Deixando a zona de conforto

Com a queda do juro, fundações planejam novos aportes em renda variável, inclusive em ativos alternativos. Mas só para 2010

Gestão de Recursos/Reportagem/Temas/Edição 72 / 1 de agosto de 2009
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Desde o primeiro sinal de queda da taxa de juros, o mercado aguarda com ansiedade uma migração em peso dos fundos de pensão para ativos de maior risco. Afinal, estamos falando de um grupo vital para o mercado de capitais brasileiro, com R$ 433,5 bilhões em investimentos, segundo dados de março deste ano da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência (Abrapp). É bem verdade que, em 2009, os títulos públicos ainda proporcionam ganhos significativos na renda fixa. Mas a previsão é de que, a partir de 2010, com a estagnação do juro, o vento vai parar de bater na popa, e as fundações terão de aprender a remar.

Sairá na frente quem já começou a treinar a rentabilidade condicionada ao maior risco. O desafio é achar um papel que ofereça taxa de retorno semelhante à que ofereciam os títulos pós-fixados, como as letras financeiras do Tesouro (LFTs), que pagavam remuneração alta com risco baixo e liquidez excelente. “Não é mais possível encontrar esse trinômio ‘tudo de bom’”, diz Mário Amigo, consultor de investimentos da Mercer. A saída, portanto, pode estar na diversificação.

Dentro da renda variável, a opção por ativos mais arriscados começa a ocupar espaço nas estratégias. A cautela ainda predomina, e a maior parte dos patrimônios está alocada em ações e fundos de investimento. Mas, com a atualização da Resolução 3.456 do Conselho Monetário Nacional (CMN), prevista para o segundo semestre de 2009, os limites de investimentos em cada tipo de ativo serão alterados. A renda variável deve ter o limite de 50% ampliado, apesar de a maioria das fundações manter a participação no segmento bem abaixo desse teto. A exceção é a Previ. O fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil começou a investir mais pesado em renda variável em 2001 e, com o desenvolvimento do mercado de ações, deslocou-se acima do limite imposto pela regulamentação.

A Previ é a única que pretende diminuir sua alocação em renda variável, para atender ao plano de enquadramento até 2014. Nesse sentido, tem buscado alongar a renda fixa. Mas a necessidade de se enquadrar não faz com que a Previ deixe de movimentar a carteira de renda variável para maximizar o retorno. Segundo o diretor de investimentos da entidade, Fábio Moser, o objetivo é fomentar o desenvolvimento da indústria de private equity. “Temos procurado sair do mercado Bovespa e entrar em private equity conforme surgem as oportunidades e permite o nosso fluxo de caixa”, diz.

NOVAS MODALIDADES — O investimento da Previ em private equity e venture capital, atualmente, é de cerca de R$ 1 bilhão comprometido, o equivalente a 1% da carteira de renda variável. Há investimentos em áreas diversas, tais como infraestrutura, biotecnologia, saneamento ambiental, sucroalcooleiro, educação, telecomunicações e energia elétrica.
A Valia, dos funcionários da mineradora Vale, caminha na mesma direção. De janeiro a julho, alocou aproximadamente R$ 300 milhões em renda variável. Parte disso se destinou a fundos mezanino (que mesclam crédito corporativo e participações no capital de empresas) e de private equity. Os investimentos de capital de risco estão perto de responder por 5% do patrimônio da Valia.

A partir de 2010, a Eletros planeja expandir os investimentos em fundos multimercado, já diversificados por natureza. “Vai depender de haver um limite maior de aplicação e do nosso apetite para testar novas opções”, afirma Jair Ribeiro, gerente de risco da Eletrobrás. Hoje, o teto estabelecido pela regulação para essas carteiras é de 3%. Quem torce pela elevação dessa barreira é a Opus Investimentos. O Opus Hedge Institucional FIM conta com aplicações de sete fundações, que representam 48,6% do patrimônio total do fundo. Ele foi concebido dentro dos moldes da Resolução 3.456, com a missão de seduzir as entidades fechadas de previdência.

Vitor Hugo Roquete, sócio da gestora de recursos, diz que observou o interesse dos fundos de pensão pelo seu multimercado, em função da queda na taxa de juros. De março de 2009 até 30 de julho, um período de cinco meses, o patrimônio do Hedge Institucional FIM mais que triplicou, saindo de R$ 55 milhões para quase R$ 172 milhões.

Antes figurantes no mundo de investimentos alternativos, as entidades de previdência de estados e municípios passam a ser lembradas com mais frequência pelos gestores. Nos últimos meses, esses agentes escoaram cerca de R$ 5 milhões para o multimercado Modal Institucional FI, segundo o diretor da Modal Asset Management, Alexandre Póvoa. Aplicações de fundos de pensão correspondem a 67% do patrimônio desse multimercado, que saltou de R$ 375 milhões, no fim de 2008, para R$ 500 milhões, em julho. Atenta ao apetite das fundações por renda variável, a asset do Banco Modal anunciou no início de agosto um novo fundo adaptado à Resolução 3.456. O Modal Bull Institucional FIC de FIA vai acompanhar o índice de small caps da Bovespa.

“Não é mais possível achar o trinômio ‘tudo de bom’: risco baixo, retorno alto e boa liquidez”, diz consultor

Fundações de menor porte procuram temperar também o portfólio de renda fixa. O diretor executivo da RB Capital, Marcelo Michaluá, destaca o interesse por certificados de recebíveis imobiliários (CRIs). “Vendemos CRIs neste ano para fundações que nunca tinham comprado”, diz ele. Mirar o mercado imobiliário faz parte da estratégia traçada pela Infraprev, por exemplo. Com 4,77% dos ativos concentrados nesse segmento, a instituição mantida pela Infraero estuda ampliar sua exposição a imóveis, mas sem chegar ao limite permitido de 8%.

APEGO À RENDA FIXA — O ano de 2009, contudo, não fechará com um aumento significativo dos aportes dos fundos de pensão em renda variável, além do já alcançado ao longo dos últimos meses. Os gestores ainda estampam um sorriso largo diante do ganho corrente em cima dos títulos de renda fixa de longo prazo — os papéis que mais se beneficiaram com a queda da Selic até agora. Esse é o caso da Real Grandeza, fundação dos empregados da elétrica Furnas. O plano de benefício definido (BD) do fundo investiu cerca de R$ 1,5 bilhão, entre outubro de 2008 e maio de 2009, em títulos com vencimentos até 2045. Na cesta de compras, muito pouco além de notas do Tesouro e títulos indexados a índices de inflação. Responsável por 96% do total de investimentos da Real Grandeza, o BD é um plano maduro, com mais saída de recursos que contribuições. “Estamos gerindo de forma conservadora, e a taxa dos papéis comprados faz com que a carteira cubra as necessidades do passivo”, garante o gerente de análise de investimentos da entidade, Abílio Ferreira.

A Eletros também espera atingir a meta atuarial em 2009 com a alta rentabilidade dos títulos públicos de longo prazo. “Em situações como essa, a queda do juro só ajuda”, aponta Ribeiro. Trata-se de um cálculo básico de finanças. Por terem um componente prefixado, esses títulos se valorizam quando a taxa de juros cai, gerando superávit. “Um título longo marcado a mercado estava rendendo IPCA mais 7% em 31 de dezembro de 2008. Como a taxa de juros recuou, esse título passou, seis meses depois, a render IPCA mais 6%. Essa redução de um ponto percentual produz um acréscimo no valor presente do ativo”, explica Ribeiro. Os fundos de pensão querem experimentar o risco, sim. Mas na medida do necessário.




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Tags:  renda variável Abrapp Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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