Chris Gibson-Smith – Londres para latinas

Em visita ao Brasil, chairman da Bolsa de Londres fala dos atrativos da City para a captação de recursos



A disputa entre Nova York e Londres pelo título de centro financeiro mundial vem sendo vencida pela City largamente nos últimos cinco anos. Só falta as companhias brasileiras se darem conta disso. Pelo menos é o que acredita Chris Gibson-Smith, presidente do conselho de administração da London Stock Exchange. Apenas três sul-americanas estão listadas na Bolsa Londres — os grupos argentinos Clarín e Mirgor e o Banco do Chile. Para Gibson-Smith, a América Latina, por motivos históricos, sempre foi o quintal dos Estados Unidos. Mas, ao atrair um pool maior de investidores internacionais e proporcionar custos menores, o mercado londrino desponta como uma opção mais interessante do que a Big Apple, garante. No fim de fevereiro, o executivo veio vender esta idéia em viagem ao Brasil e ao Peru. Veja trechos da entrevista concedida à CAPITAL ABERTO.

CAPITAL ABERTO: Qual foi o motivo da sua vinda ao país?
Chris Gibson-Smith: É um lugar muito interessante para negócios. Estamos aprendendo sobre o mercado brasileiro e o seu desenvolvimento. Focamos nas economias mais importantes do mundo. Inicialmente eram a China, a Índia, depois a Rússia e, agora, o Brasil. São 200 milhões de pessoas e uma economia crescendo a 5%. Quanto mais o Brasil cresce, mais capital necessita. E o centro internacional do mercado de capitais está em Londres.

Qual o seu plano para atrair as companhias brasileiras?
Bem, acreditamos que cada mercado seja único. Então você precisa de estratégias para cada mercado. O Brasil tem muitas coisas boas, e o que parece novo é que vocês estão desenvolvendo um mercado de capitais competitivo na Bovespa. Nesse caso, a pergunta é: até que ponto as companhias desejam dar passos fora do Brasil e competir globalmente? Nós vemos isso acontecendo cada vez mais nos próximos cinco anos. E, neste ponto, Londres se torna complementar para a Bovespa como uma fonte de capital.

Espera-se que sejam estréias de companhias maiores, no mercado principal, ou menores, no AIM, o mercado de acesso de Londres?
Podem ser ambas. Se você é pequeno e faz produtos para vender na Europa, faz muito sentido abrir o capital lá. Se você é grande e está bem no Brasil a ponto de competir no palco global, faz sentido usar o mercado principal (Main Market). Londres é desenhada para abrigar todas as formas de companhias. Mas estamos focando em companhias para o Main Market.

Inicialmente, o objetivo seria atrair companhias que já têm ações nos Estados Unidos?
Isso varia. Olhamos para companhias de setores nos quais Londres tem um nível de expertise muito elevado, a maioria da área de recursos naturais. Olhamos para mineração, metalurgia e companhias de petróleo. Essa expertise significa um grupo de analistas pensando profundamente sobre o assunto e dinheiro disponível para o setor porque ele é bem conhecido. Há uma competição global entre Londres e Nova York que, nos últimos cinco anos, Londres ganhou facilmente. Porque Londres é um centro internacional e Nova York é um centro doméstico, que é vasto, mas é focado na economia dos Estados Unidos. E Londres tende a ser muito mais amigável para o investidor, o que custa menos tempo e dinheiro e gera menos riscos.

Por quê?
O padrão regulatório e a legislação do Reino Unido são baseados em princípios. Nossa regulação exige um nível elevado de governança. Nossos acionistas são convidados a reforçar esse princípio e isso previne processos judiciais. Há muitas razões para vir a Londres. Os baixos custos são apenas uma das razões. Temos um pool de investidores internacionais muito maior, advogados, banqueiros e consultores investindo internacionalmente há 200 anos. Há 700 companhias estrangeiras listadas no nosso mercado.

Se Londres tem um pool de investidores internacionais bem maior, por que as poucas brasileiras que hoje buscam uma listagem externa escolhem os EUA?
A Bovespa se tornou um mercado forte e internacional, por isso é um caminho fácil e natural. Nunca nos vemos em competição. Muitas companhias russas, que eram próximas da Bolsa de Moscou, vieram a Londres. A mesma coisa na China. São mercados complementares. A América Latina foi por muito tempo quintal dos Estados Unidos. É a história. Mas o que você vê agora é o ressurgimento do Reino Unido. Nossa presença aqui é um novo fluxo.

Isso significa que, se o mercado brasileiro não estivesse tão bem, as companhias teriam mais interesse na listagem em Londres?
Há centenas de grandes companhias ao redor do mundo que escolheram se listar em Londres porque isso lhes dá acesso a investidores globais. Mas, se a Bovespa não tivesse tanto sucesso como nos últimos anos, não haveria recursos locais e, então, as empresas brasileiras teriam ido antes a Londres.

O senhor disse que não vê a Bovespa como adversária. Mas o senhor a vê como um alvo de fusão ou aquisição?
Nós assinamos um memorando de entendimentos para cooperação e desenvolvimento de projetos futuros. Se você olhar a maneira como as bolsas estão evoluindo, elas estão fazendo três coisas: competindo, fundindo e comprando umas às outras, além de cooperando. Não há uma resposta única. Nós acabamos de nos fundir com a Borsa Italiana porque ela complementava nossas habilidades. Mas não há chance, por exemplo, de nos unirmos à Bolsa de Tóquio. O que temos é um acordo de desenvolvendo de um mercado para pequenas e médias empresas no Japão. Em relação à Bovespa, não decidimos ainda. Estamos tentando entender o mercado brasileiro para saber do que ele precisa.

O senhor prevê uma forte consolidação das bolsas no mundo, a ponto de algum dia chegarmos a ter apenas dois ou três grandes players globais?
Não vejo isso, de modo algum. Seria muito ineficiente. Competição é a melhor maneira de estimular a eficiência. Quanto mais você se aproxima do monopólio, pior fica. Em segundo lugar, são jurisdições política e legalmente separadas. Elas têm seus próprios sistemas regulatórios. Por isso é muito difícil conseguir eficiências — uma dificuldade que a Nyse Euronext está sentindo agora. Não acreditamos nesse modelo.

Por que há mais companhias russas, indianas e chinesas listadas em Londres do que brasileiras?
Acho que elas têm um mercado de capitais ativo há mais tempo. São fases diferentes. Mas agora as companhias brasileiras estão chegando.


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