Entre vivos e feridos

Depois da fuga de aplicadores e da ameaça de quebradeira, gestoras independentes recuperam patrimônio

Bimestral/Gestão de Recursos/Reportagem/Temas/Edição 74 / 1 de outubro de 2009
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Os últimos 12 meses foram prova de fogo para as gestoras de recursos independentes. Ao tentar oferecer produtos mais sofisticados e retornos maiores que os alcançados pelos grandes bancos de varejo, essas casas viram o patrimônio de seus fundos de investimento encolher no ano passado, em função da queda da Bolsa de Valores e da debandada de investidores assustados com a crise financeira mundial. Mas, superado o terremoto, muitas delas dão sinais de recuperação na rentabilidade e no volume de novos depósitos.

É o caso da Mauá Investimentos, butique que tem como sócio o ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo. A crise se abateu sobre a gestora antes da quebra do banco de investimento Lehman Brothers. “Consideramos um cenário mais negativo do que o que se realizou, e aplicamos cedo demais em taxa de juros”, admite Figueiredo. O segundo erro foi a concentração em ações da Cesp, que também se apoiava numa hipótese que não se realizou: a privatização da companhia. O somatório dos equívocos fez com que, em março de 2008, o patrimônio da Mauá afundasse para perto de R$ 400 milhões, uma perda brutal em comparação aos R$ 2,5 bilhões atingidos em março de 2007.

A Mauá teve de reagir. “Fizemos um grande ajuste na política de investimento, na gestão de riscos e ficamos mais leves em custos”, diz Figueiredo. “Isso sem imaginar que haveria uma crise desse tamanho no semestre seguinte.” A mudança incluiu, por exemplo, abandonar o modelo que permitia a concentração em ações de uma só companhia, como na Cesp, que chegou a representar 10% do principal fundo da casa. Na política atual, essa participação não pode ser maior que 1,6%. “Apertamos os parâmetros”, resume o executivo. A equipe ficou mais enxuta, passando de 56 para 25 pessoas, e concentrada nas áreas de risco e pesquisa.

Para evitar concentração de ações em uma só companhia, a Mauá fixou limite de participação de 1,6%

Ao que parece, a estratégia surtiu efeito. Segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), a gestora voltou aos R$ 501,8 milhões de patrimônio em agosto de 2008, volume que aumentou para
R$ 538,9 milhões em agosto deste ano. “Em setembro, os ativos já alcançaram R$ 700 milhões”, antecipa Figueiredo. Segundo ele, clientes que tinham sacado todo o recurso aplicado com a gestora voltaram a investir com a casa e novas aplicações vieram de dois fundos lançados no ano passado — o Mauá Fix, um multimercado moderado que tem um terço do risco do fundo principal da casa e investe em câmbio, juros, dívida externa e arbitragem; e o Mauá Empresas, um fundo de ações de longo prazo.

Na Geração Futuro, política de relacionamento com clientes ajudou a evitar efeito manada de saques

Na Geração Futuro, o patrimônio líquido também aumentou em 12 meses. A gestora passou de R$ 3,08 bilhões em agosto de 2008 para R$ 3,33 bilhões no mesmo mês deste ano. Do dia 15 de setembro ao fim de fevereiro, antes da retomada da Bolsa, foram captados R$ 42 milhões e resgatados R$ 80 milhões. “A perda líquida não representa 8% do PL”, minimiza Wagner Salaverry, gestor da Geração Futuro. A trajetória de alta do Ibovespa iniciada em março valorizou os ativos e devolveu o equilíbrio entre depósitos e saques.

O Programado FIA, que reúne 39,5 mil dos 70 mil cotistas da Geração, recuou 52% em rentabilidade em 2008. Mas, em 2009, o fundo tem alta de 69% (até agosto). Salaverry conta que, em nenhum momento da crise, a gestora pensou em promover alterações radicais na composição da carteira, caracterizada pelo forte teor de blue chips como Vale, Usiminas, Gerdau, Votorantim Celulose e Papel (VCP), e Petrobras. Uma medida importante foi a aplicação em papéis do Banco do Brasil, que não estavam na cesta, mas hoje se tornaram o maior componente do fundo. A ideia foi aproveitar a desvalorização das ações do BB em 2008. A política de relacionamento com os clientes também foi crucial para evitar o efeito manada nos saques. Nos três escritórios da gestora (em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre), os encontros trimestrais com os clientes agora são quinzenais. “Muitos investidores têm se tornado clientes graças a essa prática”, conta Salaverry.

MULTIMERCADOS RESGATAM – Não foi só a recuperação do Ibovespa que tirou as assets do fundo do poço. A agilidade propiciada por fundos multimercados para rearranjos de carteiras ajudou algumas gestoras a se levantarem. Em junho do ano passado, os analistas da Fator Administração de Recursos perceberam que a China também seria impactada pela recessão econômica global e refizeram suas projeções. “Ficamos vendidos em bolsa e comprados em dólar”, conta a gestora Roseli Machado. Isso ajudou a compensar as perdas do patrimônio líquido, que decresceu para R$ 3,06 bilhões em agosto de 2008, depois de atingir o pico de R$ 5,3 bilhões três meses antes. Neste ano, o valor dos recursos administrados voltou a subir, alcançando a marca de R$ 3,06 bilhões em agosto.

Bancos de varejo lideraram maior avanço no valor de ativos sob gestão, favorecidos pela consolidação do setor

Puxado pela captação nos multimercados e pelo desempenho das ações, o patrimônio líquido da indústria de fundos nacional cresceu cerca de 10% em um ano — R$ 1,18 trilhão, em agosto de 2008, para R$ 1,31 trilhão, em agosto de 2009. Lideram o ranking da Anbid os bancos de varejo, que mostraram o maior avanço no valor de ativos — “principalmente pela consolidação do setor”, pontua Luciane Ribeiro, coordenadora da subcomissão de base de dados da Anbid, destacando a compra do Votorantim e da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil, e a fusão do Itaú com o Unibanco. Na avaliação de Luciane, a rápida recuperação dos fundos, comprovada pela evolução de patrimônio das gestoras e o maior apetite do investidor, também se deve à transparência das operações e à regulação do mercado nacional.

Mas as feridas de uma guerra mal terminada continuam expostas. Rogério Betti, sócio da assessoria de investimentos Beta Advisors, cita a variação registrada pela Quest Investimentos. A asset apresentava rentabilidade positiva e acima da média do mercado — resultado de uma boa gestão. Mas não conseguiu driblar o fluxo negativo de capital. Dirigida pelo ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, a gestora tinha um patrimônio em torno de R$ 3 bilhões em 2007, que caiu para R$ 1,07 bilhão em agosto do ano passado. Em agosto último, o montante sucumbiu para R$ 926 milhões.

Para Betti, essas perdas também são acentuadas pela atuação dos grandes bancos, responsáveis pelas maiores alocações nas assets independentes. No meio da crise, eles recolheram seus recursos para evitarem mais risco. “Além disso, como os certificados de depósito bancário (CDBs) estavam pagando muito, os bancos brasileiros tornaram-se porto seguro e atraíram investidores”, acrescenta Betti. “Chega a ser uma concorrência desleal para os multimercados.”

A GAP Asset Management que o diga. Nos 12 meses encerrados em agosto de 2009, seu patrimônio líquido diminuiu de R$ 3,79 bilhões para R$ 1,92 bilhão. “O impacto foi mais intenso no patrimônio do que na rentabilidade”, salienta Emanuel Pereira da Silva, diretor executivo da asset. Um exemplo disso é o multimercado GAP Absoluto, cujo patrimônio líquido era de R$ 1,04 bilhão em agosto de 2008 e a rentabilidade, de 3,9% no ano. No mesmo mês de 2009, o patrimônio contraiu-se 61,8%, para R$ 397,4 milhões, enquanto a rentabilidade acumulada foi de 16,14%.

Nem as reações da GAP contiveram a fuga. Em alguns fundos multimercados, caso do GAP Absoluto, a gestora reduziu o período de resgate (prazo entre a solicitação do saque e o recebimento efetivo) de 60 para 30 dias, no sentido de tentar deixar os cotistas mais confortáveis com o investimento. Além disso, passou a adquirir papéis com prazos de vencimento mais curtos. “O medo fez o investidor buscar resgates e adiar novas aplicações”, acredita Silva.

RENASCENDO DAS CINZAS – Um caso peculiar foi o da GWI, do coreano Mu Hak You. Conhecida por sua política agressiva de investimento — “só compra”, conforme define um executivo que já trabalhou na casa —, a GWI mantinha índices elevados de alavancagem com aplicações no mercado a termo que pareciam subestimar o poder de estrago do tsunami financeiro que se formaria pela frente. A gestora teve de congelar o resgate de dois fundos, no fim do ano, para que não virassem pó. O GWI FIA chegou a gerir R$ 400 milhões em junho de 2008 e despencou para R$ 10 milhões em dezembro, conforme dados da Anbid. Mas, com a retomada do mercado, voltou a R$ 120 milhões em agosto deste ano e ostenta retorno de incríveis 165,24% desde janeiro. Procurada pela reportagem, a direção da gestora não concedeu entrevista. Depois de tanto sobe e desce, quem manteve pelo menos a reputação imaculada pode agora se tranquilizar.


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