Gás novo

Interessada em ampliar sua capacidade de fazer aquisições, Ultrapar transferiu ações para o segmento de excelência da Bolsa

Governança Corporativa / Temas / Reportagem / Governança Corporativa - Coletânea de Casos 2012 / 1 de julho de 2012
Por 


 

Depois de mais de uma década listada no Nível 1 da BM&FBovespa, a Ultrapar passou a integrar, em 17 de agosto de 2011, o grupo de elite da Bolsa. A decisão de converter todas as ações preferenciais em ordinárias e migrar para o Novo Mercado não teve a ver com uma crise nos negócios ou reestruturação de imagem — caso da maioria das companhias que trilha esse caminho. Foi motivada pela vontade da Ultrapar de elevar a sua capacidade de aquisições e desvincular o futuro do negócio dos ex-administradores e herdeiros. Após a conversão, a participação do bloco controlador — a Ultra S.A., composta de acionistas herdeiros da família fundadora (Igel) e de vários executivos que, desde a década de 80, vinham recebendo ações como forma de incentivo de longo prazo — caiu de 66% para 23%. Como consequência, a companhia passou a ter capital pulverizado na Bolsa.

“Queríamos criar um sistema de governança que contribuísse para perenizar os bons resultados da empresa”, afirma André Covre, diretor de relações com investidores (RI) da Ultrapar. A companhia, conta ele, vivia um dilema. Precisava lançar ações no mercado para aumentar a disponibilidade de capital, mas já estava perto do limite de emissão de ações preferenciais (PN) estipulado pela Lei das S.As. Desde a reforma do diploma, em 2001, o máximo permitido para as ações dessa espécie é 50% do capital social. A empresa, contudo, respeitava a um teto maior, de dois terços, por ter ingressado no pregão antes da mudança, em 1999.

Agora detentora de uma única classe de ações, a Ultrapar tem o caminho livre para novas emissões, tanto para financiar o crescimento orgânico, quanto para usar os papéis como moeda de troca em aquisições. “Os controladores abriram mão do seu poder para a companhia manter o ritmo de crescimento”, ressalta Covre. Nos últimos dez anos, a Ultrapar fez duas grandes compras: a da empresa química Oxiteno e a da rede Ipiranga. A última, inclusive, gerou descontentamento entre os minoritários. Eles questionaram a independência do laudo de avaliação do Deutsche Bank, que balizou a relação de troca das ações durante a incorporação da distribuidora de combustíveis pela Ultrapar, em 2007. Na última aquisição realizada, a da rede de postos Texaco, a Ultrapar desembolsou R$ 1,16 bilhão. Como resultado, a relação entre a dívida líquida e o lucro antes dos juros, impostos, depreciações e amortizações (ebitda, na sigla em inglês) da empresa atingiu 2,3 vezes. “Como geramos muito caixa, temos flexibilidade para momentaneamente elevar a alavancagem; consideramos, contudo, que nossa área de conforto está em uma dívida líquida/ebitda de 1 a 1,5 vez”, diz Covre.

Sem um controlador definido, a Ultrapar teve que organizar um sistema de governança mais sólido. O poder do conselho de administração foi fortalecido, com a elevação da proporção mínima de membros independentes de 20% para 30%. Esse foi um dos pontos rejeitados na atualização do regulamento de listagem do Novo Mercado, em 2010. Outra novidade incorporada no estatuto da companhia foi a obrigatoriedade de o investidor que atingir 20% do capital ter de fazer uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) para todos os acionistas pelo maior valor pago por ação nos últimos seis meses. Segundo Covre, esse dispositivo não deve ser confundido com uma pílula de veneno, pois nem o percentual que funciona como gatilho nem o preço estipulado são proibitivos. Portanto, não inviabilizam uma eventual troca de controle que levaria à mudança na administração.

O novo estatuto da Ultrapar prevê ainda a constituição de um comitê de remuneração com três membros, dos quais dois devem ser independentes, e a instalação de um comitê de auditoria com dois integrantes externos e independentes. O órgão deve vigorar, porém, apenas nos anos em que o conselho fiscal não estiver instalado. Em 2012, por exemplo, o comitê de auditoria permanece desativado, porque o conselho fiscal está funcionando. “A adoção desses dispositivos se tornou necessária com a dispersão do capital”, explica Covre. Essas mudanças vão ajudar a Ultrapar a concretizar o plano de expansão de suas quatro controladas: Ipiranga, Oxiteno, Ultracargo e Ultragaz. Todas elas crescem embaladas pelo aquecimento da economia e pela melhora na distribuição de renda da população. O mercado de distribuição de combustíveis, no qual a atuação se dá pela Ipiranga, vem crescendo à taxa de 5% a 10% ao ano, e a intenção é ampliar a penetração da empresa nas Regiões Norte e Nordeste, onde o consumo se eleva com mais vigor.

Covre acredita que a migração contribuiu para o bom desempenho das ações da Ultrapar. Desde o anúncio do ingresso no Novo Mercado, em abril de 2011, até 25 de julho, os papéis subiram 59,3% em comparação a uma queda de 23% do Índice Bovespa. Na opinião do diretor, o mercado compreendeu e premiou a empresa pelo fato de ela ter efetuado a migração não por razões pontuais, mas, sim, devido a uma estratégia de longo prazo.



Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  Ultrapar Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Para lembrar
Próxima matéria
Criação inspirada




Recomendado para você




Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Leia também
Para lembrar
Confira ao lado a linha do tempo.