Ensinamentos de um golfista

José Luiz Osorio

Bimestral/Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 94 / 1 de junho de 2011
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A Nogueira Investimentos nunca existiu. O nome era uma referência ao bairro de Nogueira, em Petrópolis (RJ), que povoava os sonhos de José Luiz Osorio e seus amigos como lugar ideal para construir uma casa de campo. Quando saíssem do governo, eles — Osorio, então presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM); sua assistente Isabella Saboya, que inventou a brincadeira; e até o cunhado Armínio Fraga, no comando do Banco Central — poderiam descansar da experiência no setor público em um paraíso próprio e privado, a empresa de fantasia na serra fluminense.

Dez anos depois, a piada é lembrada por Osorio na sede de sua gestora de recursos Jardim Botânico Investimentos (JBI), a menos de um quilômetro da Gávea Investimentos de Armínio. Nenhuma das duas fica em Petrópolis, mas no bairro carioca do Leblon, famoso por sediar “butiques” do gênero. Tudo coincidência, garante o ex-presidente da CVM, que, no entanto, ressalta ter sido o primeiro a batizar seu negócio com o nome de um bairro do Rio. Em seus primeiros anos, a empresa de fato era localizada no Jardim Botânico, antes de se mudar para o Leblon, de onde a Gávea Investimentos nunca saiu.

Mas Osorio não é muito de brincar, e nem de citar o amigo, que conheceu em partidas de golfe e de quem se tornou cunhado ao se casar com sua irmã, há 31 anos. Muda de assunto. Já sobre golfe, a conversa rende: “O golfe me ensinou muito”, diz ele, campeão juvenil fluminense aos 17 anos. “Os erros são comuns como em outros esportes, mas, se você levá-los para o buraco seguinte, são um desastre. Precisamos aprender com o erro, isolá-lo e não ficar reclamando. Não dá para se queixar do juiz nem dizer que entrou cisco no olho. Dar sorte no golfe é raríssimo.”

Com o empreendedor é parecido. Não adianta sonhar com a vida mansa da “Nogueira Investimentos”. “Empreender é difícil. Para ter sucesso, existe risco e muita coisa dá errado”, salienta Osorio. Ele ainda não se refere à própria experiência, na Jardim Botânico, mas à admiração que desenvolveu por esses empresários desde os tempos em que visitava companhias na década de 1980, em São Paulo, quando trabalhava no Banco Garantia. “Em qualquer lugar do mundo, o empreendedor é alguém que se destaca. No Brasil, ainda mais, porque aqui a relação entre risco e sucesso é mal resolvida. Quem erra uma vez fica logo taxado. Já a imagem do sucesso é estereotipada, de novela, do executivo que chega meio-dia ao escritório, faz minitransações, e duas horas depois, está tomando seu uísque.”

Nada mais diferente disso do que as duas trajetórias percorridas por Osorio, como executivo e como empreendedor. Antes de se formar em engenharia civil, pela PUC-Rio, já trabalhava duro como estagiário na construtora João Fortes, enquanto colegas de faculdade descolavam estágios em estatais que não precisavam sequer frequentar. “Foi bom começar com essa disciplina de trabalho”, afirma. Mas a engenharia não o atraía tanto quanto a área de finanças, e já no mestrado, na Universidade de Stanford, começou a fazer disciplinas de outros departamentos, até ficar impressionado com uma palestra do economista Milton Friedman, então na Hoover Institution. “Lembro até hoje de cada detalhe”, conta. “Ele era uma mente brilhante.”

De volta ao Brasil, a carreira financeira deslanchou no Bank Boston, que o mandaria novamente aos Estados Unidos. “Mudei tanto de lugar na minha vida que depois precisei me readaptar ao Rio”, lembra Osorio. Sua lua de mel, por exemplo, foi praticamente na Nigéria, para onde o banco o enviou por três meses logo após o seu casamento. Depois de sete anos no Boston e de uma passagem de 11 meses pelo Chase Investment Bank, foi trabalhar no Garantia. “Um dia o Jorge Paulo (Lemann) sentou-se na minha frente e perguntou: o que eles fazem melhor que nós, lá no Boston e no Chase? Fiquei paralisado, porque todas as práticas do Garantia eram superiores, mas podia parecer que eu estava puxando o saco.”

Depois de ajudar a abrir a primeira corretora brasileira em Nova York e incorporar a marcante cultura do Garantia, Osorio seria convidado pelo Icatu para chefiar a área de banco de investimento, novamente no Brasil. Ali ele conheceu alguns de seus atuais sócios na Jardim Botânico, antes de partir para a fase no setor público, primeiro como diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, depois, como presidente da CVM — onde finalmente o sonho do negócio próprio foi gestado. “Gostaria de ter iniciado a minha empresa mais jovem, ter sido dono do meu nariz mais cedo”, admite Osorio, prestes a completar 60 anos.

Foi no governo, porém, que ele despertou para a importância da governança nas empresas, construindo uma visão hoje fundamental na cultura da JBI, dividida em áreas de public e private equity. Enquanto o programa de privatização emperrava nas dificuldades políticas daquele ano de 1999, Osorio ocupou também o posto de superintendente da BNDESPar, um gigantesco investidor minoritário prejudicado pela suspensão do tag along que, dois anos depois, viabilizaria a venda das companhias de telecomunicações. Quando o ministro da Fazenda Pedro Malan o convidou para presidir a CVM, Osorio percebeu a oportunidade de reformar a lei, o que acabou sendo a marca de sua gestão, de 2000 a 2002. “Consegui atrair os melhores advogados para me ajudar”, diz, orgulhoso da mesma estratégia à qual atribui o sucesso da JBI. “É chavão, mas somos uma empresa de pessoas.”

O sucesso foi mais parecido com o de um golfista do que com o do empresário que sacoleja o uísque na novela das oito. “Os dois primeiros anos foram muito difíceis”, reconhece ele. O fundo de “seed capital” (“De novo a minha admiração pelo empreendedorismo”) que iniciou a empresa hoje está sendo liquidado; já a área de private equity deve ganhar o reforço de um novo fundo que está sendo levantado pelo gestor. O esforço da captação tem levado o fundador da JBI a uma pesada agenda de viagens internacionais, intercaladas também pelos compromissos como conselheiro em duas empresas investidas, Elba e MZ Consult. Com tanto trabalho, a sorte de Osorio é nunca ter sonhado, de verdade, com o descanso de Nogueira. “Espero nunca precisar me aposentar.”




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