O preço da tentação

Acompanhar com frequência o desempenho de aplicações não é tão bom quanto parece

Gestão de Recursos / Artigo / 26 de maio de 2017
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Hudson Bessa*

Hudson Bessa*

É natural que as pessoas gostem de fazer coisas prazerosas e que provoquem sensações de bem-estar e satisfação, como viajar e comer bem. Como parte considerável desses prazeres tem custos que muitas vezes não cabem no orçamento, é preciso desviar recursos do consumo, abdicar de desejos e acumular uma reserva financeira suficiente para custear essas ambições. Investir é isso.

Como diz Charles Ellis, trata-se de renunciar a prazeres no presente na esperança de se alcançar algo melhor no futuro. O ato de investir está intrinsecamente associado a objetivos de médio ou longo prazos, que podem ser classificados genericamente em três categorias: aquisição de bens ou serviços de valor relativamente elevado, acúmulo de recursos para fazer frente a adversidades e manutenção de um padrão de vida confortável na aposentadoria.

Frank Reilly e Keith Brown definem investimento como o comprometimento de recursos financeiros por um período de tempo com objetivo de recebê-los de volta remunerados por uma taxa de retorno que compense:

— o tempo em que foram cedidos e ficaram indisponíveis;

— a inflação acumulada do período;

— a incerteza inerente ao futuro.

Traçado um objetivo, os diferentes ativos financeiros devem ser avaliados em termos de retorno, risco e prazo. Ou seja, os recursos devem ficar indisponíveis por um determinado período e remunerados a uma taxa que resulte em um montante suficiente para custear os projetos levando em consideração o risco inerente de cada opção. Vale destacar que o objetivo de investimento, o volume inicial dos recursos, o prazo e o nível de aversão ao risco são conhecidos na partida. De maneira diversa, a taxa de remuneração e o risco (ou volatilidade) dos ativos não passam de meras expectativas no ato da aplicação.

Objetivos não mudam com frequência, tampouco as características dos ativos selecionados; portanto, não parece fazer sentido alterar a composição dos investimentos em prazos relativamente curtos.

Quanto mais distante está o objetivo, por mais tempo se pode abrir mão dos recursos em prol da obtenção de uma remuneração mais alta. Nesses casos é possível escolher classes de ativos que embutam maior risco (e, por consequência, maior perspectiva de retorno) — ações em detrimento de títulos públicos, por exemplo. Dito de outra forma: se não há necessidade imediata dos recursos, é factível que se aceite maior risco na busca de maior retorno.

No entanto, como prescrito pela teoria do prospecto, lançada pelos pesquisadores israelenses Kahneman e Tversky em 1979, as pessoas são avessas às perdas e avaliam seus investimentos em termos de ganhos e perdas. Assim, é natural que, ao verificarem os resultados alcançados por suas aplicações financeiras, os investidores se sintam tensos e desconfortáveis com os retornos negativos. Esse incômodo muitas vezes leva a resgates precipitados e à realização de perdas que poderiam ser revertidas ainda dentro do prazo compatível com o horizonte de investimento.

Sholmo Benartzi e Richard Thaler publicaram em 1995 um estudo clássico sobre aversão a perda. Segundo eles, quanto mais longo o horizonte de investimento pretendido menor deveria ser a resistência ao risco e, consequentemente, menor a frequência com que o investidor avalia os ganhos e perdas de suas aplicações.

A partir de uma série histórica composta por retornos mensais (1926 – 1990) de índices de ações e títulos do governo americano, os autores simularam diferentes comportamentos em relação a uma carteira composta integralmente por ações ao longo de todo o período e a outras em que os investidores, diante de reveses, transferem recursos para os títulos federais. Resultado: os investidores que tivessem aferido seu portfolio em prazos mais curtos e transferido recursos entre os ativos teriam incorrido em perdas potenciais proporcionais à maior frequência de avaliação. O acompanhamento mais sistemático, mostra o trabalho, levou a perdas que alcançaram até 6,5% ao ano. O fenômeno foi batizado por Benartzi e Thaler de “aversão a perda míope” (myopic loss aversion).

A conclusão do estudo reforça a ideia de que, para consecução de objetivos de longo prazo, os instrumentos financeiros escolhidos devem ser igualmente de longo prazo. Por isso, o investidor deve resistir à tentação de se desfazer dos ativos que no curto prazo apresentam prejuízos e persistir em sua tese de investimento. Evitar acompanhar com frequência a carteira parece ajudar nessa tarefa e, consequentemente, na criação de valor para o investidor. Conselho oportuno, em especial diante da profusão de crises que parece não ter fim.


*Hudson Bessa (hudson.bessa@hudsonbessa.com.br) é doutor pela FEA-USP e consultor especializado em inteligência de mercado e processo decisório


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