Olho nas eleições

Em momento de incertezas econômicas, gestores de recursos fazem projeções para o cenário político do ano que vem

Gestão de Recursos/Reportagem/Edição 121 / 1 de setembro de 2013
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O panorama eleitoral em 2014 é uma incógnita. Protestos populares por melhorias na saúde, no transporte e na educação varreram a confortável popularidade da presidente Dilma Rousseff, ameaçando a sua reeleição. As intenções de voto dirigidas a ela caíram de 51% para 30% ao longo de junho, segundo pesquisa Datafolha divulgada no dia 29 daquele mês. Do outro lado, a oposição ganhou fôlego. Marina Silva tinha 16% logo após o feriado de Corpus Christi e comemorou 23% no dia de São João. Aécio Neves foi de 14% a 17%, e Eduardo Campos oscilou de 6% para 7%. Sem um palpite certeiro sobre quem ocupará o Palácio do Planalto, as gestoras de recursos aprofundam as análises sobre o ambiente político, com o intuito de identificar seus potenciais efeitos sobre o cenário econômico. E, desde já, formulam estratégias de alocação a fim de se adaptar às situações mais prováveis.

A SulAmérica Investimentos é uma das gestoras que trabalha com o cenário de continuidade do PT no poder. Ainda assim, diante das incertezas, preferiu se precaver e adotar uma estratégia de investimento de curto prazo. Marcelo Mello, vice-presidente, conta que a gestora vendeu títulos públicos vinculados a taxa de juros e inflação com vencimento a partir de 2017 e adquiriu outros com prazo para 2015. “Passamos a adotar um estilo mais tático”, diz. O executivo observa que as dúvidas sobre os rumos da política se refletem nos juros futuros — o preço médio da taxa projetada para janeiro de 2017 subiu de 9,8% para 11,5% entre 3 de junho e 16 de agosto. “Veremos operações menos focadas no longo prazo”, avalia.

O favoritismo de Dilma também é a aposta da XP Gestão de Recursos, embora lhe agrade mais o triunfo de Aécio Neves, pré-candidato pelo PSDB. Marcos Peixoto, gestor de fundos de renda variável da XP, considera a eventual ascensão de um governo tucano mais positiva para o mercado. “O grau de intervencionismo cairia, deixando a economia mais livre, como já foi antes”, explica. Peixoto avalia que, se reeleita, Dilma não conseguirá reverter o fraco desempenho econômico.

A queda dos níveis de aprovação de Dilma Rousseff está ligada à piora significativa da percepção popular a respeito dos indicadores econômicos do País. De acordo com a mesma pesquisa do Datafolha, a parcela da população que acredita na alta do desemprego subiu de 31% em março para 44% no fim de junho. Já o número de pessoas que espera a redução do desemprego diminuiu de 41% para 19% no mesmo período. No que se refere à inflação, a impressão de que ela irá aumentar cresceu entre os entrevistados: de 45% para 54%. “A inflação alta, somada à maior volatilidade do mercado financeiro global e à crescente incerteza sobre o desempenho do mercado de trabalho, deteriora a confiança dos empresários, dificulta a expansão de investimentos e aumenta o risco de baixo desempenho no segundo semestre de 2013”, afirma a equipe de análise econômica do Credit Suisse, em relatório de julho. Para os analistas do banco, se Dilma mantiver seu índice de aprovação em “ótimo e bom” acima dos 30% — como registra atualmente o Datafolha —, será reeleita em outubro de 2014; caso esse indicador caia, sua vitória dependerá das condições políticas e econômicas na época do pleito.

O relatório de gestão publicado em junho pelo fundo multimercado Verde FIC FIM, gerido por Luis Stuhlberger (veja entrevista na página 45), da Credit Suisse Hedging-Griffo (CSHG), também traz expectativas pouco animadoras em relação ao Brasil nos próximos anos. O documento alerta para: o possível surgimento de candidaturas populistas em 2014; a alta “conta” a ser paga em 2015, decorrente dos esforços que o PT fará para ser reeleito; e a diminuição do investimento estrangeiro direto no ano que vem, devido à incerteza eleitoral. Essas análises, aliadas a outras de ordem macroeconômica, levaram a CSHG a apostar no esgotamento do atual modelo de economia. Antevendo esse cenário, o Verde fez alterações em sua estratégia de investimento: montou posições de hedge em juro e câmbio brasileiros e diminuiu a exposição ao mercado acionário nacional. Além disso, no início deste ano, realocou recursos, principalmente, para ativos nos Estados Unidos, no México e na Europa. A operação tem sido exitosa: apenas no primeiro semestre, o fundo rendeu 5,9% — resultado 2,66% superior à inflação.

Na opinião de Will Landers, gestor de fundos da BlackRock para a América Latina, é cedo para fazer previsões acerca dos rumos da disputa eleitoral. Porém, em linha com os demais gestores ouvidos pela reportagem, Landers vê Dilma como favorita. “Ela é a presidente e os outros ainda querem ser; essa é uma vantagem enorme”, diz. O gestor admite, no entanto, a preferência de alguns investidores por um governo pró-mercado, que interfira menos na economia e dê mais espaço ao setor privado.

Estrangeiros à espreita
Com a repercussão das manifestações populares de junho nos meios de comunicação internacionais, cresceu o interesse dos estrangeiros em compreender o momento político brasileiro e seus impactos na disputa eleitoral de 2014. De olho nessa demanda, o banco Brasil Plural publicou, em junho, o relatório Presidential election in Brazil: The contest, the players and their chances. O documento apresenta o perfil dos presidenciáveis e analisa as perspectivas de vitória de cada um nas próximas eleições. Para o Brasil Plural, Dilma tem grandes chances de se reeleger, graças aos baixos índices de desemprego registrados em seu governo e à força de programas sociais empenhados desde o governo Lula, como o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família. Aécio, por sua vez, é apontado como o seu principal adversário, devido à bem avaliada gestão do governo de Minas Gerais entre 2003 e 2010. São descritos, ainda, os méritos de Eduardo Campos, do PSB, atual governador de Pernambuco, e de Marina Silva, da Rede Sustentabilidade. Enquanto Campos é reconhecido por desenvolver os índices de educação de seu estado, Marina tem a simpatia de alguns agentes do mercado, principalmente, pela aliança com Guilherme Leal, copresidente do conselho de administração da Natura.

Com a repercussão dos protestos de junho na mídia internacional, cresceu o interesse dos estrangeiros pelo atual momento político do Brasil e pelas eleições de 2014

O HSBC também se dedicou a examinar questões políticas no relatório No reforms, no recovery, direcionado a clientes internacionais. O documento avalia que o recrudescimento das tensões políticas no Brasil até as próximas eleições deve colaborar para a desvalorização do real. Na previsão do banco, o dólar se estabelecerá na faixa de R$ 2,40 em 2014, variando conforme a percepção de risco do setor privado sobre o crescimento do País. O texto propõe uma “agenda positiva”, baseada em três reformas que poderiam recuperar a economia. A primeira delas seria na área da previdência; a segunda, no modelo produtivo, que deveria privilegiar investimentos em educação e capital humano; e a terceira seria a reforma tributária, com o objetivo de reduzir a carga fiscal. O HSBC duvida, entretanto, de que o novo governo fará as mudanças necessárias após as eleições de 2014. Os atritos políticos que esses assuntos tendem a gerar serão uma pedra no sapato de quem quer que seja.


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