Castelo de cartas

Os bastidores da derrocada do Bear Stearns e o fim da era de ouro para os bancos de investimento

Gestão de Recursos / Temas / Prateleira / Edição 71 / 1 de julho de 2009
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Em geral, são necessários anos de resultados negativos para que problemas operacionais levem uma indústria à insolvência (vide o recente caso da GM). Crises de confiança em instituições financeiras, contudo, são fatais em poucos dias. Entre o primeiro ruído no mercado de que o Bear Stearns, o quinto maior banco de investimentos americano em 2007, estava mal das pernas e o anúncio de sua compra pelo JP Morgan Chase passaram-se apenas dez dias. Como diria o editor da The Economist, Walter Bagehot, em 1873: “Todo banqueiro sabe que se você precisa provar que merece um bom crédito, na verdade, o seu crédito já secou, mesmo que você tenha os melhores argumentos”.

No livro House of Cards, William D. Cohan, um ex-banqueiro de investimento, se propõe a contar, em detalhes, os bastidores da derrocada do Bear Stearns. Ele imita o estilo das novelas de intrigas para envolver os leitores e fazê-los sentir o ar pesado dos escritórios do Bear em seus momentos finais. A partir de depoimentos de centenas de pessoas e registros jornalísticos de várias fontes, a trama se desenvolve no melhor estilo de clássicos como os livros Barbarians at the gate e Liar’s poker. O primeiro trata sobre os bastidores da compra da RJR Nabisco pelo fundo de private equity KKR. O segundo, da cultura do finado banco Salomon Brothers conforme a visão de um trainee.

A primeira parte de House of cards trata dos dez derradeiros dias do banco. Eles começam quando um gestor de fundos da Flórida faz um comentário aparentemente inofensivo, no qual questiona a real solvência da instituição financeira ante a escalada da crise das hipotecas. À medida que as torneiras de liquidez se fecham, podem-se sentir a tensão e o desespero na sede do Bear Stearns, pegando seus executivos de surpresa.

Enquanto a primeira parte da obra trata do “como aconteceu”, a segunda e a terceira abordam o “porquê”. O autor descreve a formação de uma cultura corporativa baseada na esperteza e no lucro de curto prazo. Profundamente enraizada em sua origem, construída por operadores do mercado acionário, a empresa atraía jovens agressivos com talento para ganhar dinheiro. A “esperteza das ruas” valia mais do que os diplomas de MBA, tão prezados pelos concorrentes Goldman Sachs e Morgan Stanley. Nesse agressivo ambiente corporativo, fica clara a influência e o papel dos personagens principais da história: o presidente do conselho de administração, Ace Greenberg — um déspota obcecado com a contenção de custos e o controle do poder, que tinha prazer em usar sua prerrogativa para fixar bônus anuais —; e seu sucessor, Jimmy Cayne — um jogador de bridge profissional, cujas habilidades de gestão e liderança eram um tanto questionáveis.

A absorção do Bear Stearns pelo JP Morgan marca o começo do fim de uma era de ouro para os bancos de investimento. Alguns meses depois, o Lehman Brothers desapareceria e a Merril Lynch seria comprada pelo Bank of America. O governo norte-americano estendeu a ajuda do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês) aos bancos sobreviventes, e apenas há poucas semanas alguns deles começaram a quitar essas linhas de crédito. A ressaca pelos excessos dessa era de bônus milionários vem na forma de uma nova pressão regulatória, cuja intensidade é difícil prever. A julgar pela última vez que isso aconteceu, os defensores do liberalismo financeiro podem começar a se preocupar. Vale lembrar que, em resposta aos escândalos financeiros envolvendo a Enron e a Worldcom, foi criada, em 2002, a Lei Sarbanes-Oxley. Ela introduziu regras bastante rígidas de governança corporativa, com o objetivo de mitigar riscos e fraudes nas empresas.


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