A gênese da intervenção

Gestão de Recursos/Edição 114 / 1 de fevereiro de 2013
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Tanto quanto a notável peça publicitária de Washington Olivetto sobre o sutiã, a primeira intervenção na economia também não deveria ser esquecida. Entretanto, a memória coletiva é bem menos suscetível às lembranças históricas do que a sensibilidade individual às seduções da propaganda.

Em fevereiro de 1906, o Brasil assistiu à primeira intromissão estatal nos negócios durante o regime republicano. O mercado de café vivia uma fase de superprodução, que se refletia na queda dos preços e em sérios problemas cambiais. O sistema era fortemente federativo e a reação coube aos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, principais produtores à época. Foi o chamado Convênio de Taubaté.

Em sua tese de doutorado de 1959 O Problema do Café no Brasil, Delfim Netto relata o tema com maestria. Afirma que o convênio foi razoavelmente bem-sucedido, pois conseguiu preservar a renda da agricultura cafeeira. Mas deixou duas sequelas: o crescimento da competição internacional, em função da valorização dos preços e, pior, a demanda sistemática por novas intervenções a qualquer suspiro.

Aconteceram mais duas operações episódicas e, já nos anos 1930, a chamada defesa permanente do produto. Foram criados organismos governamentais com rótulos diversos para tentar comandar o incontrolável: um mercado livre. O Instituto Brasileiro do Café perdurou até a década de 1990.

A mais notável das distorções veio com as compras pelo governo federal e as sucessivas queimas de estoques brasileiros entre 1930 e 1943. Foram destruídas safras equivalentes a mais de três anos de todo o consumo mundial. O objetivo era reduzir o excesso de oferta no mercado externo. Mais tarde, houve acordos internacionais envolvendo a matéria. Em 1963, por exemplo, a Organização Internacional do Café, sob a égide da ONU, passou a funcionar como um estabilizador de preços.

Governos, sobretudo os autoritários, sempre julgam poder abater a liberdade econômica. Na segunda metade do século 20, houve duas novas e canhestras tentativas de interferir no mercado cafeeiro. A chamada Operação Central Park, nos anos 1970, e outra, uma década depois, denominada Operação Patrícia, ainda são consideradas segredo de Estado.

A intervenção de 1906, que conduziu aos demais erros ao longo do século 20, devia ser como o primeiro sutiã: inesquecível. Até para que não se repitam os fracassos e seus prejuízos inevitáveis.


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