Fascínio por diagnósticos

Carlos Antonio Rocca

Temas / Retrato / Edição 110 / 1 de outubro de 2012
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Exibir como currículo apenas os estudos e as iniciativas que já liderou em prol do desenvolvimento do mercado de capitais — estaria de bom tamanho. Mas a herança genética privilegiada (não, ele nunca pintou os cabelos nem fez cirurgia plástica, e a pergunta o faz sorrir pela única vez durante a entrevista) corre o risco de esconder não só seus 72 anos como uma extensa ficha de serviços prestados — professor catedrático da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-USP), secretário estadual da Fazenda, CEO de uma grande rede varejista, presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), membro do Conselho Monetário Nacional (CMN), quase ministro da Fazenda…

Sim, Rocca já recusou o Ministério da Fazenda, e seu nome chegou a ser cogitado mais de uma vez. Mas o convite mesmo aconteceu em 1985, quando o presidente eleito Tancredo Neves montava sua equipe, e Rocca respondeu com uma negativa justificada por um contexto pessoal. Ele não gosta de falar da vida pessoal, mas sugere que o fato de na época estar à frente da expansão da rede Mappin contou pontos. “Sempre mantive minha família e vivi em função do meu trabalho. É evidente que do ponto de vista financeiro fazia diferença, mas esse nunca é o fator mais relevante.” Rocca comandou a Casa Anglo, controladora do Mappin, por 15 anos, até a venda ao empresário Ricardo Mansur; e a repórter, que então cobria o setor varejista, se lembra de como o executivo se destacava pelo tom professoral.

Ninguém duvida de um número repassado pelo professor Rocca. Nem nos tempos do Mappin nem hoje, quando ele se dedica a gerar indicadores preciosos para o desenvolvimento do mercado como diretor do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec), do Ibmec. A atividade acadêmica que tanto marca sua conduta e sua personalidade só foi interrompida nos quatro anos em que assumiu a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, entre 1971 e 1975. De resto, conciliou, com gosto e jornada dupla, as muitas atividades com as aulas na USP até a aposentadoria. Depois dela, em vez de vestir o pijama, iniciou o seu “mergulho no mercado financeiro e de capitais”, cujos estudos resultariam no Plano Diretor do Mercado de Capitais, em 2002.

O apreço por estudar, fazer diagnósticos e elaborar propostas é antigo. Remonta aos tempos do “seminário do uísque”, lembra o professor. Era o ano de 1963, e com apenas 23 anos, Rocca já lecionava na FEA, depois de ter sido convidado pelo docente Luiz de Freitas Bueno para ser seu assistente junto com outro recém formado que se destacara, o economista Affonso Celso Pastore. Foi quando um professor que ele admirava começou a organizar uma série de seminários em que cada participante se obrigava a estudar, relatar e levar para o debate o capítulo de um livro ou artigo. Às sextas-feiras, a atividade acontecia no fim da tarde: os participantes faziam uma “vaquinha”, compravam uma garrafa de uísque e quase sempre debatiam um tema quente da época, a economia marxista.

O organizador dos seminários, incluindo o do uísque, era o professor Delfim Netto, e seus pupilos logo ficariam conhecidos como “a turma do Delfim”. “Tratava-se de uma atividade absolutamente voluntária, sem diploma ou registro, e valeu mais que uma pós-graduação”, conta Rocca. Os seminários prosseguiram até 1965, e ele continuaria acompanhando Delfim, junto com alguns colegas daquele grupo, em sua assessoria econômica. Chegou a desistir do doutorado no exterior para trilhar esse “caminho mais estimulante” — em compensação, fez o doutoramento na própria USP a tempo de conseguir a vaga de professor catedrático de Luiz Bueno, o mestre que estava se aposentando. Tinha apenas 27 anos. “Sempre trabalhei muito pesado, e este treinamento começou aos 14 anos”, diz Rocca, que conciliou o primeiro emprego, como auxiliar, com o curso técnico de contabilidade “para já ter alguma formação profissional.” “Eu precisava trabalhar.”

O convite para ser secretário da Fazenda de São Paulo também veio cedo, aos 31 anos. Assessorado por professores que eram seus colegas da faculdade, ele criou estruturas de controle das estatais que geraram ganhos de escala e receitas extras para o Estado. Encerrado o mandato, já contratado como executivo pela Casa Anglo, Rocca continuou mais professor do que nunca: depois de fechar na China uma das primeiras grandes operações legais de importação de produtos para a rede Mappin, aproveitou a viagem para fazer apresentações na universidade de Pequim e convidar os docentes de lá para um seminário no Brasil. “Eles já estavam caminhando para uma liberalização da economia e tinham interesse nas nossas experiências mal sucedidas de congelamento de preços”, recorda.

Toda essa gama de experiências foi fundamental quando seu foco voltou-se para o mercado de capitais. Ele foi contratado para fazer o seu primeiro diagnóstico do setor no fim dos anos 1990 pelo banqueiro Gastão Vidigal, do grupo Mercantil de São Paulo, que acabou não utilizando o estudo. Daí a criar, “quase em um contexto acadêmico”, a sua própria consultoria de gestão de risco, a Risk Office (negociada para um grupo estrangeiro em 2007), e ser solicitado para novos diagnósticos e análises (por entidades como Bovespa, Fipe, Ibmec, Abrasca e Abamec), foi um pulo. Todos queriam — e ainda querem — os números e os estudos do professor Rocca.



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