Os melhores IPOs

Educação, saúde e consumo. Esses foram os setores cujas ofertas deram mais retorno e liquidez para o acionista

Captação de recursos/Reportagem especial/Edição 129 / 1 de maio de 2014
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As efemérides são uma boa oportunidade de fazer balanços. E balanços, invariavelmente, sugerem listas. Nesta década de 151 IPOs, quais foram os melhores? Que companhias mais prosperaram em suas ofertas iniciais, oferecendo aos investidores e empreendedores bons padrões de retorno e liquidez?

A primeira dificuldade para chegar a esses nomes foi definir os critérios. Com o apoio do professor Antonio Zoratto Sanvicente, do Insper, chegamos a três variáveis que, combinadas, resumem os desdobramentos de uma oferta: o retorno da ação (excedente ao certificado de depósito interbancário) desde o IPO até 4 de abril; o volume de negociações dos papéis em pregão; e a cobertura de analistas — esta, como indicadora do interesse do mercado. As companhias cujas pontuações ficaram abaixo da mediana dos 151 IPOs analisados em qualquer um dos três itens foram excluídas. Com isso, sobraram 22 companhias, que foram então ordenadas conforme a soma das pontuações obtidas em cada quesito (veja tabela abaixo).

A rede de ensino superior Estácio aparece em primeiro lugar. Seu retorno alcançou 31,65% desde a abertura de capital, em julho de 2007, e a liquidez das ações é a maior de todas as analisadas. Não à toa, 14 analistas cobrem seus papéis. O potencial da Estácio, contudo, demorou a ser reconhecido pelo mercado.

Na época do IPO, a empresa de educação pretendia vender suas units (papéis que empacotam ações ordinárias e preferenciais) entre R$ 32,50 e R$ 42,50, mas conseguiu apenas R$ 22,50. Tampouco nos meses seguintes ela cativou o investidor. As ações foram se desvalorizando no pregão até serem negociadas a cerca de R$ 9,60, em março de 2008. As coisas só começaram a melhorar quando a Estácio firmou, em maio daquele ano, uma parceria com a gestora de private equity GP. A empresa de participações comprou 20% da companhia e prometeu interferir na gestão, com o objetivo de turbinar os negócios. Dois meses depois, a Estácio anunciou a renúncia a sua estrutura de units e a migração do Nível 2 para o Novo Mercado, segmento que permite apenas ações com direito a voto. Desde então, até 20 de abril, o valor da ação subiu quase 220%. Em 2013, a GP se desfez de sua participação, vendendo a R$ 17,61 as ações ordinárias que havia comprado por R$ 5,50.

Uma parte desse resultado pode ser creditada ao setor de atuação da Estácio. A maioria dos grupos educacionais ficou bem posicionada no ranking dos melhores IPOs: a Kroton e a Anhanguera estão, respectivamente, na quarta e na sexta colocação. Os motivos são simples: elas atendem uma demanda reprimida por muito tempo e contam com incentivos do governo federal. O auxílio fornecido pelo Financiamento Estudantil (Fies) e pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) permitiu que o número de estudantes universitários entre 18 e 24 anos pulasse de 27% para 51% entre 2001 e 2011. O aumento se refletiu em mais geração de caixa para as empresas de ensino superior e, consequentemente, em mais interesse do investidor pelas ações delas. Isso explica a intensa cobertura do segmento por analistas. De acordo com dados da Bloomberg, 14 profissionais analisam a Estácio, 15 observam a Anhanguera e 17 acompanham a Kroton.

Benesses setoriais
O incremento da renda e a expansão do crédito observados na última década beneficiaram a área educacional, mas não somente ela. Também se deram bem outros segmentos ligados ao aquecimento do mercado interno. Por isso, destacaram-se no ranking Localiza, Minerva, Arezzo, Natura, Magazine Luiza, Raia Drogasil, Odontoprev e Qualicorp. O setor de construção civil, entretanto, amplamente favorecido pela expansão do crédito, não teve presença forte na seleção. Das 20 construtoras e incorporadoras que abriram o capital de 2004 para cá, apenas a Even surge entre as melhores ofertas, na 12a colocação. Algumas tropeçaram nas próprias pernas; tentaram crescer rápido demais e tiveram sérios problemas de fluxo de caixa. Foi o que aconteceu com Gafisa e PDG Realty.

Não basta ser bom
Por mais que estar no setor certo e na hora certa ajude, outros fatores são determinantes para uma companhia se destacar no pregão no longo prazo. José Olympio Pereira, do Credit Suisse, resume o sucesso em bolsa a dois fatores principais. “A empresa tem que ter substância e se comunicar bem com o mercado”, argumenta. Uma coisa não funciona sem a outra.

Talvez por isso, nenhuma empresa pré-operacional apareça no ranking. Embora algumas tenham mantido intenso contato com o mercado (no caso da OGX, não faltaram avisos, fatos relevantes e postagens de Eike Batista no Twitter), a maioria não cumpriu o que alardeou aos quatro ventos. Aos investidores, o empresário dizia que o futuro de sua petroleira OGX seria grandioso. Só que o petróleo não jorrou: em julho de 2013, a companhia anunciou a inviabilidade de quatro campos que explorava, acelerando a derrocada dos papéis.

Para alguns aplicadores, porém, a OGX não foi um grande mico. Em outubro de 2010, a ação da petroleira era cotada a R$ 23,27, 105% a mais do que na estreia. Só depois disso é que elas rolaram ladeira abaixo — hoje valem pouco mais de R$ 0,20. “Quem vendeu o papel na hora certa ganhou muito dinheiro”, observa Pereira. O Credit Suisse, banco comandado por ele, foi um dos coordenadores da oferta. Sérgio Spinelli, sócio do Mattos Filho, também não mostra arrependimentos em ter assessorado o IPO. “Sem dúvida, eu faria essa oferta de novo; os riscos estavam muito claros no prospecto.”

Outro setor que não aparece no ranking é o bancário, que irrigou com crédito as empresas de consumo. Desde 2004, foram 13 IPOs de bancos — com exceção de Santander e BTG Pactual, todos de instituições de médio porte. Segundo Fernando Bevilacqua e Fanchin, analista da Rio Bravo, o principal motivo dessa ausência é a perda de rentabilidade do segmento, explicada pela queda dos spreads que sucedeu a pressão governamental por juros menores e por maior competição. Embora os lucros nominais venham se elevando, o retorno em relação ao patrimônio caiu, o que atinge os bancos médios com mais força do que os grandes. Além disso, o setor sofreu um baque com a descoberta de fraudes como a do Cruzeiro do Sul e a do Panamericano.

Ilustração: Beto Nejme/Grau180.com


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