Nem tão pacato

Estagnação dos IPOs esconde aumento do volume captado com outros títulos e preparo nos bastidores para ofertar ações assim que a janela abrir

Captação de recursos / Reportagem / Edição 132 / 1 de agosto de 2014
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Os primeiros seis meses de 2014 deixaram a sensação de que o mercado de capitais parou. Foi a primeira vez em dez anos que tivemos um primeiro semestre sem nenhuma empresa brasileira estreando em bolsa. Nem em 2009, ápice da crise financeira mundial, essa situação ocorreu. Em meio às perspectivas sombrias para a economia, a Visanet abriu o capital em junho daquele ano, levantando notáveis R$ 8,4 bilhões. No boca a boca do mercado, aspectos como o ano apertado (reflexo do Carnaval tardio, da Copa do Mundo e das eleições), a ausência de clareza na política econômica, a fuga de investidores individuais e o ritmo fraco da economia são apontados como responsáveis pela apatia que afeta os negócios. Mas até que ponto essa indolência é mesmo real? Um olhar atento ao mercado de capitais revela que estamos longe da tempestade perfeita. “Se formos além das ofertas de ações, o ano não está ruim”, avalia Eliana Chimenti, sócia do escritório de advocacia Machado Meyer. Emissões de debêntures e bônus, além de operações de reestruturação societária e de dívidas, mantêm os profissionais do mercado ocupados.

O mês de junho, por exemplo, assistiu a captações expressivas. A Rio Petróleo SPE obteve R$ 2,4 bilhões com um lançamento de debêntures, enquanto a Cemig conseguiu R$ 1,4 bilhão em notas promissórias. A Petrobras, que não colocava debêntures no mercado local desde 2002, fez uma emissão de R$ 800 milhões. SulAmérica e Sabesp ofertaram, cada uma, R$ 500 milhões em títulos de dívida. No mercado externo, o volume também foi expressivo. Houve sete operações ao todo; a maior delas foi a do Banco do Brasil, que vendeu bonds perpétuos no montante de US$ 2,5 bilhões.

Essa movimentação colaborou para que o primeiro semestre registrasse o maior volume de captações dos últimos sete anos em renda fixa — notas promissórias, debêntures e CRIs, entre outros títulos, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Ao todo, foram angariados, nos mercados doméstico e internacional, R$ 138,6 bilhões, 17,9% mais do que no mesmo período de 2013. As captações externas foram as principais responsáveis dessa performance: cresceram 42,7%, para R$ 72,5 bilhões. As ofertas locais com instrumentos de renda fixa tiveram avanço mais modesto: 4,1% (veja tabela abaixo).

Na renda variável, é curioso observar que, a despeito da aridez de IPOs, o número total em 2014 não fica longe do registrado nos últimos anos (média de R$ 14 bilhões desde 2008). A explicação está na oferta subsequente (follow-on) de ações da Oi, realizada no fim de abril, por quase R$ 15 bilhões. Foi a terceira maior distribuição de ações desde 2007, atrás apenas dos R$ 120 bilhões obtidos pela Petrobras em 2010 e dos R$ 19,4 bilhões da Vale em 2008.

Esperando uma janela
Embora o volume de captações tenha aumentado no geral, os bancos de investimento sentiram no bolso o impacto do número reduzido de ofertas públicas de ações, cujos altos volumes e custos representam uma fonte importante de receita. Segundo dados da Thomson Reuters, as comissões desses estabelecimentos no Brasil totalizaram R$ 44,5 milhões no primeiro semestre deste ano, resultado 65% inferior aos R$ 128,3 milhões registrados nos seis meses iniciais de 2013. A maior parte desse valor (83,44%) foi para o caixa do BTG Pactual. Na segunda posição, com 7,91%, está o Banco do Brasil, seguido de Itaú BBA (6,74%), Bradesco (1,21%) e XP Investimentos (0,70%).

O que ninguém sabe é quando as remunerações fartas vão voltar. Até o dia 25 de julho, havia na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apenas dois pedidos de ofertas públicas de ações em análise: um da JBS Foods (IPO) e outro da Sanepar (follow-on). Segundo fontes ouvidas pela reportagem, no entanto, trabalhos para estruturar ofertas se desenvolvem em ritmo acelerado nos bastidores. “Os [grandes] escritórios têm hoje, pelo menos, oito operações de IPO ou follow-on em andamento”, diz Daniel de Miranda Facó, sócio do Souza, Cescon. Em sua análise, a ideia de que o mercado está devagar é equivocada, pois usa como comparação um período atípico para o País: os anos de 2004 a 2008, que, por conta de fatores conjunturais como os juros baixos, levaram um grande número de investidores para a bolsa. A taxa Selic caiu de 19,75%, em 2005, para 11,25%, em 2007, o que estimulou a busca por maior rentabilidade fora do mercado de renda fixa. “Algo como seis a oito ofertas públicas por ano é normal para o Brasil. O volume de empresas que pode acessar o mercado é menor atualmente.” A espera, afirma, continua sendo pela janela de oportunidade.

Alguns fatores que podem favorecer a abertura dessa fresta já começam a se desenhar. No intervalo demarcado entre setembro de 2013 e 23 de julho último, o Ibovespa acumula alta de 15,93%. O fator eleições, em breve, deixará de ser um obstáculo. A certeza sobre quem comandará o País pelos próximos quatro anos deverá clarear o campo de visão do investidor e diminuir a volatilidade.

Candidatas de peso encabeçam a fila de espera para a abertura de capital. “A JBS Foods seria um bom caso para reabrir o mercado”, opina Bernardo Rothe, gerente-executivo de mercado de capitais do Banco do Brasil. A unidade de aves, suínos e industrializados da JBS foi criada após a compra da Seara, antes pertencente à Marfrig, em junho de 2013. Em seu portfólio, exibe marcas como Seara, Fiesta, Doriana, LeBon, Frangosul e Rezende. A captação, que pode atingir R$ 3 bilhões, é aguardada ansiosamente. Na opinião de Rothe, ofertas podem acontecer ainda este ano, entre setembro e outubro ou até mesmo em dezembro. Depois disso, outra abertura deverá surgir apenas em fevereiro de 2015.

Com o cenário macroeconômico melhorando, ofertas públicas canceladas também podem ressurgir. No fim do ano passado, devido às condições pouco favoráveis do mercado, a Votorantim Cimentos desistiu de seu IPO, que poderia superar a marca dos R$ 10 bilhões. A mesma decisão foi tomada pela Azul, cujo plano era levantar cerca de R$ 1 bilhão. Fernando Iunes, chefe global de banco de investimento do Itaú BBA, acredita que as ofertas públicas podem voltar à cena ainda em 2014. Um impulso para o reaquecimento do mercado, observa, foi dado pelo governo com a Medida Provisória 651. Entre outros incentivos, a iniciativa isenta as pessoas físicas de pagar imposto de renda sobre o ganho de capital auferido com ações de pequenas e médias empresas. “Foi um passo importante para criar um mercado de acesso”, considera Iunes.

Pelas beiradas
Enquanto a retomada não se concretiza, o Itaú BBA põe em prática seu plano B: coordenar emissões fora do Brasil. Recentemente, a instituição liderou o IPO da incorporadora mexicana Pinfra, que angariou US$ 570 milhões. Também estruturou a parte internacional da oferta subsequente de ações da rede de restaurantes mexicana Alsea, responsável pelas marcas Starbucks, Domino’s Pizza e Burger King no México, na Argentina, no Chile e na Colômbia.

Outra maneira de fazer negócios em meio ao pessimismo do mercado interno é coordenar recompras de ações, aquecidas devido ao baixo preço dos papéis na bolsa de valores, ou estruturar ofertas de fechamento de capital. Até o dia 25 de julho, estavam em análise 13 ofertas públicas de aquisição de ações (OPAs) na CVM. Dessas, sete são para cancelamento de registro de companhias como Brookfield, Autometal, Banco Santander e Companhia Iguaçu de Café Solúvel. Outras três empresas já conseguiram o registro para realizar a OPA de saída: Docas Investimentos, Excelsior e SEB Participações. “É o reverso da moeda. De um lado, ninguém abre o capital; do outro, empresas saem da bolsa”, afirma Marco Ferreira Orlandi, sócio da Boccuzzi Advogados Associados.

A estagnação da economia também abre o apetite para fusões e aquisições. Orlandi observa que o cenário padrão, no qual os estrangeiros queriam comprar mas reclamavam dos preços salgados, ficou para trás. “O valor dos negócios está ficando mais atrativo.” Dados da KPMG referentes ao primeiro trimestre mostram que o começo do ano teve 193 fusões ou aquisições concretizadas — apenas 11 negociações abaixo da marca histórica, obtida no mesmo período de 2012. A maior gana do investidor estrangeiro puxou os resultados. Do total de operações, 89 tiveram empresas internacionais na ponta compradora, um crescimento de 13% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Como se vê, o tempo não está de todo ruim. As oportunidades de fazer negócios no mercado de capitais se mantêm, na alta e na baixa.

Ilustração: Marco Mancini/Grau180.com


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Tags:  fusões e aquisições IPO Renda fixa CAPITAL ABERTO mercado de capitais Fechamento de capital ofertas públicas renda variável dívida reestruturação Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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