Dinheiro das Arábias

Fundos latino-americanos voltados para infraestrutura, agronegócio e imóveis são os que mais têm chances de atrair os recursos islâmicos

Especial/Gestão de Recursos/Reportagens/Especial Private Equity 2010/Temas / 1 de maio de 2010
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De alguns anos para cá, o Oriente Médio passou a fazer parte da agenda de roadshows de empresas brasileiras, interessadas no expressivo volume de recursos da região, estimado em US$ 1,2 trilhão. Agora, o investidor islâmico passa a ser alvo do private equity latino-americano. Em maio, um grupo do Latin American Venture Capital Association (Lavca) desembarcou em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, com o intuito de estabelecer os primeiros contatos com investidores locais e mostrar as vantagens de se investir em fundos de private equity na América Latina.

Foi a primeira incursão da entidade na região do Mena (abreviação de Middle East and North Africa), que engloba os países do Oriente Médio e o Norte da África. Cate Ambrose, presidente e diretora executiva da Lavca, conta que boa parte dos investidores institucionais da região, notadamente os fundos soberanos, já está de olho em oportunidades na América Latina. “Um desses fundos possui uma equipe enorme de analistas dedicada exclusivamente a avaliar oportunidades em agronegócios na América Latina”, afirma.

Para a presidente da associação, o contato olho no olho serve para reforçar as percepções positivas da América Latina perante o investidor do Mena e, quem sabe, propiciar boas captações no médio prazo. Ela estima um horizonte de dois a três anos até que esse investidor venha a transferir seus recursos de forma deliberada para as mãos do private equity latino-americano. “Investidores do Oriente Médio dão muito valor ao contato humano nos negócios. Até se fechar um acordo, é preciso conhecer bem a outra parte, de forma a se estabelecer um elo de confiança”, conta Jawad Ali, sócio do escritório King & Spalding, de Dubai, especializado em operações de private equity na região.

“Investidores do Oriente Médio dão muito valor ao contato humano nos negócios. É preciso conhecer bem a outra parte”

Levando-se em conta o poder financeiro desses investidores institucionais — o Mena possui seis representantes dentre os 20 maiores fundos soberanos do mundo, inclusive o maior deles, o Abu Dhabi Investment Authority, com US$ 627 bilhões sob gestão —, o volume de recursos direcionado para fundos de private equity na América Latina é irrisório.

Apenas cinco fundos latino-americanos, voltados para as áreas de infraestrutura, agronegócio e imóveis, possuem aportes de investidores do Mena. Não por acaso, esses três segmentos são os que mais têm chance de atrair o dinheiro islâmico. Guiados pelas leis do Shariah, o código de conduta da religião islâmica — que, dentre outras coisas, abomina a especulação e a cobrança de juros financeiros —, esses investidores buscam desembolsar seus recursos em atividades que tenham lastro em ativos reais. Além disso, preferem fundos que permitam aportes significativos. “É recomendável que o fundo tenha mais de US$ 200 milhões de capital comprometido”, avisa Cate.

Os investidores da região têm um cuidado extra com as empresas de seu portfólio: investimentos em companhias ligadas a tabaco, álcool, jogos, pornografia, carne de porco e ao setor financeiro tradicional são proibidas pelo Shariah. Avesso ao excesso de alavancagem, o código islâmico também veta a participação em companhias cuja relação dívida versus patrimônio seja superior a 33%.

MERCADO EFERVESCENTE — Não é só como fonte de recursos que o Oriente Médio está na mira dos estrangeiros. A região vive, atualmente, um boom como destino de investimentos em capital de risco. O Carlyle, uma das maiores firmas de private equity do mundo, com mais de US$ 88 bilhões sob gestão, vem intensificando suas aquisições por lá. Em março, sua filial de Dubai abocanhou 30% de participação na General Lighting Company (GLC) da Arábia Saudita. Foi o primeiro investimento feito pelo Carlyle no país e o terceiro no Mena — em dezembro de 2009, comprou 50% das ações da Medical Park, segunda maior empresa turca da área de saúde; antes disso, já havia adquirido 40% da fabricante de navios TVK Shipyard.

A captação de gestores de private equity no Mena em 2009 foi de US$ 1,1 bilhão, ante US$ 6,8 bilhões no ano anterior

Os fundos locais também estão comemorando o crescimento da participação estrangeira em suas captações. Em fevereiro, o Gulf Capital, dos Emirados Árabes Unidos, uma das maiores gestoras do Oriente Médio, captou US$ 533 milhões para o fundo GC Equity Partners II — o maior volume de recursos levantado no ano em private equity no Mena. “Ficamos felizes pela qualidade dos investidores que atraímos, dentre os quais estão fundos soberanos, fundos de pensão, endowments, bancos e seguradoras dos Estados Unidos e da União Europeia”, comemora Karim El Solh, CEO do Gulf Capital. Mais de 30% do volume captado já foi alocado em três grandes companhias do continente — o Ma’arif, maior grupo educacional saudita; o egípcio Technoscan, da área de radiologia clínica; e o Gulf Marine Services, empresa de operações portuárias de Dubai. “O private equity do Mena vem ampliando seus horizontes”, avalia Hisham El-Khazindar, diretor da firma de private equity egípcia Citadel Capital.

A explicação para esse cenário está no desenvolvimento da região. “Setores de infraestrutura e serviços vêm se modernizando rapidamente em alguns países como Arábia Saudita, Egito, Turquia e Dubai, por conta de estímulos governamentais”, observa Ali, do King & Spalding. “Juntamente com a China e a Índia, o Mena será responsável pela recuperação econômica global”, acredita El Solh, do Gulf Capital. Outro fator que deve colaborar para o fomento da indústria de private equity no Mena é a desaceleração do crédito bancário no ano passado, muito forte na região. “A crise alertou as empresas para a importância de fontes de recursos não bancários”, opina El-Khazindar.

A captação de gestores de private equity no Mena, em 2009, foi de US$ 1,1 bilhão, uma queda considerável em relação aos US$ 6,8 bilhões do ano anterior. Mas como essa baixa se relaciona com o otimismo dos gestores? A explicação é que muito do que fora levantado em 2008 ainda não foi investido. “Só quando esse dinheiro estiver prestes a acabar, as captações vão refletir o ritmo de investimentos na região”, diz Ali. Em 2009, foram investidos US$ 2,2 bilhões, ante US$ 3,3 bilhões no ano anterior.


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