O tempo melhora os clássicos

A fina arte do jornalismo de negócios em doze capítulos escritos na década de 1960

Captação de recursos/Prateleira/Edição 134 / 1 de outubro de 2014
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Business adventuresNão é todo dia que encontramos um livro elogiado por Bill Gates e Warren Buffett. Ao ler o comentário de Gates em seu blog sobre a reimpressão de Business adventures, fiquei bastante curioso, ávido por consumir esse clássico do início dos anos 1970. A obra do jornalista John Brooks é uma coletânea de artigos escritos na década anterior, sobre fatos bastante diversos da vida corporativa e financeira dos Estados Unidos. Eles analisam desde o espantoso fracasso do automóvel Edsel, da Ford, até a vertiginosa ascensão da Xerox Corporation.

A prosa é ágil e elegante. O leitor mal se dá conta das mais de 450 páginas, ainda que a nova era dos livros eletrônicos mitigue o peso psicológico de se enfrentar uma “bíblia”. Embora a obra já passe dos 40 anos, os assuntos abordados são extremamente atuais, reforçando a noção de que a história se repete. Há relatos sobre insider trading, formação de cartéis e ataques especulativos contra a libra esterlina — assuntos frequentemente estampados na primeira página dos jornais contemporâneos.

Em particular, dois capítulos me atraíram mais, apesar do desfecho diametralmente oposto: o sucesso da Xerox e o fracasso do Edsel. Enquanto o primeiro conta a saga do desenvolvimento das copiadoras e o aparente caos inerente às inovações disruptivas, o segundo narra o processo planejado e organizado para torrar mais de US$ 350 milhões no lançamento de um carro que sofreu rejeição absoluta do consumidor americano.

A despeito da paleta multicolorida dos tópicos apresentados pelos 12 capítulos, é possível identificar um traço comum às histórias. Todas elas tratam de situações empresariais em que a liderança organizacional é determinante para seu desfecho. O êxito e o fiasco têm como origem o papel desempenhado pelos responsáveis pela tomada de decisões em cada companhia. No caso do Edsel, fica clara a desconexão entre o discurso da direção da Ford e a prática na linha de frente junto aos consumidores. Ao descrever a saga que foi a defesa da libra esterlina ante sua desvalorização, o autor reconta o enorme esforço dos banqueiros centrais sob o comando dos Estados Unidos para atuar de forma coordenada no controle da crise financeira. Ela ameaçava as principais economias do mundo na época.

Nas palavras de Bill Gates, um cético poderia muito bem se perguntar o que uma coleção de artigos da década de 1960 tem a ensinar sobre o mundo dos negócios hoje em dia. Naquele momento, uma copiadora Xerox custava o preço de uma casa e vinha com um extintor de incêndio, devido a seu péssimo hábito de superaquecer. Certamente, muita coisa mudou desde então. Os fundamentos econômicos e de negócios, no entanto, permanecem os mesmos, assegurando a longevidade e a relevância da obra de Brooks. Assim como os bons vinhos, os verdadeiros clássicos parecem melhorar com o tempo.

Business adventures: twelve classic tales from the world of Wall Street, John Brooks – Editora: Open Road Media – 476 páginas – 1ª edição, 2014 (reimpressão)




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