Começar de novo

Taiki Hirashima, fundador da Hirashima & Associados: “Eu precisava construir alguma coisa novamente. Essa é a razão da existência desta empresa.”

Contabilidade e Auditoria/Retrato/Edição 130 / 1 de junho de 2014
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No começo de 1998, a brincadeira na casa dos Hirashima, em São Paulo, era chamar a senhora Marlene de “viúva Telebrás”. Pudera: ela praticamente havia “perdido” o marido Taiki para a estatal que seria privatizada em julho daquele ano graças a uma complexa modelagem na qual ele trabalhava dia e noite. Exilado em Brasília, o sócio-diretor da Arthur Andersen coordenou por quase dois anos o time que definia e solucionava toda a parte contábil da privatização. “Era impressionante”, conta Luiz Leonardo Cantidiano, sócio do Motta, Fernandes Rocha Advogados, que coordenava a parte legal. “Ele chegava às reuniões com tudo à mão, como um piloto de Fórmula 1 que já tivesse checado o óleo, o motor, a bateria, todos os detalhes, antes da corrida.”

Embora preze o equilíbrio entre a vida familiar e a profissional, Hirashima conta que não se importava com o excesso de trabalho naquela época: além da realização pessoal, reconhecia na missão parte importante de um legado que seria transmitido às novas gerações de auditores e consultores. No entanto, o legado construído pelo jovem nissei que chegou sozinho à capital paulista aos 16 anos, deixando no interior a família que vivia do cultivo de algodão, ruiria quatro anos depois. Hirashima estava prestes a se aposentar quando a multinacional americana à qual dedicara 40 anos de sua vida envolveu-se numa crise de credibilidade sem precedentes nos Estados Unidos. Arrastada pelas denúncias de fraudes cometidas pela gigante de energia Enron, sua cliente, a Arthur Andersen fecharia as portas no mundo todo em 2002, incutindo no auditor a sensação de nada ter deixado para trás.

“Foi como se tudo tivesse zerado”, recorda. “Eu precisava construir alguma coisa novamente. Essa é a razão da existência desta empresa”, completa, sentado à mesa da Hirashima & Associados, fundada por ele em 2003. A consultoria abriga hoje 35 profissionais e tem prestígio de “butique” no mercado, além de prestar serviços de auditoria independente. “A ideia de butique funciona. Mas é preciso ter gente competente para atender ao conceito de ser uma loja pequena que oferece produtos muito bons que não são baratos”, explica.

O que parece ter atraído tanto os talentos (“começamos com apenas quatro pessoas”) quanto os clientes de porte, como Itaú, Banco do Brasil, Cemig, Casas Bahia e CPFL, foi a cultura pessoal lapidada por Hirashima a partir do aprendizado na Arthur Andersen. Ele ingressou na auditoria quando ainda estava no primeiro ano da faculdade de ciências contábeis, na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. A profissão de contador foi escolhida como alternativa ao sonho de cursar medicina. “Quando cheguei em São Paulo, fui trabalhar numa farmácia e coloquei na cabeça que queria ser médico. Mas depois percebi que precisaria estudar o dia inteiro, e eu não vinha de uma família abastada que pudesse me sustentar.”

Em vez de se sentir frustrado, Taiki logo tomou gosto pela outra carreira. “Cada cliente trazia um problema e um desafio diferente. Era uma rotina que não cansava.” Durante quatro anos, trabalhava de dia e estudava à noite, associando a prática da consultoria à teoria dos estudos. “Foi um casamento entre o que a empresa era e o que eu era”, diz, referindo-se à rigidez de conduta que teria predominado em relação à “cultura mais bagunçada” de sua juventude.

É difícil imaginar um jovem Hirashima “bagunçado”, anterior àquele profissional tecnicamente impecável e sempre afável descrito por Cantidiano. Mesmo quando o ministro das Comunicações Sérgio Motta estabelecia prazos exíguos para determinadas etapas — como quando tiveram apenas dois meses para fazer a cisão das companhias telefônicas e separar a parte móvel da fixa —, Hirashima mantinha a calma e encontrava soluções para as ideias do advogado. “Esta fase deu um trabalhão, porque cada estado tinha uma telefônica. Aprendi muito ao lidar com banqueiros, advogados, estrangeiros”, conta o auditor. Cantidiano também se lembra com entusiasmo da parceria. “Quando eu soube que o Hirashima se aposentaria, pensei em tê-lo como sócio em um negócio”, revela. “Mas aí fui convidado para a presidência da CVM [Comissão de Valores Mobiliários], e depois disso ele já tinha montado a própria consultoria.”

Em vez da tranquilidade da aposentadoria, Hirashima se defrontou com a urgência de “começar de novo”. Tinha 62 anos. Doze anos depois, exibe com orgulho seu “novo legado”: uma consultoria com diferentes áreas de atuação e que já participou de operações empresariais tão importantes quanto aquela vivida na época da Telebrás, como a fusão entre Itaú e Unibanco e a aquisição da Terna pela Cemig.

Isso tudo sem precisar “abandonar” a esposa Marlene, com quem joga golfe todo sábado e domingo. A mágoa com a fase de Telebrás, pelo visto, ficou para trás. “Sempre batalhei pela carreira e pela família. Estamos casados há 47 anos, temos dois filhos e um neto de dois anos.” Mas sobre o golfe, reconhece: “ela é melhor do que eu”.

Foto: Régis Filho




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Tags:  cemig CVM CAPITAL ABERTO mercado de capitais Privatização Auditoria Enron Contabilidade Telebras Telefónica Arthur Andersen Taiki Hirashima Hirashima & Associados Terna Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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1 comentário
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Aug 30, 2018

Genial. Que dia Feliz encontrando no meu Linkedin esse artigo de meu colega Alvarista, no dia do aniversário de 89 anos do primo de minha mãe Renato Bonilha Costivelli também Arthur Andersen…



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