Filantropia não basta

O interesse de fundações e institutos empresariais em startups de impacto social

Captação de recursos / Reportagem / 20 de agosto de 2017
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Ilustração: Rodrigo Auada

Ilustração: Rodrigo Auada

Acostumadas a ajudar as comunidades em que atuam por meio de atividades filantrópicas, as fundações e os institutos de origem familiar e empresarial começam a perceber que o mercado de capitais também pode contribuir com o seu objetivo de fazer o bem. Os instrumentos são os chamados investimentos de impacto — modalidade de aporte de recursos em empresas que produzem benefícios socioambientais e, ao mesmo tempo, retorno financeiro. O interesse por esse tipo de aplicação deu origem, no ano passado, ao Grupo de Fundações e Institutos de Impacto (Fiimp), que reúne 22 participantes. Cada um deles contribuiu com 10 mil dólares, que serão direcionados a negócios que se dediquem a resolver problemas sociais. “Mas há startups com esse propósito preparadas para receber o dinheiro das fundações?”, questiona Rodrigo Menezes, sócio do Derraik e Menezes Advogados.

O Programa Vivenda prova que a resposta é sim. A empresa, que oferece reformas de baixo custo e por um preço fixo a famílias que vivem em favelas, captou 445 mil reais por meio de uma oferta de equity crowdfunding que atraiu, em 2015, cerca de 40 investidores — um deles foi o Instituto InterCement. Além do instituto, a própria InterCement (antiga Camargo Corrêa Cimentos) investe no Vivenda por meio da NeoGera, braço de investimentos em inovação da companhia. “Embora empresa e instituto tenham agendas diferentes, ambos fizeram aportes porque veem valor no investimento de impacto”, explica Fernando Assad, sócio-fundador do Vivenda. Antes do aporte, a InterCement era apenas parceira comercial da empresa de reformas. Depois que se tornou investidora, ocupa também um assento no conselho consultivo do Vivenda.

Esse alinhamento de visão entre a InterCement e o seu instituto explica por que, dentro de cinco anos, eles planejam se juntar. “O instituto, enquanto figura corporativa que atua nas localidades onde a empresa está, tem um limite de abrangência. A ideia é que não seja preciso existir uma entidade separada para pensar no investimento social e ambiental, mas que essa seja uma questão do dia a dia da empresa”, explica André Gama, vice-presidente da InterCement. Enquanto a almejada união não ocorre, a integração entre a empresa e o seu braço social se dá por meio do conselho do instituto. O colegiado é formado inteiramente por executivos da InterCement. Um dos participantes é o próprio Gama, ao lado de Carla Duprat, diretora de sustentabilidade da InterCement e diretora-executiva do instituto. A iniciativa, segundo Gama, já teve um efeito prático: se antes a aprovação de recursos para o instituto despertava questionamentos nos diretores da empresa, agora esse aval ocorre com maior fluidez, uma vez que os executivos estão mais conscientes sobre o retorno dos investimentos sociais. “Métrica é uma palavra importante. É ela que garante credibilidade para o investimento de impacto”, avalia Luis Dix, gerente de relacionamento do Instituto Ayrton Senna.

O Instituto Votorantim também busca disseminar as discussões sobre negócios de impacto. Por enquanto, o assunto é encabeçado pela área de dinamismo econômico do instituto. O papel desse eixo temático, como o nome sugere, é dinamizar a economia de cerca de 500 municípios, a maioria dependente economicamente da atuação local do Grupo Votorantim. “A discussão sobre investimentos de impacto não deve ficar restrita. Ela precisa ser estendida para outras áreas do instituto e do grupo como um todo”, avalia Filippe Barros, analista sênior no segmento de dinamismo econômico do Instituto Votorantim. Com essa ideia em mente, a área de Barros tem levado as discussões sobre investimento de impacto também para os grupos de trabalho de inovação, de que participam representantes de todas as empresas do grupo. “Fica difícil para o instituto encabeçar esse assunto sozinho. Precisamos inserir os negócios de impacto na cadeia de valor da empresa”, ressalta Barros.

Gestão genuína

Quem também navega pela área de investimentos de impacto é o Instituto Sabin, ligado ao grupo familiar de medicina diagnóstica de mesmo nome. O instituto se interessou pelo tema há cerca de três anos, e mantém um contato bastante próximo com negócios de impacto por causa das doações que faz à Artemisia, organização sem fins lucrativos que atua como aceleradora de negócios de impacto social. “Os intermediários do ecossistema não param em pé financeiramente sem doação. E são eles que contribuem com a oferta de negócios de impacto”, observa Fábio Deboni, gerente-executivo do instituto. “Até 2020 queremos ser um investidor de impacto e, assim, também ganhar dinheiro com isso.”

O entusiasmo das fundações com o tema anima militantes da área de negócios sociais, como Célia Cruz, diretora executiva do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE). “As fundações têm um significativo papel na construção do ecossistema social”, observa. Um dos projetos do ICE é a Força Tarefa de Finanças Sociais, cuja missão é articular sua rede de relações para atrair investidores, empreendedores, governos e parceiros interessados em desenvolver e apoiar modelos de negócios rentáveis que resolvam problemas sociais ou ambientais. Um dos membros da Força Tarefa é Daniel Izzo, sócio da Vox Capital. A gestora administra um fundo de impacto de 84 milhões de reais, com dez empresas no portfólio. Cerca de 1,4 mil projetos foram avaliados para a composição do fundo. “Queremos negócios bons, que causem impacto em escala e sejam geridos de forma genuína”, afirma Izzo.

Apesar dessa percepção, o fato é que o Brasil ainda engatinha no investimento de impacto em comparação com mercados mais evoluídos. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a Fundação Ford anunciou 1 bilhão de dólares em investimentos de impacto para os próximos dez anos, as empresas financiam projetos por meio de endowments — fundos patrimoniais, cujos retornos são utilizados para custear as operações de fundações e institutos, garantindo a sustentabilidade dessas entidades e de seus projetos. “Parte desses recursos está sendo investida em grandes fundos de impacto, buscando maiores retornos financeiros”, diz Izzo. “No Brasil ainda não há uma fundação ou um instituto liderando o tema como se tem lá fora.” Mas aos poucos isso deve mudar, até porque “hoje o impacto social não é um nicho, é uma tendência”, sentencia.

 


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