Serenidade na retomada

Como evitar que os erros do boom de IPOs de 2007 se repitam novamente

Captação de recursos / Colunistas / 12 de novembro de 2017
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Ana Siqueira*

Ana Siqueira*

Importante e tradicional fonte de financiamento para as empresas e de movimento para a economia, o mercado de capitais brasileiro vivencia em 2017 uma muito bem-vinda retomada. De janeiro a setembro as ofertas de ações somaram 26,9 bilhões de reais; os IPOs atingiram 14,2 bilhões de reais1, uma impressionante recuperação depois da baixíssima atividade registrada no período de três anos encerrado em 2016. Até o momento, o volume de IPOs neste ano é o quarto maior já verificado no País — atrás apenas de 2006, 2007 e 20131.

Esse é o cenário dez anos depois do auge de 2007, quando as ofertas totalizaram 60,5 bilhões de reais. Existem numerosas lições que podem ser extraídas dessa década — houve muitos casos de sucesso e de insucesso que merecem ser revisitados. Hoje sabe-se que diversas empresas abriram o capital sem estar preparadas: faltou robustez em planos de negócios, muitas estavam em estágio incipiente, tinham problemas de governança corporativa e/ou uma motivação errada para abertura de capital.

É possível que essas deficiências tenham sido decorrentes, entre outros fatores, de uma atuação aquém do desejado de um ou mais integrantes da cadeia de atividades do mercado de capitais. Aparentemente, faltou a adoção adequada de recomendações como as elencadas no já tradicional (data da década de 1960) Código de Ética e Padrões de Conduta Profissional do CFA Institute, um excelente guia para atuação nesse segmento. Algumas delas são agir com integridade, competência, diligência, respeito e de maneira ética; manter e aprimorar a competência profissional; entender e estar em conformidade com todas as leis, regras e regulamentos vigentes; usar cautela e discernimento razoáveis para atingir e manter a independência e a objetividade de suas respectivas atividades profissionais; e ter dever de lealdade para com os clientes (colocar os interesses deles acima dos próprios ou daqueles do empregador).

Empresas pré-operacionais aproveitaram o boom dos IPOs para abrir o capital em vez de se financiar pelo caminho mais habitual dos fundos de private equity. Com o mercado aquecido, elas conseguiram levar adiante as operações apesar de terem pulado etapas de amadurecimento muito relevantes para o processo de abertura de capital — os efeitos negativos desse tipo de expediente ficam claros no caso das empresas X.

Expoente do grupo, a OGX abriu o capital em 2008, com a captação de 6,7 bilhões de reais. Olhando em retrospecto: a OGX era uma startup atuante na área de exploração e produção de petróleo e gás natural (E&P) e que tinha importantes contratos comerciais com outras startups do mesmo acionista controlador. Vale observar que a atividade de E&P é de elevado risco, intensiva em capital e com maturação de resultados em longo prazo.

Embora a OGX tivesse riscos relevantes de diversas naturezas — e que se somavam —, foi muito bem-sucedida no IPO. Soube aproveitar cenário extremamente positivo, de rara combinação de eventos: o Brasil tinha acabado de se tornar investment grade, o barril de petróleo estava acima de 130 dólares e a Petrobras descobrira o pré-sal havia pouco tempo. Isso sem falar no discurso otimista do prospecto, que ressaltava o sucesso da equipe da OGX (oriunda da Petrobras) na exploração de áreas de petróleo sem mencionar o detalhe de que uma atividade exploratória bem-sucedida depende fundamentalmente do potencial geológico das áreas em que cada empresa opera.

Em ambientes de festa, quando o volume da música aumenta e a iluminação é reduzida os convidados são obrigados a fazer grande esforço para ouvir e enxergar — mas muitas vezes não conseguem superar as limitações impostas pelo ambiente festivo. De forma análoga, em cenários de euforia de mercado o cuidado e a diligência precisam ser redobrados.

É para evitar essa falta de contato com a realidade que uma boa dose de serenidade pode fazer a diferença neste momento de retomada dos IPOs — essenciais para a própria recuperação da economia brasileira. O recurso a orientações como as do código do CFA Institute, nesse contexto, tende a ser bastante relevante.


*Ana Siqueira, CFA (ana.siqueira@mapleconsultoria.com.br) é sócia da Maple Consultoria


1 Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima)


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