Decisões, consequências e arrependimentos de investimento

Gestão de Recursos / Seletas / Artigo / Edição 57 / 17 de novembro de 2016
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Hudson Bessa*

Hudson Bessa*

Nosso dia a dia é repleto de decisões das mais triviais — como escolher um prato na hora do almoço —, mas também cheio de outras mais complexas — como resolver em que modalidade de investimento aplicar um bônus resultante de um ano de trabalho árduo.

As decisões podem ser encaradas como o resultado da avaliação das diferentes opções disponíveis e da seleção daquela que, esperamos, será capaz de garantir a maior satisfação — ou, para os teóricos, a maior utilidade. Nesse sentido, a decisão está fundamentada em nossas expectativas sobre as consequências advindas de cada escolha possível.

Retornando ao bônus: qual seria melhor opção para aplicá-lo? Renda fixa ou renda variável? No caso da renda fixa: NTN-B longa, mais curta ou LTN? LCI, LCA ou CDB? Fundo de investimento? Trata-se de um processo que demanda um intenso esforço cognitivo e que, naturalmente, causa muita tensão.

De acordo com John R. Nofsinger, acadêmico que estuda a psicologia envolvida no investimento financeiro, as pessoas buscam sentir orgulho se si mesmas e, para tanto, tentam a todo custo evitar o arrependimento. Assim, decisões de investimento que resultam em ganhos iguais ou superiores às expectativas de retorno geram prazer e confiança e nos fazem sentir orgulhosos; a perda, por sua vez, causa dor, leva ao arrependimento e provoca aquela incômoda sensação de que não somos tão bons quanto imaginávamos.

As nuances do arrependimento podem ser bem ilustradas pelo clássico exemplo dos contumazes jogadores de loterias. Muitos deles sempre apostam na mesma sequência de números, mas, vez por outra, se veem tentados por um dilema: manter o palpite habitual ou tentar um novo, na esperança de (quem sabe?) finalmente acertar o grande prêmio. Nesses casos, surgem duas situações possíveis de arrependimento — se um jogador não muda o palpite e os novos números cogitados são sorteados ou se tenta um novo palpite e o antigo é sorteado. No primeiro caso o arrependimento nascerá da decisão conservadora, da omissão; no segundo, será decorrente de uma decisão mais ousada, de uma ação.

Estudos mostram que, em geral, o arrependimento proveniente da ação (trocar o palpite) é maior, causa mais dor e debilita mais a confiança do que o provocado pela omissão. Os teóricos atribuem essa tendência ao envolvimento emocional associado aos meses, anos, de apostas e torcida para algo que se decidiu — justo desta vez! — mudar.

Daniel Kahneman e Amos Tversky, por meio da teoria do prospecto, propuseram que as pessoas são avessas à perda, e estimaram que a dor por ela causada é duas vezes maior que o prazer decorrente do ganho. Em outras palavras, o desconforto causado pelo arrependimento deve ser muito superior à satisfação produzida pelo acerto. As decisões tendem, portanto, a privilegiar a preservação dos ganhos em detrimento de sua ampliação.

Os acadêmicos Hersh Shefrin e Meir Statman estudaram o arrependimento relacionado a decisões de investidores no mercado acionário americano e detectaram um comportamento que denominaram de efeito disposição (disposition effect). Esse fenômeno é caracterizado pela tendência à venda de ações com bons resultados cedo demais como forma de preservar os ganhos já obtidos, e, por outro lado, pela postergação da venda de ações perdedoras para se evitar o reconhecimento de perdas resultantes de decisões ruins.

Sob a perspectiva do arrependimento, o crescimento da participação dos ativos de risco no portfólio dos investidores brasileiros envolve um grande desafio. As elevadas taxas de juros pagas pelo Tesouro Nacional para financiar a dívida pública criaram uma situação inusitada, em que é possível a associação de alto rendimento com elevada liquidez e baixo risco. Aumenta consideravelmente, com isso, a possibilidade de uma decisão por maior diversificação em direção ao risco resultar em perdas relativas e em consequente arrependimento — que vão doer duas vezes mais que o ganho.

Dado esse cenário, não espanta cerca de 75% dos recursos da indústria de fundos de investimento no Brasil estejam posicionados em classes de renda fixa — percentual que se eleva a 90% quando se considera também os ativos sob gestão. O encolhimento dessa participação está, portanto, intrinsecamente relacionado à redução das taxas de juros a níveis capazes de atenuar a sensação iminente de arrependimento do investidor.


*Hudson Bessa (hudson.bessa@anbima.com.br) é gerente de base de dados e informações de mercado da Anbima


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