Emissões de grandes companhias fazem volume de CRAs superar o de CRIs

Captação de recursos / Seletas / Edição 6 / Reportagem / 10 de novembro de 2015
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Ilustração: Grau 180.com.

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As dificuldades da economia brasileira têm feito germinar as emissões de certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs). Com a piora das condições do crédito bancário, diversas companhias de grande porte, como Raízen, BRF, Suzano, Fibria, Coopersucar e JSL, lançaram mão do instrumento para se financiar. Essas operações fizeram o volume de CRAs emitidos pela Instrução 400 e registrados na Cetip superar, no ano, o dos certificados de recebíveis imobiliários (CRIs). Foram R$ 3,7 bilhões em emissões do primeiro título, ante R$ 3 bilhões do segundo, até o último dia 28 de outubro. “Antes a relação entre CRIs e CRAs era como os 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil. Agora, os CRAs estão rapidamente recuperando terreno”, brinca Bruno Cerqueira, sócio do escritório PMKA Advogados.

Ainda de acordo com os registros da Cetip, o estoque de CRAs — ou seja, o volume que está na carteira de investidores, excluindo as aplicações já vencidas ou resgatadas — terminou setembro em R$ 4,7 bilhões, montante 327% superior ao computado no fim de igual mês de 2014. O estoque de CRIs ainda é muito maior (R$ 59 bilhões), é verdade, mas o crescimento na base anual foi bem mais modesto, de 15,7%. De acordo com Cerqueira, a expansão dos CRAs nem de longe acompanha a pujança do agronegócio no Brasil. O setor representa cerca de 30% do PIB e foi fundamental para “segurar” a riqueza nacional em anos recentes. Por isso, o potencial para uso desse instrumento é enorme, observa.

Ao não especificar quais tipos de companhias podem ou não emitir o título, a legislação que criou os CRAs (11.076/2004) colabora para o florescimento desse mercado. Mesmo empresas que, à primeira vista, nada têm a ver com plantações ou pastagens podem emitir o papel, desde que encontrem uma “ponte” que as ligue à cadeia do agronegócio. Assim, a empresa de logística JSL, que tem clientes no campo, conseguiu captar R$ 150 milhões por meio de uma oferta de CRA.

A diversidade de lastros possíveis é outra característica que impulsiona a procura pelo título. Tome-se o caso da Suzano Papel: a companhia conseguiu levantar R$ 675 milhões com a emissão de CRAs lastreados em notas de crédito à exportação (NCEs), operação compatível com o perfil exportador da produtora de papel e celulose. “O processo da emissão foi demorado e trabalhoso, mas extremamente enriquecedor. Para as discussões sobre a estrutura do CRA, as salas de reunião estavam sempre cheias de gente”, conta o gerente executivo de operações estruturadas da Suzano, Guilherme Hirata, lembrando a infinidade de interesses (da empresa e dos investidores) e de detalhes (jurídicos e financeiros) que estavam na mesa.

Companhia de capital aberto e dona de um excelente rating, a Suzano conseguiu alcançar o objetivo de não pagar mais que 101% do CDI na captação. “Novato nesse tipo de operação, fiquei muito tenso até o último momento. No dia do fechamento, os investidores só apareceram nos 15 minutos finais. Mas deu tudo certo”, recorda Hirata. Tensão também foi o “tempero” da emissão de R$ 675 milhões da Fibria, fabricante de celulose. A operação foi concluída no fim de setembro, período de extremo nervosismo do mercado financeiro nacional, abalado por mais uma rodada da crise política. Mesmo em um dos piores dias do ano, 30 de setembro, a demanda pelo CRA da Fibria atingiu R$ 853 milhões, valor superior ao da operação, de R$ 675 milhões. “Conseguimos emitir pagando uma taxa muito boa, de 99% do CDI”, conta David Alegre, gerente de tesouraria da Fibria.

Para o chefe de mercado de capitais da XP Investimentos, Tomaz de Gouvêa, o CRA surge como uma alternativa atraente de diversificação de portfólio no ambiente de crise. “É um ótimo instrumento para o investidor alongar os prazos de suas aplicações com base em ativos de qualidade”, afirma, ao observar que as emissões corporativas do último ano foram de empresas com excelentes notas de crédito.

O instrumento conta ainda com um apelo: isenção fiscal para o investidor pessoa física. Porém, para que os títulos se popularizem, alguns desafios ainda precisam ser superados. É preciso educar o pequeno investidor, que pouco conhece os títulos privados de modo geral, e desenvolver um mercado secundário para os papéis, enfatiza Gouvêa.



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