Elas querem o mundo

Internacionalizadas, companhias brasileiras buscam pregões no exterior para fazer IPOs

Captação de recursos / Bimestral / Temas / Reportagem / Edição 75 / 1 de novembro de 2009
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Criada em 2001 pelo engenheiro mecatrônico Marcelo Condé, a brasileira Spring Wireless, desenvolvedora de software para aplicações móveis, é o exemplo típico de uma empresa que já nasceu na era da globalização. Com apenas oito anos de vida, a companhia tem uma holding nos Estados Unidos desde sua fundação e conta com escritórios na Bélgica, França, Rússia, Pequim, Hong Kong, Colômbia, Chile, México e Venezuela. A receita proveniente desses escritórios corresponde a cerca de 25% do faturamento, que, em 2008, chegou a US$ 93 milhões. E Condé quer mais. Além de conquistar clientes no exterior, ele está interessado nos investidores. Em 2011, pretende abrir o capital da companhia na Nasdaq, bolsa de valores eletrônica norte-americana conhecida por abrigar importantes empresas de tecnologia, como o Google.

A Spring não está sozinha. Outras companhias brasileiras que almejam uma maior internacionalização têm interesse em aumentar a visibilidade de sua marca no exterior por meio de uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em bolsas estrangeiras. É o caso da brasileira FK biotecnologia, que pesquisa, desenvolve, produz e comercializa soluções biotecnológicas para medicina humana. Após formar uma joint venture com a canadense ZBX Corporation, para criar a FK Canadá — que será controlada pelo Brasil e o embrião da FK Global —, a empresa pretende realizar um IPO na Bolsa de Toronto, previsto para acontecer ano que vem. Uma e outra acreditam que suas ações serão mais bem precificadas em bolsas estrangeiras, nas quais os investidores dão especial valor a empresas de tecnologia. No caso da Spring, a estrutura acionária já foi pensada para agradar os investidores internacionais. Nenhum dos sócios, inclusive fundos estrangeiros, possui participação majoritária na empresa. A ideia é manter o controle pulverizado, igualzinho às empresas do Vale do Silício.

A JBS Friboi, por sua vez, atualmente a maior empresa de carne bovina do mundo — com operações na Austrália, Itália, Estados Unidos e Argentina — vai fazer o IPO de sua subsidiária americana, a JBS USA, na Bolsa de Valores de Nova York (Nyse). Espera-se que a listagem traga maior visibilidade ao grupo JBS, que tem cerca de 80% de sua receita proveniente do exterior, além de uma melhora no seu valor de mercado, o que abriria uma valiosa janela para futuras aquisições por meio de troca de ações. O primeiro passo em busca desse reconhecimento internacional aconteceu no ano passado. Em dezembro de 2008, a JBS lançou seu programa de American Depositary Receipts (ADRs) no Nível 1, que permite a negociação desses papéis no mercado de balcão norte-americano. O IPO da JBS USA, porém, não tem data certa para acontecer. Com a aquisição recente da Pilgrim’s Pride e da Bertin, a companhia está recalculando os seus números e atualizando os documentos entregues à Securities and Exchange Commission (SEC). Em teleconferência, Joesley Mendonça Batista, presidente da JBS, disse que a operação deve ficar para o início do ano que vem.

Geraldo Soares, presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri) e superintendente de RI do Itaú Unibanco, acredita que a procura das companhias brasileiras por listagens no exterior deve ser tornar, daqui para frente, algo cada vez mais comum. “É natural que as nossas empresas, agora mais presentes no mercado global, busquem uma pulverização de sua base de acionistas fazendo também uma listagem em bolsa estrangeira”, afirma.

VENDENDO O PEIXE — De olho nesse cenário, em que mais companhias brasileiras buscam se internacionalizar, bolsas estrangeiras de diversos lugares do mundo aterrissam em solo verde-amarelo com discurso afinado sobre os benefícios de uma listagem no exterior. Mas o fato é que o mundo globalizado tornou os negócios mais difíceis para todas as companhias e isso inclui as bolsas. Diferentemente dos anos de pujança econômica, em que os IPOs “brotavam”, agora as bolsas têm de suar a camisa para atrair novas listagens. Principalmente as dos Estados Unidos e da Europa. Segundo estudo elaborado pela Ernst & Young, os países em desenvolvimento foram responsáveis, no terceiro trimestre de 2009, por 82% do número total de IPOs, enquanto os já desenvolvidos, por apenas 18%.

Além disso, não há como negar que as bolsas encontram um ambiente auspicioso no Brasil. O mercado de capitais local voltou a se aquecer nos últimos meses, com o anúncio de diversas ofertas públicas de ações, em função dos sinais de recuperação da economia doméstica. A maior delas — e, por sinal, maior do mundo em 2009 — aconteceu justamente em terras nacionais, em outubro. O IPO do Santander Brasil, que ocorreu simultaneamente na BM&FBovespa e na Nyse, arrecadou R$ 14,1 bilhões. “Até alguns anos trás, seria uma loucura pensar que a Bovespa abrigaria uma oferta desse porte”, afirma Paulo Sergio Dortas, coordenador de IPOs Brasil da Ernst & Young.

Toda essa vitalidade fez brilhar os olhos das bolsas estrangeiras. A Nyse não perdeu tempo e, este ano, já fez três vezes visitas ao Brasil. Em agosto, trouxe o presidente da instituição, Ducan Niederauer, para estreitar relacionamento com investidores e companhias em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. A Bolsa de Londres também “pousou” no Brasil duas vezes, em 2009, com o mesmo objetivo. Mas, até agora, teve pouca sorte. Diferentemente da Nyse, que possui 32 companhias brasileiras listadas, a bolsa londrina não tem nenhuma.

Alex Ibrahim, diretor da Nyse para a América Latina, faz questão de deixar claro que o clima não é de competição com a Bovespa. “É de complementaridade”, explica. Segundo o executivo, ao fazer uma listagem na Bolsa de Nova York, as companhias brasileiras ganham acesso a uma base significativamente maior de investidores, aumentam sua visibilidade como uma companhia internacional e melhoram a precificação das ações. “O que queremos é agregar valor”. No entanto, quando o assunto é a competição com outras bolsas estrangeiras por empresas brasileiras, Ibrahim não faz média. “Enquanto nós temos 32 companhias brasileiras listadas, a Nasdaq tem uma, Londres nenhuma, e Hong Kong, zero. E, em Paris, nós ainda temos a Vale”, dispara.

Mas a Nyse sabe que precisa manter os olhos bem abertos. A Deutsche Börse (Alemanha) e a bolsa chinesa de Hong Kong e a de Xangai — que recentemente recebeu autorização do governo para liberar a abertura de capital de empresas estrangeiras — também estão interessadas em buscar companhias estrangeiras para listagem, dentre elas, as brasileiras. “Nós estamos cientes do status do Brasil como uma das principais nações dos Bric, junto com Rússia, Índia e China, e temos um enorme interesse em receber empresas brasileiras”, informou a Bolsa de Hong Hong (HKEx), por meio de sua assessoria de imprensa. No momento, a HKEx conta com 110 companhias estrangeiras listadas, de países como Canadá, Austrália, Alemanha, Holanda, Japão, Taiwan e Cingapura.

Todas elas negociam ações na bolsa chinesa, mas isso nem sempre é fácil. Se o país de origem não permite que suas empresas emitam ou listem ações em praças estrangeiras, a companhia precisa constituir uma subsidiária de prateleira em Hong Kong, sem atividade operacional, e listar os papéis emitidos por ela. Para reduzir o entrave, a bolsa chinesa criou os certificados representativos de valores mobiliários (Hong Kong Depositary Receipts — HDRs) que, até agora, não atraíram interessados. Mas esse jejum pode ser quebrado por uma empresa brasileira. Segundo matérias veiculadas no Valor Econômico e na revista Exame, a Vale seria uma candidata à listagem de ações nas bolsas de Hong Kong ou Xangai. A empresa não confirma a informação; mas a HKEx diz que tem sido constantemente procurada por mineradoras e empresas de commodities. “Isso está associado ao aumento de fusões e aquisições de empresas do setor cotadas na bolsa. Essas companhias representam, atualmente, cerca de 15% da nossa capitalização total de mercado”, disse a assessoria de imprensa da Bolsa de Hong Kong.

Já a Deutsche Börse usa a sua especialização como trunfo para atrair companhias estrangeiras. A bolsa alemã é conhecida por abrigar empresas do setor de high tech, biotecnologia, software, automotivo e, principalmente, de tecnologia verde. “Como mercado de referência em IPOs nesse setor, podemos oferecer uma avaliação justa e baixos custos de transação para essas companhias, além de uma excelente liquidez”, afirma Martin Steinbach, responsável pelas listagens na Deutsche Börse. Até agora, das 1170 companhias listadas na praça alemã, 315 são estrangeiras. “Nós vemos o Brasil como um mercado muito atrativo”, diz Steinbach, que convidou algumas empresas brasileiras para o fórum de tecnologia verde programado para novembro, em Frankfurt. Além disso, a instituição lançou, no ano passado, o Frankfurt Global Depositary Receipt (FGDR), mais um instrumento para que estrangeiras se listem na bolsa alemã. A novidade atende países que não permitem a listagem de ações de suas companhias em outros mercados, somente de recibos. O plano é conquistar o interesse do investidor europeu e, sobretudo, do alemão, por FGDRs de companhias de mercados emergentes.

TRABALHO DOBRADO — Os esforços das bolsas estrangeiras para atrair companhias brasileiras não estão mais difíceis somente devido ao aumento da concorrência de seus pares na Europa, Ásia ou Estados Unidos. A Bovespa também se fortaleceu e já é capaz de fazer frente a muitas bolsas mundiais. “A Bovespa é uma alternativa totalmente viável. Além de líquida, a negociação é confiável e eficiente”, afirma André Béla Jánszky, sócio do escritório Shearman & Sterling. “O investidor estrangeiro mais sofisticado que, por receio, até uns cinco ou seis anos atrás, não investia diretamente aqui, não tem mais essa hesitação”, acrescenta. Tal crescimento se reflete no valor da BM&FBovespa, que também é uma companhia listada, na comparação com os gringos. No dia 8 de outubro, sua capitalização de mercado atingiu cerca de US$ 16 bilhões, valor superior ao da Nyse e da Nasdaq juntas, de US$ 11,5 bilhões.

Por isso, segundo Dortas, da Ernst & Young, uma listagem fora da Bovespa se justificaria, basicamente, em duas situações: para companhias que procuram ter uma maior exposição fora do Brasil e querem demonstrar seu nível de internacionalização perante os concorrentes, e para aquelas que buscam uma bolsa especializada, como a de Londres, que possui um histórico de investidores nas áreas de mineração e siderurgia. O Banco do Brasil, por exemplo, encaixa-se na primeira delas. Com a emissão de ADRs lastreadas em ações ordinárias no Nível 1, prevista para 2010, a instituição espera diminuir o desconto das suas ações em relação aos concorrentes que já possuem listagem na Nyse. “O mercado de balcão é apenas um primeiro passo para nos familiarizamos com o investidor norte-americano. No futuro, pretendemos migrar para o Nível 2”, afirma Marco Geovanne, gerente de relações com investidores do banco.
No entanto, por mais fortalecida que a Bovespa esteja atualmente, ela não pode descuidar de fazer a lição de casa. “Da mesma forma que a bolsa americana visita o mundo inteiro falando das suas vantagens, a Bovespa precisa começar a visitar mais o quintal do vizinho”, avalia Dortas, da Ernst & Young. “Vai chegar a hora em que as emissões não vão ocorrer mais nesse volume, e por isso é preciso começar desde já a identificar companhias no exterior que queiram se listar no País.”

A Bolsa garante que está atenta a isso. Cristiana Pereira, diretora de relações com empresas da BM&FBovespa, conta que tem conversado com bolsas de países da América Latina para fechar acordos que facilitem uma listagem dupla. Ela acredita que, em 2010, será possível lançar o projeto, anunciado no ano passado pela BM&FBovespa, de criar um segmento similar ao Novo Mercado para os Brazilian Depositary Receipts (BDRs), com uma série de exigências de governança corporativa. “Devido à crise e também à reforma no Novo Mercado, decidimos parar esse projeto, para lançá-lo quando as discussões sobre o segmento fossem finalizadas.”

Mas é bom a BM&FBovespa agir logo. A liquidez dos BDRs anda minguada (veja tabela ao lado), o que pode fazer com que o pequeno grupo de companhias que oferece esses papéis encolha ainda mais. Em janeiro desse ano, o Banco da Patagonia começou o cancelamento gradual de seus BDRs. Até 30 de setembro, 481.700 recibos foram cancelados. A BM&FBovespa diz estar tomando as providências necessárias. Atualmente, está em discussão com o Banco Central e outros players do mercado para acabar com alguns entraves que restringem a liquidez desses papéis. Segundo Cristina, hoje, os investidores estrangeiros não podem comprar ações das companhias no país de origem, transformá-los em BDRs e, depois, vendê-los aqui, como acontece com os ADRs. Esse mecanismo foi criado, na época, para dificultar a saída de recursos do País, sem que existisse uma entrada correspondente em dinheiro. “Mas, agora, estamos vivendo uma situação diferente, em que o governo quer equilibrar os fluxos cambiais e, portanto, acha benéfico ter tanto a entrada como a saída de dinheiro”, afirma.

IOF pode atrapalhar planos da Bovespa

O melhor jeito de uma bolsa atrair emissores estrangeiros é mostrando uma base de investidores ampla e diversificada. Para isso, às vezes, o mais recomendável é unir forças. Não por acaso, no dia 23 de outubro, a BM&FBovespa anunciou a celebração de um protocolo de intenções com a Nasdaq, tendo em vista um acordo de natureza tecnológica e comercial.
O protocolo contempla, por exemplo, a criação de um sistema de roteamento de ordens entre os Estados Unidos e o Brasil, através do qual os intermediários americanos (broker-dealers) conectados a esse sistema poderão enviar ordens de compra e de venda de ações negociadas no sistema de negociação da BM&FBovespa (MegaBolsa), mediante contrato com um corretor brasileiro. Da mesma forma, os corretores brasileiros conectados a esse sistema poderão enviar ordens de compra e de venda de ações negociadas no sistema de negociação da Nasdaq, por meio da contratação de um broker-dealer americano.
Os resultados de esforços como esse, contudo, estão, desde o mês passado, ameaçados pela cobrança de um IOF de 2% sobre investimentos estrangeiros. Criada pelo governo para controlar o câmbio, a medida tem deixado o mercado ressabiado. Ainda é difícil prever os seus efeitos, mas espera-se que um deles seja a migração de parte dos negócios da Bovespa para os mercados internacionais, principalmente a Nyse. Isso porque, para fugir da taxação, os investidores estrangeiros intensificariam a compra de ADRs. Em setembro, segundo dados do Bank of New York Mellon (BNY), foram negociados cerca de US$ 47 bilhões desses recibos de companhias brasileiras.

Matthew Poulter, associado da Linklaters, lembra que as empresas brasileiras hoje se intimidam muito menos com as exigências feitas pela Sarbanex Oxley, lei aplicável aos emissores que se listam nos Estados Unidos. “As companhias, principalmente as grandes, não veem mais essa exigência como um custo, mas, sim, como um investimento para se tornarem mais confiáveis perante os investidores”, observa. Curtis Smith, responsável pela área de ADR no Brasil do BNY, observa ainda que a convergência contábil das companhias brasileiras ao IFRS também tornará menos complicados os caminhos para uma listagem no mercado norte-americano. (L.T.)



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Tags:  mercado internacional Bolsa de valores Abertura de Capital/IPO Guia de Captações de Recursos Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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