Histórias do lobo mau

Os excessos da Wall Street dos anos 1980 e 1990 contados em primeira pessoa

Captação de recursos/Prateleira/Edição 129 / 1 de maio de 2014
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A história de Jordan Belfort poderia ser contada como um exemplo do sonho americano: garoto de origem humilde faz fortuna trabalhando duro no mercado financeiro. O que separa esta trajetória de outras sobre Wall Street é sua honestidade brutal, nas palavras de Leonardo di Caprio (que interpreta o autor no filme homônimo). As mais de 500 páginas de O lobo de Wall Street descrevem uma vida de excessos em drogas, bebidas, mulheres e trambiques financeiros de fazer corar os personagens mais depravados da literatura de ficção. O romance pinta uma tela bastante cromática do estilo de vida absolutamente sem limites da Wall Street das duas últimas décadas do século 20.

A narrativa, caricatural, se localiza em algum ponto entre a autobiografia e a ficção. É tragicômica do começo ao fim. A carreira do jovem Jordan se inicia num banco de prestígio no mercado nova-iorquino, em que ele passa por todos os treinamentos e provas necessários para tornar-se um corretor de ações. Por um capricho do destino, o dia em que finalmente estaria habilitado a contatar clientes e convencê-los da compra e da venda de ações — que gerariam as sonhadas comissões — ficou conhecido como Black Monday. Naquele 19 de outubro de 1987, o índice Dow Jones despencou mais de 20% e o futuro anti-herói perdeu seu emprego. Poderia ser o fim da linha no mercado financeiro, como certamente foi para muitos colegas corretores, mas não para Belfort. Munido de enorme determinação de alcançar sucesso e de um incrível instinto para convencer qualquer um a comprar ações de qualidade duvidosa, ele fundou sua própria corretora, a Stratton Oakmont.

A partir daí, a jornada do protagonista tem duas dimensões paralelas: os trambiques na corretora e o consumo diário de diferentes drogas em quantidade suficiente para dopar Manhattan, ambos temperados por mulheres em profusão. O elemento comum desse comportamento autodestrutivo é a quantidade obscena de dinheiro que Belfort ganha, a ponto de ele perder a noção do valor relativo das coisas e buscar o hedonismo a todo custo. Em certo momento, uma terceira dimensão é adicionada, conforme procura maneiras de esconder seus ganhos da receita federal americana e acaba lavando dinheiro com a ajuda de bancos suíços. A despeito do cuidado paranoico que Belfort tinha em não deixar vestígios das transações, uma série de acontecimentos fortuitos envolvendo sócios da corretora e “laranjas” usados na fraude financeira acaba fornecendo a munição para as autoridades o colocarem atrás das grades. Ele foi banido de atuar com títulos mobiliários por toda a vida e condenado a oito anos de prisão. Acabou cumprindo, entretanto, apenas dois anos de sua sentença.

A história é tão inverossímil que parece um romance de ficção. Aos 27 anos de idade, Belfort já era um dos homens mais ricos do mercado acionário dos Estados Unidos. O dinheiro fácil, que brota aos borbotões, alimenta uma arrogância suprema que corrompe profundamente seu caráter, a ponto de ele não se preocupar em manter padrões mínimos de convivência social. Conduz sua vida como se não houvesse amanhã, dia após dia, inspirado pelo mantra: “Eu quero tudo e tem que ser agora”. Até que, aos 36 anos de idade, seu castelo de areia desmorona. Belfort perde o casamento e a liberdade. Serve para ele o verso de Lobão, na letra da música “Decadence avec elegance”: “É melhor viver dez anos a mil que mil anos a dez”.

O lobo de Wall Street – Jordan Belfort
Editora: Planeta – 501 páginas – 2ª edição, 2014




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Tags:  CAPITAL ABERTO mercado de capitais O lobo de Wall Street Jordan Belfort Leonardo di Caprio Black Monday índice Dow Jones Stratton Oakmont hedonismo Decadence avec elegance arrogância castelo de areia Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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