Concorrência pesada

Atraídos pelos holofotes no Brasil, novos players aumentam competição entre gestores de fundos de private equity

Gestão de Recursos/Especial/Reportagem/Especial Private Equity 2010/Temas / 1 de maio de 2010
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Em maio, quando anunciou a compra do controle da Tivit, Martin Halusa, CEO da Apax, gestora de fundos de private equity sediada em Londres com patrimônio de mais de US$ 35 bilhões, enfatizou o entusiasmo com o Brasil, onde vinha procurando negócios há alguns anos. Para ele, a prestadora de serviços de tecnologia, além de apresentar qualidades internas, aproveita os ventos a favor de uma “forte economia”. A aquisição de ativos brasileiros por uma grife internacional como a Apax, que atua nos Estados Unidos, na Europa e Ásia e nunca havia feito investimentos por aqui, confirma o lugar de destaque ocupado pelo País no mapa global de private equity. Ao mesmo tempo, reforça a competição entre gestores de fundos de capital de risco dedicados à região. Grupos gigantes como Apax e Carlyle, que fechou neste ano a compra da operadora de turismo CVC, não são os únicos a entrar na onda verde-amarela. Dentre os presentes na 12ª Conferência Global de Private Equity, organizada pela International Finance Corporation (IFC) e a Emerging Markets Private Equity Association (Empea) em 11 e 12 de maio, em Washington, D.C., era fácil encontrar gestores com planos de investimento no Brasil. Tanto de firmas com tradição no mercado quanto de quem ainda não captou um dólar sequer.

Jon Francisco Toscano, sócio da Trivèlla Investments, estava nesse grupo de 850 pessoas, em sua maioria “general partners”, ou GPs, como se costumam chamar os gestores dos fundos de private equity. A Trivèlla faz parte do time de casas brasileiras que estão estreando na gestão de fundos de private equity. Toscano foi até lá interessado em fazer contatos com investidores em potencial, os LPs, ou “limited partners”. A empresa nasceu como consultoria financeira em 1999, assessorou operações de private equity e, em 2008, montou um clube de investimento em ações de small caps — o Trivèlla Brazil Growth, com um total de recursos estimado em R$ 2 milhões, em 12 de maio.

NOVATOS LOCAIS — O passo mais ambicioso da pequena asset está marcado para as próximas semanas, quando deverá ser registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) seu primeiro fundo de investimento em participações (FIP). Sediada em Itu, cidade do estado de São Paulo fundada em 1610 e que servia como uma das entradas dos bandeirantes para as entranhas do Brasil, a Trivèlla se vende como a porta de acesso de investidores a uma das regiões mais ricas do País: o interior de São Paulo. É nessa área e nas redondezas de Londrina e Maringá (PR) que se localizam as primeiras empresas alvejadas pelo FIP. Basicamente, são empreendimentos de pequeno e médio portes, com faturamento entre R$ 10 milhões e
R$ 100 milhões, ligados a universidades como a federal de São Carlos (Ufscar) e a estadual de Campinas (Unicamp), e com foco em tecnologia da informação (TI). Toscano não dá outros detalhes sobre o FIP, mas sabe-se que sua preferência é por aquisições de fatias minoritárias em empresas com capacidade de expansão além das fronteiras nacionais.

Para se destacar, fundos devem conter capital próprio dos gestores e apresentar ritmo de investimento adequado

Também circulava pelos salões do Ritz-Carlton, cinco-estrelas situado em Georgetown, bairro nobre da capital norte-americana, Erwin Russel, sócio da Artesia Gestão de Recursos. Nos últimos anos, a casa ganhou projeção com as ofertas públicas iniciais de ações de Metalfrio e Le Lis Blanc, companhias nas quais detém participações acionárias precedentes aos IPOs, por meio de um fundo exclusivo. Agora, a Artesia se prepara para se lançar como gestora de recursos de terceiros, com a distribuição de um FIP multissetorial.

Do lado dos novatos estrangeiros que querem captar recursos para o Brasil está a Real Infrastructure, gestora recém-nascida em Nova York. Apesar dos valores atrativos de várias empresas nos Estados Unidos neste momento, depreciados pela crise, a gestora decidiu olhar abaixo da América do Norte. “A competição é muito agressiva nos Estados Unidos. No Brasil, ela é bem menor”, explicou o sócio Charles Galante. Na época das privatizações dos anos 1990, Galante trabalhou em São Paulo, na área de project finance do ABN Amro Bank, e tomou conhecimento da indústria local de energia elétrica. Por essa razão, ele acredita que não terá muitos percalços para vasculhar oportunidades nos segmentos de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e de usinas de biomassa, por exemplo. Seu primeiro fundo abrirá para captações entre janeiro e março de 2011, cortejando investidores da Europa e dos Estados Unidos, principalmente. Será voltado à América Latina como um todo, com aproximadamente 25% do patrimônio projetado de US$ 125 milhões concentrado no Brasil.

MOVIDOS A ELETRICIDADE — Setores de infraestrutura, como energia elétrica, vêm fascinando GPs e LPs. A Emerging Energy & Environment, de Stamford, Connecticut, já fez dois negócios no Brasil, entre 2005 e 2006, por meio de um fundo de US$ 25 milhões dedicado à América Latina com até 40% dos recursos alocados no País. Um dos investimentos foi na NEOgás, primeira empresa a ser autorizada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a distribuir gás natural comprimido; o outro foi numa PCH mineira. Satisfeita com os resultados colhidos, a gestora está angariando recursos para um segundo fundo dirigido à região, que vai investir em “energia limpa”. “Buscamos empresas de energia hidrelétrica, biomassa e solar”, contou John Paul Moscarella, sócio-fundador da firma de investimentos.

A chegada frenética de novos fundos à praça deixa dúvidas se haverá espaço para todos. “Entre querer entrar e entrar de fato no mercado há uma distância enorme”, disse Alexandre Fernandes e Souza, gestor de um fundo de venture capital de R$ 24 milhões da carioca Rio Bravo de Investimentos. Para conseguir se destacar em meio à concorrência crescente, Souza repete uma lição ecoada pelos palestrantes da conferência: é preciso mostrar valor agregado ao investidor. Sobretudo gestores que se aventuram pela primeira vez no setor têm de ser capazes de apresentar soluções para algum problema enfrentado pelos LPs. Espera-se que os fundos contem com capital próprio dos gestores, tenham empresas no radar e apresentem um ritmo de investimentos razoável. “Poucos estão capacitados para isso”, salientou.

O fluxo potencial de negócios gerados pelo fundo, o chamado “deal flow”, é cada vez mais observado pelos investidores para avaliar a viabilidade do produto. Como lembrou Maurício Folkerts, presidente e sócio-fundador do The SMC Group, braço da NSG Capital criado para tocar a área de investimentos alternativos, ainda “poucos negócios têm se concretizado no Brasil”. Apesar da crise de crédito, que derrubou o valuation em casos variados, os bons prognósticos para a economia nacional já estão refletidos nos preços dos ativos. Assim, as melhores oportunidades acabam fugindo do óbvio e exigem uma rede de contatos país adentro para serem identificadas. Esse fator tranquiliza, de certa maneira, os gestores locais. Segundo eles, os valores mais atraentes se encontram hoje no segmento de médias empresas, o “middle market”.

FATOR M&A — “Nas transações maiores, a precificação elevada é mais presente, mas ainda há razoabilidade nos valores”, ponderou Sidney Chameh, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). O aquecimento do mercado de fusões e aquisições, geralmente com prêmios altos, também termina por inflacionar os valores de algumas empresas. Operações com números vultosos, como a da Cosan com Shell e a da Petrobras com Açúcar Guarani, fixam-se na mente de empreendedores. “Fica mais difícil para os gestores. Não dizemos que somos melhores que a Petrobras, mas argumentamos que somos parceiros diferentes e podemos adicionar outro tipo de valor”, disse Chameh, que é sócio da gestora DGF Investimentos.

Alguns gestores já até veem “sintomas de bolha”. “E são os estrangeiros que estão provocando isso, pois carecem de oportunidades em seus mercados de origem”, afirmou um gestor da Flórida que não quer seu nome revelado para não parecer pessimista em relação ao Brasil. Embora a firma dele tenha como foco o México e o Brasil, ele ainda não conseguiu fazer nenhuma compra no maior mercado da América Latina por conta de preços elevados. Uma saída que ele vem procurando é prospectar negócios em áreas menos visadas, como o Nordeste.

A VERDADEIRA BOLHA — Se a hipótese de bolha de investimento ainda é refutada, naturalmente, pelos GPs locais — que seriam os primeiros a se darem mal se admitissem isso —, pode-se falar, ao menos, de um superaquecimento na indústria de gestão de fundos de private equity. Chama a atenção um número levantado pelo professor Cláudio Furtado, do Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da Fundação Getulio Vargas (GVcepe). De acordo com sua pesquisa, apresentada no evento da IFC e da Empea, 1.593 profissionais são empregados pela indústria de capital de risco no Brasil. Essa população pode parecer baixa em comparação aos 38.500 dos Estados Unidos, mas é maior que a de Alemanha (1.500), Japão (1.100), Índia (1.000) e China (800, excetuando-se o contingente instalado em Hong Kong).

“Hoje é ‘cool’ ter private equity no Brasil. Está na moda”, observou Chameh. Obviamente, nesse universo, a minoria apresenta os atributos necessários para a atração de investidores expressivos. Geralmente, eles fazem cara feia a estruturas montadas às pressas. Casas que não têm o private equity como core business, geralmente, partem em desvantagem. Por tudo isso, a disputa por profissionais gabaritados para formar equipes tem sido intensa. “Sempre tem alguém procurando talentos”, afirmou o presidente da ABVCAP. “Daqui a alguns anos, talvez comece uma briga a faca”, brincou Toscano, da Trivèlla, que está recrutando gente de universidades norte-americanas. Nessa batalha por recursos e profissionais, muitos sairão feridos. Que vençam, então, os melhores.

Eles querem mais


O que dita o movimento dos gestores de private equity no Brasil é, sem dúvida, a demanda dos investidores. E ela tem sido forte, a ponto de erguer, por exemplo, um fundo de US$ 1,65 bilhão, como o fechado em abril pela Advent International, o maior da história já levantado para a América Latina. O Industriens Pension, fundo de pensão de trabalhadores de indústrias da Dinamarca com patrimônio de US$ 15 bilhões, foi um dos que apostaram nessa empreitada. Somando-se os compromissos firmados em 2007 com outro fundo da Advent e com a PineBridge (ex-AIG), a instituição tem US$ 45 milhões de capital comprometido com private equity na região — até agora, foi investido cerca de um terço do total.

A estratégia do fundo é simples, focada no grupo Bric: Brasil, Rússia, Índia e China. Esses mercados representam de 15% a 20% do portfólio de ações listadas da Industriens Pension. A aposta em empresas no estágio anterior à abertura de capital foi, portanto, uma consequência, disse SØren Thinggaard Hansen, chefe de private equity da entidade. “Todos esses mercados têm como principais características a oferta de recursos naturais, uma classe média emergente e, com a exceção da Rússia, uma população jovem e crescente”, apontou o executivo, justificando suas escolhas.

Atualmente, Hansen acredita ter atingido um limite de exposição a China e a Índia, onde detecta maiores riscos de bolha. Essa situação está longe de se apresentar por aqui, de acordo com a sua análise. “Historicamente, o capital que vem sendo destinado à América Latina ainda não corresponde às necessidades de financiamento desses países.” Por isso ele está à procura de um terceiro gestor especializado em Brasil, que vai ajudá-lo a diversificar seus riscos, hoje concentrados na Advent e na PineBridge. O executivo está de olho em gestores com experiência em empresas de tamanho médio e negócios familiares. “Geralmente, essas companhias alcançam um estágio em que precisam diversificar suas atividades para não colocar em risco todo o patrimônio da família. Para isso, vão necessitar de recursos”, vislumbrou.

A Industriens Pension privilegia fundos que compram participações de controle. Mas o amadurecimento do mercado brasileiro e a disseminação das boas práticas de governança fazem com que o fundo de pensão também se abra para investimentos minoritários. A melhora do ambiente corporativo nos últimos anos, de fato, contribuiu para despertar o interesse de vários agentes internacionais. “A liberalização da economia, o desenvolvimento da governança e a responsabilidade na condução dos negócios merecem nossos elogios”, afirmou Eric-Vincent Guichard, CEO da Gravitas, consultoria sediada em Washington que tem pesquisado o private equity no Brasil para fundos de pensão. Dentre os setores mais atraentes, Guichard destacou os de agronegócio, indústria e serviços bancários e financeiros. (D.G.)


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