Não, obrigado

Na indústria de fundos, uma curiosa relação entre demanda e oferta se estabelece: as melhores carteiras se tornam, com o tempo, indisponíveis a novos clientes

Gestão de Recursos / Reportagem / Edição 127 / 1 de março de 2014
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Uma fila de interessados em aplicar dinheiro é o sonho de consumo de qualquer gestora de fundos de investimentos, certo? Depende. Uma infinidade de assets brasileiras tem respondido a demandas desse tipo com um educado e singelo “não, obrigado”. Segundo levantamento realizado pela capital aberto e pelo consultor financeiro Marcelo D’Agosto, a maior parte das carteiras com maior rentabilidade acumulada nos últimos três anos está fechada para novos investimentos. Os dados, coletados na Economática e com as próprias gestoras, referem-se a fundos não restritos a algum tipo de investidor, com patrimônio líquido a partir de R$ 1 milhão e pelo menos cem cotistas. Dos 30 fundos multimercados mais bem-sucedidos em rentabilidade no período, nada menos que 20 pararam de aceitar novas aplicações, ao menos temporariamente. Entre os 30 mais rentáveis de ações, há 14 com as captações suspensas (veja tabelas na páginas 30 e 31). Em resumo, quem tiver dinheiro para investir terá de se contentar com as alternativas menos estreladas.

Mas o que explica a decisão de evitar novos clientes, algo que soaria incoerente em qualquer outro segmento da economia? Em uma das únicas entrevistas que concedeu, Paulo Bodin, gestor do premiado Tempo Capital, explicou em poucas palavras as razões para manter o fundo carioca fechado desde 2008, com raros períodos de captação intercalados. “Para crescer, eu precisaria contratar, o que significaria entrevistar candidatos e, depois, administrar os funcionários novos. Isso é mais cansativo do que gerir recursos”, afirmou. Na maior parte dos casos, no entanto, são menos as relações humanas e mais a estratégia das carteiras o principal motivador da recusa dos gestores a receber novos aportes. “Em um mercado relativamente pequeno como é o brasileiro, qualquer estratégia que fuja do básico se esgota rapidamente”, observa William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Exemplo clássico disso é a estratégia de investimento em ações de empresas com baixa capitalização de mercado.
Elas são 83, de acordo com índice de small caps da BM&Bovespa, ou 22,8% das 364 companhias listadas na bolsa em janeiro. Para se ter claro como esse número é pequeno, basta dizer que as 364 empresas equivalem a pouco mais de 5% do total de companhias com ações negociadas no mercado indiano ou 9% do chinês. Além de pouco numerosas, as small caps têm reduzida liquidez devido à concentração da bolsa brasileira — cinco companhias respondem por mais de um quarto do volume negociado diariamente no pregão. “É dificílimo comprar e, depois, vender papéis com baixa liquidez em grandes quantidades”, diz Pedro Ozores, sócio da gestora Guepardo, uma conhecida fã das small caps. Devido a essa estratégia de investimento, a asset tem quatro dos seus sete fundos de ações fechados para captações. “É possível vender grandes lotes de large caps em um só dia, mas não dá para fazer o mesmo com papéis menos líquidos. Isso pode afetar as cotações e, consequentemente, a rentabilidade dos cotistas”, explica o executivo.

Os fundos que trabalham com posições vendidas — apostando na desvalorização de um ativo — também costumam fechar-se a novas captações. “Não temos pouca liquidez apenas nas small caps. O mercado de aluguel de ações também anda muito limitado”, avalia Walter Maciel, CEO da gestora Quest, fundada pelo ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros. Três dos carros-chefes da asset não estão aceitando novos investimentos no momento, e um deles é o fundo Quest Total Return, do tipo “long short”. Na bolsa de valores, “ficar vendido” em um papel depende de alugá-lo no mercado, pagando uma taxa, para vendê-lo no pregão e recomprá-lo mais tarde a um preço mais baixo, embolsando a diferença. O problema é que há poucos ativos disponíveis no mercado para alugar, ainda que o volume dessas operações tenha saltado quase 30% apenas em 2013. Bom indicador da falta de papéis é o custo do aluguel: as taxas cobradas pelo empréstimo de mais de dez papéis diferentes estão acima de 20% ao ano, patamar considerado proibitivo por gestores e analistas.

Um dos maiores riscos das operações vendidas para um fundo é o chamado “short squeeze”, gerado pela alta repentina das cotações. Quando não conseguem renovar os contratos de aluguel, que em geral têm prazo de um mês, os gestores são obrigados a correr para a bolsa, comprar as ações e devolvê-las aos donos a qualquer preço. Essa corrida pressiona o valor das ações para cima, e a rentabilidade das posições short, para baixo. No ano passado, os “vendidos” em ações da B2W, dona de marcas do comércio eletrônico como Americanas.com e Submarino, foram vítimas do fenômeno. Nos dez primeiros dias de julho, a cotação do papel disparou 45% depois que a disponibilidade de aluguel caiu 20% em apenas quatro pregões. O mercado de empréstimos também se descontrolou por causa do imbróglio que envolveu as companhias do empresário Eike Batista — as taxas cobradas no aluguel de ações da petroleira OGX (hoje renomeada Óleo e Gás Participações) chegaram perto de 80% ao ano. Para evitar um prejuízo ainda maior à rentabilidade dos seus fundos nesse cenário, os gestores optam por interromper o fluxo de aplicações. “A estratégia short restringe o volume de captações”, conclui Maciel.

No, thank you
O hiato nas captações é um entrave ao crescimento das gestoras, mas José Tovar, diretor-executivo da ARX Investimentos, prefere encará-lo como “questão de prudência”. Atualmente, três fundos da asset não aceitam mais aportes. “Em geral, os gestores fecham as carteiras antes de o volume começar a atrapalhar. Trabalham com aquele patrimônio por um tempo e depois, eventualmente, abrem novas tranches de captação”, diz.

Mesmo em mercados bem maiores que o brasileiro, não é raro os fundos recusarem novos investimentos. Segundo a empresa de pesquisa de investimentos Morningstar, que acompanha o mercado de fundos nos Estados Unidos, 165 carteiras fecharam para captação durante o ano passado. Em 2009, quando o país amargou as consequências da crise financeira global iniciada um ano antes, esse número passou de 400. E não é só em tempos de desordem que as gestoras baixam as porteiras de seus fundos. Russel Kinnel, diretor de pesquisa da Morningstar, constata que em períodos de bonança do mercado de ações — como em 2013, nos Estados Unidos — os gestores também seguram o ritmo de expansão, dado o desafio de gerir um grande volume de ativos. “Quando a performance é boa, mais e mais investidores são atraídos para o mercado acionário. Isso nos Estados Unidos acontece basicamente por meio dos fundos”, relata.

Para as finanças das assets, certamente seria interessante ver seus fundos captar mais. Afinal, a taxa de administração, que remunera o trabalho dos gestores, é cobrada na forma de um percentual do patrimônio das carteiras, que cresce com a valorização dos ativos e, também, com o ingresso de recursos. Mas a manutenção dos fundos em um tamanho facilmente administrável também tem suas vantagens. “Com volumes menores, conseguimos entregar uma rentabilidade elevada, o que engorda os ganhos, inclusive, com a taxa de performance”, explica Tovar. Fundos multimercado, por exemplo, costumam cobrar taxa de administração de 2% ao ano sobre o patrimônio, mais um encargo de performance de 20% sobre a rentabilidade que exceder a referência estabelecida para o fundo, como o Ibovespa ou o CDI.

Para continuar aceitando clientes, a Guepardo buscou lançar fundos que espelhem suas estratégias principais, com prazos de resgate cada vez mais extensos. O fundo Guepardo Institucional, por exemplo, que pode ter a retirada em 30 dias, está fechado para captação. Entretanto, o Guepardo Institucional 60 e o Guepardo Institucional 90 — que aplicam nas cotas do primeiro fundo e têm carências de, respectivamente, 60 e 90 dias — permanecem abertos. “Os prazos longos nos permitem comprar e vender ações pouco líquidas sem causar um grande impacto sobre as cotas dos fundos”, defende Ozores. Nesse caso, a tática dos espelhos permite receber o novo investidor com um “sim, por favor”.

Ilustração: Beto Nejme /Grau 180.com


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