra e Rhomberg Advogados

 


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Tags:  mercado de capitais investimento investimento de impacto Marcelo Coimbra Socap17 Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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