Progressão geométrica

A despeito do ano ruim, setor de educação se destacou com dois IPOs e intenso movimento de consolidação, que atraiu
a atenção do Cade. A pergunta, agora, é: os papéis estão caros demais?

Captação de recursos/Reportagens/Edição 127 / 1 de março de 2014
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O ano de 2013 reservou notícias decepcionantes para o mercado de capitais. O grande assunto foram as quedas: dos recursos investidos, do preço das ações e do número de ofertas públicas iniciais (IPOs). Apesar do mau momento, o setor de educação não esmoreceu e, ao contrário, reforçou presença na BM&FBovespa. Em outubro, a Ser Educacional, líder no Nordeste, e a Anima Educação, com presença em São Paulo e Minas Gerais, se juntaram a outras quatro companhias do segmento listadas em bolsa: Anhanguera, Kroton, Estácio e Abril Educação (as três primeiras abriram o capital em 2007 e a última, em 2011). O grupo, cujo valor de mercado somava mais de R$ 26 bilhões em 31 de janeiro, poderá ganhar uma adesão. Segundo um advogado que acompanha o movimento de IPOs, o grupo Cruzeiro do Sul, com seus mais de 60 mil alunos de ensino superior no estado de São Paulo e em Brasília, está à espera de uma oportunidade para abrir o capital nos próximos meses.

O dinheiro captado nas ofertas iniciais tem gerado caixa para as empresas crescerem por meio de fusões e aquisições, no fragmentado mercado de educação brasileiro. Das cerca de 2 mil instituições de ensino no País, as cinco maiores têm menos de 30% do total de matrículas. Em fevereiro de 2013, a Abril Educação desembolsou R$ 877 milhões para adquirir a rede de idiomas Wise Up, de olho na diversificação de seu portfólio e no potencial de crescimento do setor: estima-se que apenas 5% dos brasileiros falem inglês. A Estácio, por sua vez, pagou cerca de R$ 600 milhões pela Uniseb, que possui mais de 35 mil alunos em três campi no interior paulista. A maior operação, contudo, foi anunciada em abril, quando Anhanguera e Kroton decidiram se unir.

A fusão criará uma das maiores empresas mundiais em valor de mercado na área de educação. Com 1 milhão de alunos distribuídos em 123 campi, 647 polos de ensino à distância e 810 escolas de educação básica, a Kroton e a Anhanguera esperam obter ganhos de escala e, com isso, reduzir custos. Na estimativa das duas, a sinergia gerada pela fusão pode resultar em economia de R$ 300 milhões, a ser sentida totalmente em 36 meses após a aprovação do negócio. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) prorrogou, em dezembro, a análise da transação por 90 dias. O prazo máximo de encerramento do processo é 13 de junho de 2014.

Em relatórios preliminares, membros do tribunal do Cade avaliaram que a união entre Kroton e Anhanguera geraria alta concentração em três municípios no segmento de ensino presencial — Jundiaí (São Paulo), Cuiabá e Rondonópolis (Mato Grosso) — e em 55 municípios na educação à distância. “O resultado do julgamento será importante para mostrar que a consolidação nesse segmento é viável. Até a decisão sair, o setor poderá andar de lado”, diz Bruno Gonçalves, analista-chefe da WinTrade. Outra operação que está sob o escrutínio do Cade é a fusão entre Estácio e UniSeb. O órgão antitruste detectou concentração em cursos de ensino à distância em nove municípios: Belo Horizonte, Vila Velha, Duque de Caxias, Salvador, Vitória, Ourinhos, Recife, Aracaju e Natal. A XP Investimentos pondera que os locais atendem apenas 6% dos 34 mil matriculados da Uniseb. Isso restringiria o impacto de eventual decisão negativa.

Apesar do rigor do Cade, o movimento de consolidação continua intenso. No início de fevereiro, vieram à tona rumores de que a Abril Educação e a Estácio estariam flertando com a Laureate, dona da Anhembi Morumbi. Embora ambas tenham desmentido a notícia, os investidores não se convenceram por completo. “A fragmentação do setor é grande, e muitas dessas empresas têm fundos de private equity como acionistas”, observa um gestor. “Eles podem estar planejando desinvestir, já que boa parte dos papéis de educação vêm subindo.” É o caso da Estácio (subiu mais de 50% em 12 meses) e da Kroton (superou 100% em 24 meses).

Fazendo as contas
Tamanha valorização tem deixado alguns gestores ressabiados. Hoje, as ações do setor educacional estão sendo negociadas com um P/L (preço/lucro do papel) de 15 vezes, acima dos 9,5 da bolsa brasileira. No início do ano, a gestora Quantitas optou por vender papéis da Anhanguera e manter apenas os da Estácio. Em sua opinião, a ação da primeira está precificada com base em um cenário otimista demais, que desconsidera as dificuldades que o grupo pode ter ao integrar as operações com a Kroton.

O papel da Abril Educação também tem sido preterido (veja infográfico). Um dos motivos da baixa de 16% no ano passado seria a oferta subsequente concluída pela companhia no fim do primeiro semestre, quando arrecadou R$ 521 milhões. Nela, um dos vendedores foi o fundo BR Educacional, idealizado pelo economista Paulo Guedes. O desinvestimento, ainda que parcial, acendeu o alerta de que a ação da Abril Educação já poderia ter atingido seu teto.

De modo geral, no entanto, os prognósticos para o setor educacional são promissores no médio e no longo prazos. Na visão dos analistas Luciano Campos e Caio Moscardini, do HSBC, a onda de consolidação poderá ser sucedida por uma de estratificação: os grupos educacionais passariam a focar menos a conquista de novos alunos e mais a cobrança de preços. Nesse contexto, sairão na frente as universidades que construírem uma marca respeitável entre alunos, professores e sociedade, com cursos bem qualificados. Entre as companhias abertas do setor, a Anima Educação é a que cobra hoje a matrícula mais alta — 22% a 74% superior à de rivais como Kroton e Anhanguera. “A empresa gera até 24% mais [Ebitda] por aluno matriculado que seus pares”, afirmam os analistas.

Para Mário Bernardes Junior, analista do Banco do Brasil, o aumento da renda, o desemprego em baixa e os incentivos do governo federal devem manter o elevado ingresso de jovens no sistema de educação. Com o estímulo do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e do Programa Universidade para Todos (Prouni), o número de estudantes entre 18 e 24 anos que frequentam o ensino superior pulou de 27% para 51% entre 2001 a 2011. Desde 2010, quando houve mudanças nas regras de contratação e redução dos juros do Fies — de 6,5% para 3,4% ao ano —, foram firmados mais de 1,16 milhão de contratos. Outra perspectiva favorável vem da exploração de petróleo na camada pré-sal. Com a destinação de parte dos royalties para a educação, espera-se o acréscimo de mais de R$ 20 bilhões anuais ao financiamento do setor quando a exploração ganhar fôlego — até 2021, nas projeções do governo. A escassez de mão de obra qualificada, hoje um dos maiores gargalos do setor produtivo no Brasil, é mais um estímulo ao setor. A situação pode ser observada em engenharia. O Brasil possui 6 engenheiros para cada mil habitantes, enquanto os Estados Unidos têm 25 e a Coreia do Sul, 80. Para piorar, há o problema da evasão, que nessa área passa dos 50%, a maioria das vezes nos dois primeiros anos de faculdade.

Diante desse quadro, muitas instituições começam a abrir cursos dentro do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), em que o governo concede subsídios para as empresas qualificarem sua mão de obra. A Kroton, por exemplo, tem uma unidade focada no ensino técnico. O programa conta com 5,7 milhões de matrícula — 4 milhões nos cursos de qualificação profissional e 1,7 milhão nos cursos técnicos. Num país carente em educação como o Brasil, é ótima notícia que as companhias do segmento estejam indo bem e tenham tantos nichos a explorar. Acionistas e cidadãos agradecem.

 

Ilustração: Beto Nejme/Grau180.com


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