Fissuras ameaçadoras

Desequilíbrios não endereçados pela crise podem gerar cataclismo ainda mais devastador

Gestão de Recursos / Temas / Prateleira / Edição 110 / 1 de outubro de 2012
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Raghuram Rajan é um professor renomado da escola de Chicago. Também foi economista-chefe do FMI, de onde testemunhou na primeira fila o desenvolvimento da recente crise mundial. Diferentemente de outras publicações interessantes sobre o tema, Rajan investiga motivos mais profundos e delicados para a turbulência financeira que se iniciou em 2008 do que a simples ganância dos banqueiros de investimento e a abundância de crédito de baixíssimo custo. A economia mundial, segundo ele, padece de sérios desequilíbrios não endereçados pela crise, que podem resultar em um cataclismo ainda mais devastador no futuro próximo.

Duas macrodistorções governamentais tratadas no livro merecem destaque: o esforço do governo norte-americano em universalizar a casa própria; e a busca desenfreada de países como China e Alemanha por crescimento através de exportações.

Embora o sonho da moradia para todos e o desejo de expansão não sejam algo ruim (muito pelo contrário), o livro sugere que essas escolhas de curto prazo estão sendo feitas à custa de efeitos delicados de longo prazo. Nos Estados Unidos, em vez de melhorar a produtividade da mão de obra por meio de programas de educação e recapacitação, o governo tem optado pela máxima de “vamos manter o povo feliz com uma dieta rica em crédito abundante”. No caso dos países ávidos por superávit comercial, os governantes têm ignorado o desenvolvimento do mercado doméstico, limitando o crescimento do consumo interno. Dessa forma, a elevada base de poupança, aliada às baixas taxas de juros nesses países, levou à procura por melhores retornos no exterior, cabendo ao mercado financeiro “enxugar” essa liquidez.

A intervenção dos governos nos segmentos de habitação, comércio internacional e câmbio motivou sérias distorções nos preços dos ativos. Nesse cenário, a lendária “mão invisível”, que opera por meio do mecanismo dos preços relativos, causou deformações massivas na alocação de capital. Esses desequilíbrios vêm sendo acomodados pelo sistema de tubulações representado pelo mercado financeiro, que consiste em um mero conduíte de liquidez de um lado para o outro, baseado em percepções de risco e retorno do investimento.

A parte final do livro se foca em propor reformas para o ecossistema político-econômico predominante, apesar de deixar um certo gosto de superficialidade e ingenuidade em sua concepção. De forma simplificada, Rajan recomenda melhorias na regulamentação do setor financeiro (não mais regulamentação, mas uma regulamentação melhor), redução dos desequilíbrios globais (comerciais e financeiros) e o estabelecimento de uma rede de proteção social mais forte nos Estados Unidos. O autor também conta sobre sua decepção com a dificuldade do FMI e do Banco Mundial em se comunicar com as sociedades que socorrem com seus recursos.

Em resumo, a metáfora das instabilidades atuais com a oscilação das linhas de falha da crosta terrestre é muito pertinente. As placas tectônicas estão em constante movimento e, na maior parte das vezes, elas se acomodam sem maiores problemas. No entanto, de tempos em tempos, elas se chocam, demonstrando ao mundo a força da natureza sob a forma de terremotos. Isoladamente, cada linha de falha parece oferecer baixo risco de ruptura. Mas uma “tempestade perfeita” pode provocar abalos sísmicos consideráveis.



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