O maravilhoso Parque dos Pedalinhos

No remoto país que tem esse curioso nome citado no título (que nada tem a ver com a nossa realidade, diga-se de passagem), o Banco Central tem um caixa de $ 100 e o governo é dono de um banco, o BPP. O Tesouro Nacional não tem nada, nem caixa, nem dívida — está zeradinho

Contabilidade e Auditoria/Seletas/Colunistas/Edição 16 / 10 de fevereiro de 2016
Por     /    Versão para impressão Versão para impressão


Eliseu Martins*/ Ilustração: Julia Padula

No remoto país que tem esse curioso nome citado no título (que nada tem a ver com a nossa realidade, diga-se de passagem), o Banco Central tem um caixa de $ 100 e o governo é dono de um banco, o BPP. O Tesouro Nacional não tem nada, nem caixa, nem dívida — está zeradinho, “controladinho”. Mas chega o fim do mês e ele tem de pagar a folha dos aposentados, num total de $ 60.

No dia do pagamento, os velhinhos vão ao BPP, que não recebeu nada do Tesouro para que pudesse repassar a esses aposentados, mas, bondosamente, paga assim mesmo os $ 60. Acaba de nascer no banco, no lugar do caixa, um ativo representado pelo “direito a receber o dinheiro do seu dono”.

“Mas isso não é um empréstimo do banco ao Tesouro”, como alguns passaram a pensar; afinal, ninguém formalizou uma operação de crédito — e, além do mais, banco emprestar para seu dono é crime nesse país. “Não é um cheque sem fundo”, como pensou aquele que um dia emitiu um e agora passa apuros por causa disso; afinal, nenhum cheque foi emitido, e também seria crime fazê-lo. Também não é caridade, porque o banco vai cobrar do seu patrão pela boa ação o principal acrescido de um bom juro. “É apenas uma pequena diferença temporal entre o pagamento e o recebimento”, como um porta-voz resolveu explicar, deixando todos os habitantes do Parque dos Pedalinhos tranquilos: “Ah, bom…” Bem, deixemos isso de lado. Sabemos que, infelizmente, sempre há pessoas capazes de ver algo errado numa ação tão louvável do banco e de seu dono, atitude que ajudou a nação a se livrar do terrível problema dos velhos sem dinheiro.

Um pequeno detalhe: o Tesouro, como não tirou dinheiro de seu bolso, também se esqueceu de registrar a despesa com a folha e a dívida com o banco — assim, não há registro de déficit!

Acontece que um conselho fiscal do governo, integrado por pessoas muito chatas, começa a chiar. E o governo é pressionado a explicar e a corrigir a situação (se é que havia algo a ser corrigido). “Fácil, muito fácil a solução”, descobriu-se: o Tesouro Nacional emitiu uma nota promissória de $ 60 e bateu às portas do Banco Central. Este ficou com a tal nota e entregou o dinheiro ao Tesouro. O Tesouro recebeu o caixa e registrou o passivo representado pela promissória a pagar. A seguir, o Tesouro depositou o dinheiro no BPP. Só que, ao transferir o dinheiro, o Tesouro teve agora que registrar a saída e, consequentemente, a despesa. Que horrível! Continua com ativo zerado, mas com uma dívida no passivo e, consequentemente, um patrimônio líquido negativo, um déficit agora escancarado. O BPP recebe o dinheiro em troca do seu “valor a receber” e tudo bem (o juro será pago depois).

Ou seja, pela ótica de alguns, o Tesouro “pagou” sua dívida! Que legal! Talvez alguém, um tanto míope, ache que de fato houve algo parecido com um cheque sem fundo logo de saída e que agora quem cobriu esse cheque foi o Banco Central, e não o Tesouro. Mas sempre existem esses chatos mesmo. Afinal, o Banco Central também é do governo.

E se o Tesouro tivesse emitido a nota promissória e feito a entrega diretamente ao BPP para saldar sua obrigação? Ou poderia ter feito uma mescla: $ 50 pagos como descrito, e $ 10 pagos com promissória que já tinha emitido antes. Aí ficaria tudo mais fácil de explicar: “Parte foi quitada sem necessidade de emissão de novos títulos”.

Mas sempre podia ter sido pior: e se o Banco Central não tivesse aquele caixa? Ah, aí poderia ter sido adotada outra solução: emissão de dinheiro! Assim, o caixa vindo da fábrica entraria no ativo do Banco Central e apareceria a tal enigmática conta no passivo “meio circulante” em contrapartida. Só que esse dinheiro emitido talvez provocasse um aumento na inflação — já que nada teria sido produzido no país e o volume de dinheiro circulando aumentaria. Mais uma vez: tudo poderia ter sido pior. Portanto, o importante é dormirmos felizes porque o Banco Central tinha o dinheiro em caixa e tudo acabou numa boa pizza ao cair da noite.




Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  Contabilidade dívida pública eliseu martins Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Feliz 2016
Próxima matéria
Campo aberto



1 comentário

Apr 22, 2016

Nao sou critico literário mas senti falta na História do destino da personagem principal: O aposentado. Por receber ele pode sustentar a ele é a família da qual ele também ainda é esteio ? Em capitulo cortado desta Historia havia sido escrito que “as pessoas chatas” ja haviam governado o país. E as “pessoas chatas” que agora não tem que dar conta dessa populacao de idosos e suas famílias, que acharam disso ? Que ideia brilhante “as pessoas chatas” praticaram quando governaram ? mundo mundo vasto mundo…



Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
Feliz 2016
Começamos o ano com a mais dolorosa previsão dos últimos tempos. A tempestade política não dá sinais de quando irá...
{"cart_token":"","hash":"","cart_data":""}