Encanto preservado

Quarta edição do Brazil Day confirma interesse do investidor estrangeiro pelo País, apesar — e, por que não, por causa — da crise

Captação de recursos/Reportagens/Temas/Edição 63 / 1 de novembro de 2008
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Um burburinho se formava na recepção da imponente Bloomberg Tower, com seus 246 metros de altura e 54 andares, por volta das 8 horas de uma Nova York outonal. O vento especialmente forte e gelado e a chuva fina resistiam só até a porta giratória — dali para dentro, o bate-papo que se ouvia em português logo remetia ao clima brasileiro. No sexto andar, já se anunciava que o Brazil Day começaria 30 minutos além do previsto, por causa da fila de participantes que ainda aguardavam para ser registrados. Instantes depois, Antonio Castro, presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), deu largada à quarta edição do evento que tem como objetivo promover companhias do País a investidores estrangeiros, responsáveis por um terço da movimentação diária da Bovespa.

Problemas de áudio, a falta de manejo de alguns palestrantes, ou o inglês truncado de um e outro fizeram com que por vezes os investidores se ligassem mais nos seus BlackBerries e iPhones do que nos ativos ali expostos. Mas o saldo foi positivo. A excentricidade que marcou os encontros Brazil Day de 2001, 2003 e 2005 — que mais pareciam uma “Apimec” em inglês para brasileiro ouvir (veja quadro na página seguinte) — foi finalmente sepultada em 28 de outubro de 2008.

QUE CRISE? — A despeito do vendaval que varre o sistema financeiro mundial, sobretudo o norte-americano, ou talvez até graças a ele, os investidores e analistas estrangeiros trouxeram não só a cereja, mas também o bolo que faltava ao Brazil Day. Como Warren Buffett, sabem que é preciso sair na chuva para fazer boas compras — ou pelo menos colocar a cabeça para fora da janela para sentir se as gotas estão muito intensas. E foi o que fizeram. Mais de 430 pessoas se inscreveram para participar do Brazil Day este ano, e 220 compareceram de fato, pouco mais do que o recorde obtido em 2005.

O mesmo não se pode dizer da quantidade de companhias participantes. Nesse ponto, 2005 continua imbatível com 28 empresas. Houve gente que sentiu falta de nomes de peso como Gerdau e Itaú, que desistiram de participar na última hora. Outras ausências comentadas foram as de CSN e Oi. De peso na bolsa, estavam Petrobras, Bradesco, Unibanco, Usiminas e BM&FBovespa. Para Antonio Castro, da Abrasca, a baixa adesão de grandes companhias pode ser atribuída ao momento de mercado. A volatilidade dos pregões dificulta a saída de altos executivos para o exterior. Soma-se a isso o período de divulgação de resultados. Alexei Remizov, vice-presidente para a América Latina da área de mercados de capitais globais da HSBC Securities, acrescenta mais um motivo: “As dificuldades vividas hoje aumentam o receio dos executivos de darem satisfações em público”, observa.

E haja satisfações. As perdas assombrosas de empresas como Sadia e Aracruz já repercutiram e muito lá fora. Theodore Helms, gerente executivo de RI da Petrobras, baseado em Nova York, cansou de repetir que a companhia não estava exposta à variação cambial. “Somos uma empresa dolarizada”, dizia, diante de analistas um tanto desconfiados, para convencê-los de que hedge cambial não fazia parte da estratégia da petrolífera. Um investidor ficou inconformado com o fato de ainda não poder saber quando a camada do pré-sal começará a gerar lucro, nem quanto de recursos ela consumirá.

No painel do setor elétrico e utilities, um dos mais concorridos da manhã, com a participação de RIs de oito empresas, parte dos cerca de 50 investidores ouvintes também mostrou preocupação com a dívida em dólar das companhias. A sala reservada aos bancos foi a mais cheia: 96 pessoas. Mas não sobrou tempo para perguntas nesse caso. Os analistas curiosos sobre a saúde do sistema financeiro brasileiro ou tiveram de guardar suas dúvidas para o período da tarde ou confiar no discurso positivo, como que ensaiado em conjunto, dos grandões Bradesco e Unibanco e do médio Banrisul.

“AÇÕES MUITO BARATAS” — Com até cinco painéis ocorrendo ao mesmo tempo, os investidores tiveram de fazer escolhas entre ver uma apresentação exclusiva da Petrobras e conhecer mais de perto, por exemplo, a TAM e a obscura Triunfo Participações, emparelhadas na mesma sala. “A concentração nos bancos e no setor elétrico reflete o interesse atual do investidor estrangeiro”, diz Castro. Quem não atende a esse gosto, então, teve de se contentar com uma meia dúzia de ouvintes, como a Drogasil, que representou o setor de varejo junto com a Grendene. Metade dessa já parca platéia era preenchida por pessoas ligadas à rede de farmácias. “O importante foi nos fazermos presentes”, conformou-se Roberto Listik, gerente de RI da empresa.

A frase de Listik pode soar como resignação, mas é verdadeira. O Brazil Day deixou claro que a crise não diminuiu o interesse dos escaldados investidores norte-americanos pelo País. Quiçá ele até cresceu. Por vezes extremamente otimistas, de dar inveja até a Lula, muitos estrangeiros encampam a tese de que, passado o pânico geral, os fundamentos da economia brasileira voltarão a reluzir. Enquanto isso não ocorre, eles estão atrás de pechinchas.

Robert Smith, gestor de recursos da Barclays Wealth, iniciou seus aportes no Brasil há dois anos. Dentre as companhias em que investiu está a AES Tietê. Smith tinha certeza de que energia elétrica era uma oportunidade ímpar por aqui, mas começou a se questionar quando o mercado “virou” nos últimos meses. “Será que estou deixando passar alguma coisa que os outros estão vendo? Será que é bom demais para ser verdade?” No Brazil Day, o gestor se deu conta de que está no caminho certo. “As ações estão muito baratas”, entusiasma-se. E quer expandir as aplicações para a indústria financeira nacional.

No dia seguinte, 29 de outubro, na conferência da Associação de Analistas de Valores Mobiliários de Nova York (NYSSA, na sigla em inglês) sobre investimentos no Brasil, também ficou evidente que a atratividade do País continua em alta. Nada menos que 150 investidores, 30% a mais do que no ano passado, foram conferir as apresentações das empresas, várias delas presentes no Brazil Day. A Eletrobrás, que acaba de listar ADRs na Bolsa de Valores de Nova York, estava lá. “Nos tempos difíceis é que as companhias têm de se mostrar”, diz Thomas DeCoene, chefe de operações internacionais da Itaú Securities, uma das patrocinadoras do evento.

Finalmente, Brazil Day para estrangeiros

Quem conhece o Brazil Day de outros outonos notou uma diferença no público deste ano. Em vez de composto sumariamente de amigos, funcionários, fornecedores e clientes das companhias abertas, o evento estava repleto de analistas de investimento estrangeiros. Segundo os organizadores, eles responderam por aproximadamente 85% da platéia desta vez. “Foi, sem dúvidas, o melhor Brazil Day que tivemos”, comemora Ronaldo Nogueira, diretor de certificação da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec). A vitória minimizou a lembrança de edições anteriores do mesmo evento, em que, em certos momentos, tinha-se a constrangedora sensação de estar num encontro despropositado de brasileiros falando inglês em Nova York.

Alguns fatores ajudam a explicar o sucesso do último evento. O principal deles foi um aspecto puramente técnico: a distribuição dos convites. Nas edições anteriores, segundo Nogueira, praticamente só os bancos eram encarregados de trazer a audiência, e não havia controle sobre o perfil dos inscritos. Com isso, no “dia D”, as companhias acabavam dialogando com rostos conhecidos das bandas de cá. Em 2008, desde a divulgação do Brazil Day, o foco foi o investidor estrangeiro. A parceria com a Associação de Analistas de Valores Mobiliários de Nova York (NYSSA) foi crucial nesse sentido. A instituição realizaria sua segunda conferência anual sobre investimentos no Brasil em setembro. Mas, temendo uma competição destrutiva com o evento brasileiro, decidiu agendar o encontro para o dia seguinte (29 de outubro) e contribuiu para que o Brazil Day fosse bem promovido no mercado do doméstico. Assim, os dois lados saíram ganhando, aproveitando o mesmo público.

Além disso, os organizadores do Brazil Day contaram com Vinny Catalano, presidente da casa de pesquisa independente Marble Research e ex-presidente da NYSSA, para prestar consultoria na realização do evento. Uma das inovações trazidas por ele foi a reserva do período da tarde para as reuniões individuais (“one-on-one”). A ausência desse tipo de conversa tinha sido uma das queixas contra o Brazil Day passado. Os investidores receberam bem a novidade: foram agendadas 206 reuniões. “Apesar do tempo ruim, os mercados derretendo em todos os lugares e os inúmeros resultados de companhias sendo divulgados, conseguimos atrair um ótimo público”, diz Vinny, como constantemente era chamado pelos corredores da Bloomberg. O fato de ter sido realizado pela primeira vez no maior centro mundial de informações financeiras também foi um chamariz para o evento, disseram os convidados. (D.G.)

Brazilian dream atrai advogados de fora

No longo prazo, “the place to be” (“o lugar para se estar”) é a América Latina. Em particular, o Brasil. A orientação é de Nicolas Grabar, sócio do escritório de advocacia Cleary Gottlieb Steen & Hamilton, em debate sobre o mercado de capitais latino-americano realizado na escola de direito da Universidade Columbia em Nova York. O seminário ocorreu 24 horas após o término do Brazil Day e foi mediado por John Coffee, prestigiado professor de direito da universidade.

A uma platéia constituída basicamente por estudantes, Grabar falou das oportunidades propiciadas pelo recente desenvolvimento dos mercados de capitais da região. Ele afirmou que, embora este ano seja realmente difícil, os maiores escritórios do Brasil se expandiram como nunca de 2004 até o início de 2008. As principais bancas, observou, chegaram a contratar mais de uma centena de advogados cada para atuarem em direito societário, com enfoque em mercado de capitais e fusões e aquisições. E ainda há mais espaço para crescimento, acredita.

Otimista quanto ao Brasil, Grabar prevê uma nova onda de emissões latino-americanas nos Estados Unidos, a partir de 2010. “Eu prevejo. Não estou apostando”, salienta. Isso não significa que os advogados precisem só das boas notícias para fecharem negócios. A crise atual serviu para mostrar que a governança corporativa das empresas brasileiras ainda tem um longo caminho pela frente. Um ambiente em que conselhos de administração e comitês de auditoria “não sabem o que os CFOs estão fazendo” atesta a necessidade de se repensarem as regras vigentes. “A qualidade da divulgação de informações periódicas é terrível.”

A crítica é oportuna. Até a GMI Ratings, empresa norte-americana especializada em avaliação de governança, começou a reexaminar a forma como insere os controles internos e o reporting na sua metodologia de rating. A agência passou a cobrir companhias brasileiras há pouco mais de dois anos e hoje já acompanha cerca de 60. Também presente na Columbia, o brasileiro Antonio Piccirillo, sócio do Proskauer Rose, conta que até agora os advogados “não conseguiram entender” como companhias não financeiras estavam especulando com o câmbio. Além dessa questão, Piccirillo está confiante na estréia das emissões de ADRs nível 1 não patrocinados no Brasil — em que as companhias estrangeiras podem “acordar” no dia seguinte com um registro na Securities and Exchange Commission sem sequer terem sido consultadas. Pelo jeito, assunto para advogado é que não falta. (D.G.)


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Tags:  mercado internacional CSN investimentos Unibanco Captações de recursos Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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