Os pós-banqueiros

As aventuras e desventuras dos analistas de banco de investimentos após o crash de 2008

Captação de recursos / Prateleira / Edição 131 / 1 de julho de 2014
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Já se disse que, enquanto O lobo de Wall Street oferece uma visão dos adultos gananciosos da alta roda de finanças, Young money, de Kevin Roose, mostra o comportamento dos lobinhos em início de carreira. Com a promessa de manter a identidade dos protagonistas em anonimato, Roose segue o triênio inicial da carreira de oito analistas na faixa dos 20 e poucos anos, recém-recrutados para os principais bancos de investimento do mundo logo após a crise financeira de 2008.

Estava na hora de alguém atualizar o aclamado Liar’s poker, escrito por Michael Lewis em 1989. Embora aquele livro tenha exercido enorme magnetismo sobre toda uma geração de aspirantes a banqueiro, o perfil desta improvável sequência tende a produzir o efeito contrário: serve de alerta sobre o que esperar do estilo de vida da profissão. O autor deixa escapar boa dose de simpatia pelos analistas que acompanha, em antagonismo bastante visível aos comentários sobre os chefes deles e suas instituições.

Apesar de construir a narrativa de forma não linear, Roose claramente segue seus objetos de pesquisa em duas dimensões: a profissional e a particular/emocional. Na profissional, muda o personagem, porém a narrativa é basicamente a mesma: semanas de trabalho de 100 horas em planilhas eletrônicas e apresentações para clientes, almoço e jantar na mesa de trabalho, nenhum controle sobre a vida pessoal. Uma piada ilustra a dinâmica do dia a dia: “Ontem trabalhei das 9 às 5, bem ao estilo banco de investimento”, afirma um analista. Seu amigo retruca: “Como assim? Achei que fossem mais horas”. “Foi o que disse: das 9 da manhã às 5 da manhã!”

O círculo de amizades se restringe aos colegas analistas, que compartilham o compromisso de três anos por uma fugaz possibilidade de ser aceito no clube mais exclusivo de Wall Street. Obviamente, a falta de sono e de exercícios, junto com a enorme pressão, levam boa parte desses jovens ao estresse, às drogas, e, muitas vezes, ao pedido de demissão. O darwinismo implacável da indústria, contudo, enxerga isso como normal. Segundo o diretor de uma proeminente instituição, “esse processo nos livra dos chorões e engrossa a casca dos que sobrevivem”.

A verdade é que os primeiros anos em Wall Street se parecem bastante com a iniciação para entrar numa seita. Todos já passaram por isso e agora é a sua vez de suar e ralar. Mas por que as melhores e mais brilhantes mentes de uma sociedade se submetem a esse tratamento abusivo? O autor visita algumas universidades para entender a cabeça da nova turma de aspirantes a banqueiro; ele percebe que os motivos são uma mistura de desconhecimento do que se quer, prestígio e, obviamente, a remuneração.

Ainda que os motivos sejam os mesmos há décadas, Roose sente que algo mudou desde a crise irrompida seis anos atrás. A recriminação da irresponsabilidade dos bancos pela sociedade e a total impunidade dos banqueiros arranharam a imagem do setor de forma importante. Ao mesmo tempo, a competição por talento ressurgiu a partir do segmento de tecnologia, e o vácuo moral da crise abriu espaço para uma crescente busca de sentido de propósito por parte dos jovens.

O autor cita como evidência o fato de que, após três anos, grande parte do grupo de analistas observado deixou Wall Street para trás, voluntariamente ou não. Embora seja difícil afirmar que existe uma mudança palpável nas aspirações da elite universitária americana, é positivo ter as melhores cabeças voltadas para a inovação, com senso de propósito e engajamento social.

Young money: Inside the hidden world of Wall Street’s post-crash recruits, Kevin Roose – Editora: Grand Central Publishing, 320 páginas, 1ª edição, 2014


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