Depois do urso

Como vivem e o que pensam os executivos de bancos que sobreviveram à maior crise financeira da história

Bimestral / Relações com Investidores / Temas / Reportagem / Edição 90 / 1 de fevereiro de 2011
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Muita coisa mudou em Wall Street desde a crise de 2008. Segundo a agência de classificação de risco Moody’s, o valor de mercado das instituições financeiras que faziam parte do S&P 500 caiu de US$ 2,9 trilhões (21% do índice) em maio de 2007, no auge da euforia, para US$ 530 bilhões em março de 2009 (menos de 9% do S&P 500). O valor desses bancos se recuperou, mas ainda está longe do passado glorioso. Em 26 de janeiro, somou cerca de US$ 1,9 trilhão, ou 16% do índice. Assim como os números, a vida de quem trabalha no mais poderoso centro financeiro do mundo trilhou um caminho de montanha-russa nos últimos anos. Não foi fácil sobreviver ao tremor que mudou as finanças, as relações e os costumes das instituições financeiras.

O choque de culturas, em maior ou menor grau, a depender da empresa, foi uma consequência inevitável do movimento de fusões que sucedeu a crise. Quando o Lehman Brothers quebrou, Mary, uma norte-americana que não quis revelar o sobrenome, estava numa fase de ascensão profissional no Merrill Lynch, onde trabalhava como gerente de relacionamentos de vendas. Acostumada a trazer resultados para o banco, lidava com clientes de alto risco e desfrutava de uma boa dose de autonomia. O ano de 2008 tinha começado tenso para os mercados, mas pessoalmente Mary não tinha do que reclamar. Até que o Merrill Lynch sucumbiu ao peso dos derivativos podres de crédito imobiliário e foi comprado pelo Bank of America, que tem uma longa tradição como banco comercial. “Foi um choque letal de culturas corporativas e o momento mais estressante para mim”, recorda.

Saltar do ambiente de alta voltagem de um banco de investimento para uma instituição que atende o grande público consumidor é ser treinado como leão e atuar como carneirinho. Merrill Lynch, Lehman Brothers e Bear Stearns, os três gigantes que foram à lona e acabaram incorporados por outras casas, eram ícones de poder e agressividade nos negócios. Acostumada às decisões rápidas e a assumir riscos, Mary passou a ter de submeter tudo à hierarquia do Bank of America, que tem um perfil de risco bem diferente. O resultado foi a paralisação. Nada se definia na velocidade que ela julgava crucial para o sucesso dos investimentos.

LIMITES ENTEDIANTES — Em outros setores, um freio na agitação poderia até ser bem-vindo. No mercado financeiro, ele é odiado. Quem está acostumado a um ritmo intenso se estressa quando não tem velocidade e quantidade nas mãos. “Eu diria que é muito frustrante trabalhar com esses níveis de volume de negócios que estamos vendo no mercado ultimamente. Agora uma pessoa faz o trabalho de duas sem que isso ultrapasse os limites de ninguém”, diz Renata Rojas, diretora na área de dívida corporativa do Unicredit Bank AG. São raras as queixas sobre o acúmulo de funções, um efeito do buraco deixado pelas ondas de enxugamento. Para Daniel Shirai, vice-presidente de vendas e relações com os clientes na boutique de investimentos e corretagem Miller Tabak Roberts Securities, não é assim que Wall Street funciona. “A alocação de recursos aqui é muito eficiente”, garante ele.

“Qual o tamanho de mercado financeiro que cabe numa economia que cresce mais lentamente e com menos alavancagem?”

Essa é a parte que não mudou em Wall Street. A profissão continua altamente competitiva, os expedientes, longos, e os fins de semana de liberdade, um sonho a ser perseguido. A adrenalina, embora não seja para qualquer um, vicia. “O mercado é superdinâmico e é muito legal para trabalhar. Chego a me dedicar a isso 11 horas por dia, mas estou no centro dos acontecimentos”, resigna-se Shirai. Will Landers, diretor para América Latina da administradora de recursos BlackRock, gerencia um portfólio de US$ 10,5 bilhões em fundos dedicados à região e comenta que o estresse elevado é “normal”. “Administramos o dinheiro de terceiros e levamos isso muito a sério. Não existem férias, pois não podemos nos desligar totalmente do trabalho. É a regra do jogo. Somos muito bem pagos por isso.”

AMOR AO DINHEIRO — A crise foi uma oportunidade para que instituições de porte mais modesto capturassem recursos humanos que, em tempos menos incertos, dificilmente cairiam na sua rede. “Bancos médios, como o Jefferies, que não estão sujeitos às mesmas restrições dos grupos maiores, beneficiaram-se, porque puderam absorver rapidamente os talentos deslocados”, explica Alexander Yavorsky, analista sênior de bancos na Moody’s. Graças a essas firmas boutiques, muitos profissionais que ocupavam cargos seniores em grandes bancos puderam manter-se na ativa.

Mas a lógica desse ambiente competitivo leva a prever que os peixes grandes voltarão às casas mais poderosas. “As pessoas que migraram para instituições menores não hesitarão em voltar para os grandes bancos assim que o mercado der sinais de uma recuperação mais duradoura e o quadro regulatório estiver mais claro”, observa o coach profissional Andrew Gutmann, dono do site ibankingfaq.com e fundador do Institute for Finance Education and Career Advancement, em Nova York.

Gutmann ressalta que, na maioria dos casos, a ambição dos profissionais de mercado é trabalhar no “bulge bracket” — apelido que os norte-americanos dão ao grupo dos grandes bancos de investimento como Goldman Sachs e Morgan Stanley, que têm escala multinacional e compensam abundantemente seus funcionários. “Só existe um motivo para trabalhar no mercado financeiro: dinheiro. O que as pessoas amam é o grosso contracheque no fim do ano”, constata Gutmann. Thomas Trebat, ex-diretor de pesquisas em mercados emergentes do Citigroup e hoje diretor do centro de estudos brasileiros e latino-americanos da Universidade Columbia, em Nova York, trabalhou por quase 30 anos em bancos de investimento. Ele se aposentou do mercado em 2005 e pulou para a academia. Embora assegure estar feliz lá, de vez em quando tem saudade. “Um pouco da adrenalina, mas muito mais da remuneração”, confessa.

Esse é o impulso que corre nas veias dos executivos de Wall Street. Mas o que ainda paira no ar, para infelicidade deles, é um enorme medo de outras levas de demissões. O Congresso dos Estados Unidos trabalha na regulamentação das novas leis que regem o setor financeiro, as empresas adaptam-se na velocidade possível, e a recuperação da economia norte-americana é ainda incipiente.

Tony Volpon, estrategista de câmbio e juros para América Latina na Nomura Securities em Nova York, tem dúvidas sobre o tamanho de mercado financeiro que cabe numa economia que cresce menos, oferece menos rentabilidade e não apresenta o endividamento crescente de outras épocas. A resposta para isso, acredita Yavorsky, depende de como as instituições reagirão ao cenário regulatório que se desenha nos Estados Unidos. “Ficou mais difícil gerar retorno sobre o patrimônio”, avalia. Enquanto as amarras não são definidas, Wall Street continua livre para pavimentar seu próprio caminho.


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