De volta aos trilhos

Aquisição da ferrovia Burlington Northern Santa Fe demonstra o poder de reação da Berkshire Hathaway. Parece que o pior ficou para trás

Gestão de Recursos/Especial/Berkshire Hathaway 2010/Reportagem/Temas / 1 de maio de 2010
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Flores coloridas estampavam a capa do guia com o programa oficial da assembleia de 2010 e as credenciais que cada acionista carregava com orgulho no peito. No evento de 2009, um caubói no estilo velho oeste era o tema das ilustrações. Uma alusão ao cenário de bangue-bangue do mercado acionário? Talvez pura coincidência. Mas não dá para negar que os motivos primaveris combinaram perfeitamente com o clima ameno da última assembleia da Berkshire Hathaway, que coroou um ano cheio de provações. Pela fala tranquila de Buffett e de Munger e os resultados entregues, pode-se concluir que o pior ficou para trás. A Berkshire Hathaway esbanjou vitalidade ao enfrentar a crise mais severa de sua história.

Logo na abertura da sessão de perguntas e respostas, Warren Buffett deu sinais de que sua companhia se aqueceu ainda mais no primeiro trimestre de 2010: atingiu um lucro líquido de US$ 3,63 bilhões, revertendo um prejuízo de US$ 1,53 bilhão no mesmo período de 2009. Os polêmicos derivativos de seu portfólio de investimentos financeiros também saíram bem na foto. Apresentaram ganhos de US$ 1,41 bilhão, ante perdas de US$ 3,24 bilhões.

Os números são reflexo da melhora do panorama econômico dos Estados Unidos e indicam uma recuperação da Berkshire. A holding encerrou o exercício social de 2009 com um faturamento de US$ 112,5 bilhões — menor que o de 2007, de US$ 118,25 bilhões, mas 4,36% superior ao de 2008 (US$ 107,8 bilhões). Mais vistoso ainda foi o incremento de 61,3% na última linha do balanço, na mesma base de comparação. O lucro líquido atingiu US$ 8,05 bilhões, ante os US$ 5 bilhões de 2008.

O resultado positivo se deve principalmente a investimentos e derivativos. Em 2009, a companhia acumulou ganhos de US$ 486 milhões com esses instrumentos, os mesmos que ceifaram US$ 4,64 bilhões do lucro de 2008. Na parte operacional é que a Berkshire enfrentou os maiores obstáculos. Em decorrência do declínio da atividade econômica no segundo semestre de 2008 e no primeiro semestre de 2009, a maior parte dos negócios de indústria, serviços e varejo desacelerou em relação ao ano anterior. Esse grupo sozinho apresentou redução de 51,25% no lucro líquido, de US$ 2,28 bilhões para US$ 1,11 bilhão.

Voando baixo

A maior dor de cabeça vem da NetJets, empresa que vende frações de jatos para quem quer o conforto de viajar nesse tipo de aeronave sem precisar desembolsar por uma inteira. A companhia acumulou perdas (antes de impostos) de US$ 157 milhões nos últimos 11 anos em que esteve sob o guarda-chuva da Berkshire. Em abril do ano passado, suas dívidas atingiram US$ 1,9 bilhão. “Está claro que errei em deixar a NetJets chegar a esse ponto. Mas, por sorte, fui socorrido”, escreveu Buffett em sua carta anual. A salvação veio das mãos de David Sokol, presidente do conselho de administração MidAmerican Energy, frequentemente apontado como um dos mais prováveis sucessores de Buffett na condução da Berkshire. Ele foi um dos responsáveis por convencer Buffett a injetar, em 2008, US$ 232 milhões na fabricante chinesa de baterias e carros elétricos. Depois de assumir a direção da empresa de jatos executivos em agosto de 2009, reduziu o endividamento para US$ 1,4 bilhão e fez o negócio lucrar US$ 50 milhões no primeiro trimestre de 2010, saindo de um prejuízo de US$ 711 milhões no exercício de 2009. Durante a assembleia, Buffett teceu elogios a Sokol e acusou a gestão anterior de ter deixado os custos operacionais saírem do controle.

O ambiente econômico desfavorável também impactou as empresas da divisão de finanças e produtos financeiros. A Clayton Homes, fornecedora de casas pré-moldadas e de financiamento para sua aquisição, não tem conseguido competir, por exemplo, com as taxas subsidiadas pelo governo para a compra de residências convencionais. Embora de maneira bem menos significativa, as subsidiárias de energia elétrica também sentiram os efeitos da crise, percebendo redução no volume de vendas em função da queda na demanda, dentre outras razões.

O carro-chefe continuam sendo as seguradoras, cujo volume de recursos somou US$ 62 bilhões (US$ 3,5 bilhões a mais que em 2008), um dinheiro que a Berkshire aplica em benefício próprio sem nenhuma despesa de juros. Ou seja, os prêmios pagos pelos segurados, enquanto não ocorrem os sinistros, viram munição para investimentos da holding controladora. No relatório anual da companhia, Buffett salienta que suas operadoras de seguros completaram sete anos seguidos lucrando. Ainda que as seguradoras e resseguradoras não tenham contribuído muito para o aumento do resultado líquido da Berkshire Hathaway em 2009 vendendo apólices — os ganhos com essa atividade foram até menos expressivos que os de 2008 —, seus investimentos trouxeram um rendimento líquido de US$ 4 bilhões.

O mar esteve para Buffett

A administração dos investimentos das seguradoras é tocada pessoalmente por Buffett. Com esses recursos, desde setembro de 2008 até o fim de fevereiro de 2010, a Berkshire Hathaway fez pelo menos cinco aquisições relevantes. Totalizaram US$ 21,1 bilhões as compras de participações e dívida emitidas por Wringley, Goldman Sachs, General Electric, Swiss Re e Dow Chemical. Apesar das recentes acusações de fraude contra o Goldman, Buffett diz adorar seu investimento no banco. Costurado em outubro de 2008, o acordo previu a injeção de US$ 5 bilhões no Goldman, em troca de “ações preferenciais perpétuas” (“perpetual preferred stocks”), que pagam à Berkshire Hathaway 10% de dividendos anuais, ou US$ 500 milhões. Além disso, foi assegurado à Berkshire o direito de compra de US$ 5 bilhões em ações ordinárias do banco de investimento ao preço de US$ 115 por papel — bem abaixo do fechamento de US$ 149,18, no pregão do último 5 de maio. A opção ainda não foi exercida. Toda essa lista de investimentos conferiu ao grupo de seguradoras da Berkshire, em 2009, US$ 1,65 bilhão em juros e dividendos.

Ao longo de 2009, a holding vendeu grandes fatias de ConocoPhillips, Moody’s, Procter & Gamble e Johnson & Johnson. Desfazendo-se dessas posições, pôde realizar mais investimentos. O mais importante deles ocorreu em 12 de fevereiro deste ano, quando a holding levou 77,5% das ações da Burlignton Northern Santa Fe (BNSF). A centenária ferrovia, com trilhos que passam por 28 estados norte-americanos e duas províncias canadenses, transformou-se em subsidiária integral da Berkshire, que vinha aumentando sua participação acionária na empresa desde 2006. A compra foi a maior já feita pela holding de investimentos de Omaha: US$ 26,5 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 15,9 bilhões pagos em dinheiro e US$ 10,6 bilhões em ações. “Tenho certeza de que nem eles imaginavam que poderíamos comprá-los”, disse um descontraído Charles Munger, tentando explicar que as aquisições da Berkshire ocorrem assim, quase que por acidente.

Fechar o negócio exigiu da Berkshire fazer algo que Buffett e Munger sempre rejeitaram: emitir ações. Foram lançados cerca de 95 mil papéis da holding, o equivalente a 6,1% do capital “outstanding” (que inclui todas as ações emitidas pela companhia, exceto as mantidas em tesouraria). Essa quebra de paradigma tem como premissa a aposta de que há poucas alternativas para a demanda por transporte nos Estados Unidos. Estima-se que se 10% da carga movida nas sobrecarregadas rodovias norte-americanas fosse transferida para trens, haveria uma economia de 3,8 bilhões de litros de combustível por ano. De quebra, a emissão anual de gases do efeito estufa cairia mais de 12 milhões de toneladas.

Em paz com os acionistas

Ainda que essa não tenha sido uma das mais fantásticas temporadas da história da Berkshire Hathaway, pelo menos serviu para acalmar os nervos dos acionistas. Em 2008, eles viram o pior desempenho da blue chip. Mesmo para um ano atípico como foi aquele, com o esfacelamento de tradicionais instituições financeiras, não foi fácil assistir à queda de uma ação habituada a voos altos. Desde que a atual administração assumiu o comando da Berkshire, em 1965, o retorno do valor patrimonial por ação da empresa em 12 meses — a medida preferida de Buffett e Munger — tinha sido negativo apenas uma vez, após o estouro da bolha das pontocom e os ataques terroristas de 11 de setembro. Os 6,2% negativos de 2001, contudo, foram ofuscados pelo recuo de 9,6% no ano de Lehman Brothers e companhia. Em 2009, a empresa voltou à “normalidade”, com um aumento de 19,8% no indicador.

A melhora do valor patrimonial por ação só não foi perfeita porque ficou abaixo do retorno de 26,5% do índice S&P 500, o benchmark que a Berkshire busca superar em horizontes de cinco anos — coisa que ela tem feito com sucesso todo esse tempo. Apesar de serem indicadores completamente diferentes, Buffett acha justo compará-los por saber que um investidor preferirá colocar seus recursos num fundo indexado ao S&P 500 a confiar num gestor incapaz de ultrapassar o índice. Como as ações integrantes do índice não têm mais a importância do passado no portfólio da holding, a oscilação delas tem afetado menos o balanço da Berkshire.

É de se esperar que o indicador utilizado por Buffett perca algumas vezes para o S&P em períodos de fortes altas na bolsa e, da mesma maneira, se saia vitorioso em mercados baixistas. Em 45 anos, o valor patrimonial por ação da Berkshire registrou um ganho de 434.057%, enquanto o S&P 500 se elevou 5.430%. Se fosse usada como parâmetro a cotação em bolsa, a valorização seria ainda mais incrível, alcançando 801.516%. Daí vem a crença de que a holding de Buffett é uma das aplicações financeiras “mais seguras do mundo”. Como dizem os seus acionistas, o rendimento pode não ser tão rápido, nem volumoso. “Mas é melhor que o da poupança.”


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