De bem com os dois lados

Fundos de private equity apostam na criação de comitês de compliance para acomodar cotistas estrangeiros e nacionais

Gestão de Recursos/Reportagem/Edição 115 / 1 de março de 2013
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Comitê de compliance, enquadramento, consultivo. Os nomes são variados, mas a sua função é a mesma: substituir o tradicional comitê de investimento dos fundos de private equity brasileiros. Composto de gestores e cotistas, o último nasceu décadas atrás por exigência dos fundos de pensão, importantes investidores institucionais. Em troca de entregar seus recursos, eles demandavam participação nas decisões de investimento do fundo como uma maneira de se precaver, dada a falta de histórico da indústria de private equity no Brasil. Na época, os gestores não hesitaram. Criaram os comitês para ter acesso a uma lasquinha do enorme patrimônio administrado pelas fundações. De uns tempos para cá, porém, eles vêm revendo essa posição. Até porque adotar comitê de investimento significa abrir mão do dinheiro do investidor estrangeiro.

Nos Estados Unidos e na Europa, a figura do comitê de investimento não existe. Presume-se que o gestor tem autonomia e capacitação suficientes para, sozinho, decidir em quais ativos investir. Além disso, participar com o gestor das decisões de investimento significa ser responsabilizado por eventuais prejuízos causados aos cotistas — uma responsabilidade que o estrangeiro não quer ter. Foi para resolver o impasse de como acomodar os investidores de fora com as fundações num mesmo veículo que surgiram os comitês de compliance.

Em linhas gerais, a diferença entre os dois modelos é operacional. Enquanto no comitê de investimento os cotistas participam ativamente das decisões de alocação dos recursos, no de compliance eles apenas supervisionam a atividade do gestor. É um monitoramento contínuo, que pode virar um pronunciamento formal caso algum investimento não atenda ao que está previsto no regulamento do fundo, como, por exemplo, especificidades de risco e retorno prometidas aos cotistas. Mas esse comitê não é chamado para deliberar sobre uma oportunidade de investimento.

Quem aposta nessa ideia é a Confrapar. Ano passado, ela recebeu um investimento minoritário da francesa Truffle Capital e, em janeiro último, lançou o fundo AvanTI, que reúne estrangeiros e brasileiros em um comitê de compliance. Hoje, os principais investidores do AvanTI são grupos de mídia e tecnologia de França e Brasil, family offices e fundos de pensão médios nacionais. “Esses investidores não dispõem de equipe para frequentar reuniões de investimento, por isso preferem procurar fundos com comitê consultivo”, explica Carlos Eduardo Guillaume, CEO da Confrapar. Durante as conversas com os estrangeiros para estruturação do AvanTI, ele percebeu que um dos receios desses investidores é ter suas opiniões preteridas por não participar das reuniões do comitê de investimento. Por isso, a ideia do comitê consultivo agradou.

“Quando tivermos mais gestores completando ciclos de investimento, o comitê será dispensável”, diz a Previ

MENOS CUSTOSO — Augusto da Silva Reis, diretor superintendente da Faelba, fundo de pensão com patrimônio de R$ 1,3 bilhão, é um dos defensores do comitê de compliance. “Além de trazer mais agilidade para as decisões, esse modelo nos desonera de realizar estudos detalhados e complexos para subsidiar a escolha do investimento”, afirma. Reis é um dos 30 cotistas que compõem o comitê de compliance do fundo Rio Bravo Energia I — a gestora dispensou o comitê de investimento. O veículo acumula R$ 300 milhões de patrimônio e, por enquanto, conta apenas com investidores brasileiros. No futuro, a ideia é emitir cotas também para os estrangeiros, e por essa razão a governança do fundo já está adaptada. “Imagine se todos eles tivessem assento e poder de veto num comitê de investimento?”, indaga Fábio Okamoto, sócio-diretor da Rio Bravo e gestor do fundo. “Seria uma grande dificuldade administrar interesses não necessariamente alinhados”, completa.

Em 2012, em entrevista à CAPITAL ABERTO, Nelson Rozental, sócio da BRZ Investimentos, também apontou o comitê de compliance — ou de enquadramento, como ele prefere chamar — como uma saída para acomodar investidores daqui e de fora. Atualmente, a captação da BRZ é voltada para o investidor nacional, mas o projeto é lançar um fundo que também abrigue estrangeiros. Na ocasião, Rozental lembrou que a falta de confiança nos gestores não é o único motivo para os grandes fundos de pensão locais fazerem tanta questão do comitê de investimento: “Participando ou não do comitê, eles respondem pelas decisões do fundo perante a Superintendência Nacional de Previdência Complementar”.

Consultada pela reportagem, a fundação dos funcionários do Banco do Brasil (Previ) reconhece a alternativa dos comitês de compliance como uma tendência, mas afirma que sua adesão a esse formato levará alguns anos. “Precisamos ter mais segurança”, ressalta Fernanda Ossaille, gerente executiva de investimentos estratégicos da Previ. “Quando tivermos mais gestores completando ciclos de investimentos, chegaremos a um ponto em que o comitê será dispensável”, avalia. Enquanto esse momento não chega, a Previ prefere decidir em parceria com os gestores em quais ativos o fundo vai investir. Hoje, a fundação não participa de nenhum fundo sem comitê de investimento. A mesma política é seguida pelo fundo de pensão da Caixa Econômica Federal (Funcef). “Precisamos criar uma nova relação de confiança entre gestores e cotistas”, explica o gerente de participações da Funcef, Humberto Pires.

Para Renata Guinther, chefe da área de investimentos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a pujança do private equity no Brasil nos últimos anos trouxe gestores com pouca experiência para a indústria, gerando receios. “Se uma pessoa de 50 e outra de 15 pedissem seu carro emprestado, para quem você emprestaria?”, indaga Clóvis Meurer, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap). “Para a pessoa de 50, óbvio, que aprendeu o certo e o errado”, acrescenta. Apesar de enxergar com naturalidade a precaução dos investidores, Meurer acredita que a substituição dos comitês de investimento pelos de compliance é apenas uma questão de tempo.

Para o comitê funcionar bem, os cotistas devem ter qualificação igual ou superior à do gestor

MELHOR SEM? — Mas será que abolir os comitês de investimento é mesmo uma boa ideia? Em 2010, uma tese de mestrado da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), produzida por Fábio Massao Inocima, comparou o modelo norte-americano de fundos de private equity, sem comitê de investimento, com o brasileiro, para descobrir o mais eficaz. Quem ganhou essa briga, por mais inusitado que pareça, foi o modelo brasileiro. A explicação é que o comitê de investimento aumenta o nível de governança do fundo, diminuindo a assimetria de informação entre cotista e gestor, e incrementa a qualidade do investimento. A presença dos cotistas na decisão atenua a possibilidade de o gestor pagar preços altos por um ativo ou investir em empresas de baixa qualidade.

Para que esse resultado se verifique, porém, o autor alerta que o comitê precisa ser constituído por cotistas com qualificação igual ou superior à do gestor e com o mesmo tempo livre que ele para analisar os investimentos — aspecto fundamental para não atravancar as decisões do fundo. Caso não seja possível reunir essas características, o comitê de compliance pode, então, se tornar a melhor opção: “Nesse caso, dar liberdade para o gestor e apenas monitorar o processo de investimento deixaria o fundo mais eficiente”, conclui Cláudio Furtado, professor da FGV e fundador do Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital (GVCepe). A principal novidade do estudo, de qualquer modo, foi mostrar que o comitê de investimentos tem potencial para ser uma invenção menos infeliz do que muitos acreditam.


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