PIB não é lucro — e ambos têm implicação para a sustentabilidade

Contabilidade e Auditoria / Seletas / Colunistas / Edição 10 / 4 de dezembro de 2015
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Ilustração: Grau 180.com.

Ilustração: Grau 180.com.

Não tenho novidade sobre a matéria, apenas a lembrança de um assunto que parece ser esquecido, com mais frequência do que seria razoável, no mundo dos negócios, na sociedade e, o que é pior, no planejamento e na execução das políticas públicas.

“A Pátria é a família amplificada” (Rui Barbosa, 1903). Vamos explorar a ideia de uma forma metafórica e dentro de um contexto econômico e contábil.

A família Silva vive da produção de crochê, usando agulhas que fizeram de bambu e que têm vida quase eterna. Gastam R$ 20 mil por mês em compra de linha e recebem R$ 25 mil mensais pela venda dos produtos, num país sem impostos. Seu PIB (diferença entre o output e o input), portanto, é de R$ 5 mil mensais. Eles estimam que o valor de mercado da mão de obra que empregam é de R$ 3 mil, e assim consideram, num conceito bem evoluído, que têm lucro líquido contábil de R$ 2 mil por mês. Aprenderam a separar remuneração da mão de obra do lucro. Só que gastam os R$ 5 mil do PIB familiar no dia a dia, com a sensação de estar se sustentando com os R$ 3 mil e aproveitando a vida com os R$ 2 mil. Ceteris paribus, todavia, vida eterna à família.

A família Martins precisou investir R$ 240 mil, sua única riqueza, em máquinas que deverão ter vida útil de aproximadamente oito anos (depois disso, serão sucateadas). Eles gastam R$ 20 mil por mês com matéria-prima e demais custos (como energia e comunicação) e obtêm com a venda de seus produtos — parafusos — R$ 28,5 mil por mês. Seu PIB (lembre-se: produto interno bruto) é de R$ 8,5 mil por mês, e o lucro líquido é de R$ 2 mil mensais. Isso porque a família aprendeu que precisa considerar na apuração do lucro não só o valor da mão de obra (que, pela qualificação maior que a do primeiro exemplo, vale R$ 4 mil), mas também parte do dinheiro que entra (R$ 2,5 mil) como caixa destinado à recuperação de um pedaço do valor originalmente investido na compra das máquinas — e isso não é lucro, não é um aumento de riqueza, é uma troca de riqueza (máquina que se desgasta de um lado e caixa que aumenta do outro). Os R$ 2,5 mil são abatidos na apuração do lucro com o nome de depreciação das máquinas. E gasta essa família R$ 6 mil no seu dia a dia (R$ 4 mil como salários e R$ 2 mil como gozo do lucro), poupando os R$ 2,5 mil para que a riqueza total da família se perpetue. Ah! Esse país hipotético, além de não ter impostos, não tem inflação! Ceteris paribus e preços não cambiantes, vida eterna à família, e com padrão de vida superior ao da primeira. E apontamos: um PIB R$ 3,5 mil maior que o da primeira família, mas capacidade de gasto de apenas R$ 1 mil a mais! E lucros líquidos contábeis iguais para ambas. Mas padrão de vida diferente.

A família Siltins investiu R$ 240 mil, sua única riqueza, em equipamentos de extração de minério, com vida útil de oito anos. Conseguiram o direito de explorar gratuitamente uma mina num certo local, a única na região, e a previsão é de esgotamento em oito anos. Gastaram R$ 20 mil por mês com materiais, manutenção e outros itens e vendem o minério por R$ 29,5 mil mensalmente. Seu PIB é calculado em R$ 9,5 mil mensais, mas seu lucro líquido contábil é de R$ 2 mil — isso porque essa família também apropria o valor de mercado de sua mão de obra, que é mais sofisticada, mais cara (R$ 5 mil) e aprendeu, com a família Martins, a considerar R$ 2,5 mil da depreciação da máquina. Gastam R$ 7 mil (mão de obra e lucro líquido) no dia a dia, poupando os R$ 2,5 mil. E têm padrão de vida melhor que o dos integrantes das duas famílias anteriores. Só que, mesmo num país sem impostos e sem inflação, como será a vida da família após a exaustão da jazida? Mesmo com R$ 240 mil em dinheiro poupado, terão que achar outra atividade, ou mudar de região, ou gastar seu capital. Viver de juro não dá com esse montante. E a sua sustentabilidade? Seu PIB foi de R$ 1 mil a mais do que o da família anterior, sua capacidade de gasto foi entendida como sendo R$ 1 mil superior também, mas a expectativa de vida futura… E lucro líquido contábil foi igual ao registrado pelas outras duas famílias. Algo vai mal nessas contas.

PIBs de R$ 5 mil, R$ 8,5 mil e R$ 9,5 mil, respectivamente, qualidade de vida medida pela capacidade de gastar de R$ 5 mil, R$ 6 mil e R$ 7 mil, pela ordem, e lucros líquidos contábeis iguais, de R$ 2 mil, para as três famílias. Só que com sustentabilidade igual para as duas primeiras e diferente para a terceira.

Mas a Pátria é a família amplificada! E as contas nacionais e a própria contabilidade amplificam igualmente os dramas! Qual seria a diferença entre o PIB brasileiro e o seu PIL (produto interno líquido da perda de capital), se considerássemos, além da depreciação dos ativos construídos pelo homem com vida finita, o valor dos recursos naturais não renováveis não consumidos? E qual seria o lucro líquido das empresas e pessoas que esgotam recursos naturais não renováveis se tivessem que devolver o valor correspondente à sociedade, de forma a garantir a sustentabilidade do todo, e só tivessem lucro se conseguissem fazer sobrar algo além dessa reposição?

E se considerarmos também a perda de capital natural com os grandes desastres ambientais que vivenciamos?

Não está na hora de darmos atenção ao PIL (mas com a exaustão dos recursos naturais não renováveis incluída, não só as depreciações e amortizações dos ativos construídos pelo homem) igual à que damos ao PIB? Não está na hora de um avanço também no conceito de lucro líquido contábil? E de repensar uma política pública mais garantidora da sustentabilidade?



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Tags:  PIB

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1 comentário

May 17, 2016

Finalmente encontrei a equação que expressa a incompetência de países como Brasil e Rússia, com pobreza extrema e recursos naturais abundantes, diante da competência de Cingapura, Israel, Coréia do Sul e Japão, que não têm absolutamente nada além da vantagem de terem percebido a necessidade da sustentabilidade.



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