Uma questão de opinião

Ao contrário do que afirma a teoria convencional, a divergência de visões afeta o preço das ações

Captação de recursos/Artigo/Edição 126 / 1 de fevereiro de 2014
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Nos últimos anos, um novo arcabouço vem sendo criado para explicar relações entre dispersão de opinião, volatilidade e retorno das ações, até aqui ignoradas pelas finanças clássicas. A dificuldade de vender ações a descoberto faz que a heterogeneidade de visões tenha efeitos importantes sobre o mercado acionário, acentuando suas ineficiências.

A teoria convencional assume como fato a possibilidade de comprar e vender quantidades ilimitadas de ações, sem custo de transação nem limitações. Isso não é verdade na prática. A restrição na venda é bem mais relevante: certos investidores institucionais são proibidos de vender a descoberto, pessoas físicas têm receio dos riscos, e mesmo os que gostariam de fazê-lo e entendem bem o mercado podem desistir devido ao custo envolvido (taxas de aluguel).

Adicione-se a tais restrições a dispersão na avaliação das companhias. Os analistas costumam divergir quanto aos processos geradores de lucro de horizonte longo das empresas. Além disso, informações novas são apreendidas de forma diferenciada, pois o acesso a elas tende a ser heterogêneo. Some-se a isso a incapacidade de absorção do enorme fluxo de informação disponível, que os leva a selecionar um conjunto pequeno para considerar no processo decisório. Como indivíduos diferentes tendem a optar por conjuntos diferentes, as divergências de opinião tendem a se acentuar.

Quais são os efeitos desses dois fenômenos sobre os preços? Imagine inicialmente que todos os investidores interessados em uma empresa a avaliem em “x”, resultando num preço de mercado de “x”. Suponha agora que metade dos investidores seja otimista e metade seja pessimista. Considere os otimistas estejam dispostos a comprar ao preço “x+y” toda a quantidade de ações disponível no mercado. Os pessimistas, com avaliação inferior a “x+y”, gostariam de vender a descoberto ações desta empresa, caso fosse possível fazê-lo; como não é, entretanto, terminam por ficar fora do mercado. Um aumento da dispersão de avaliação leva, assim, a um aumento do preço da ação — que passa a refletir a opinião de investidores mais otimistas — e a uma redução do seu retorno.

A heterogeneidade de opiniões ganhou destaque entre as explicações da bolha da internet no mercado americano. Sua importância, contudo, não se restringe a episódios como esse. Ela é um componente relevante na análise da dinâmica regular de mercado. Considere o seguinte fato: cada US$ 1 investido na carteira de sensibilidade mais baixa ao índice de mercado (beta baixo) — entre cinco portfólios avaliados — na bolsa americana em janeiro de 1968 gerou US$ 96 no final de 2010, enquanto o investimento do mesmo dólar na carteira de beta mais alto resultou em US$ 26 no período. Essa evidência está em gritante desacordo com o Capital Asset Pricing Model (CAPM, modelo mais difundido de precificação de ativos em finanças), segundo o qual ações de beta mais alto devem ter retornos maiores para compensar o risco.

O fenômeno pode ser explicado com base na divergência de opinião: quando o desacordo entre os investidores se dá sobre o cenário macro, a dispersão das projeções de lucro é maior para ações com beta mais alto, pois são as mais sensíveis a variações desse cenário. A maior dispersão tende a apreciá-las, reduzindo o seu retorno em relação ao previsto no CAPM.


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Tags:  CAPITAL ABERTO mercado de capitais volatilidade retorno dispersão de opinião finanças clássicas beta CAPM Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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