Escolha errada

O BNDES tirou espaço do mercado ao financiar as prometidas “campeãs nacionais”. O resultado, até agora, são bilionárias provisões de perdas em seu balanço

Captação de recursos/Reportagem/Edição 118 / 1 de junho de 2013
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O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nunca emprestou tanto dinheiro como nos últimos anos: em 2012, o valor dos desembolsos alcançou R$ 156 bilhões, o segundo maior de sua história, somente atrás do montante distribuído em 2010 (R$ 168 bilhões). O ímpeto fomentador, contudo, não tem sido acompanhado de resultados empolgantes para a instituição, especialmente nos casos em que ela entrou como sócia no projeto. Em 2012, o lucro líquido do braço de participações do banco, a BNDESPar, com investimentos societários desabou 97,9% em relação ao ano anterior — R$ 6,455 bilhões para R$ 148 milhões. O próprio BNDES também vê a sua lucratividade se estreitar: o lucro líquido caiu de R$ 9,9 bilhões, em 2010, para R$ 9 bilhões, em 2011, e R$ 8,1 bilhões, no ano passado.

A queda nos resultados do banco e da BNDESPar é, em parte, fruto da aposta em companhias que apresentaram resultados ruins, em especial um seleto grupo de empresas que se tornou conhecido como “campeãs nacionais” — Oi, Fibria, JBS, Marfrig, Linx, Totvs e LBR. São companhias de grande porte que, desde o biênio 2008-2009, foram agraciadas com crédito barato do BNDES sob o pretexto de virarem líderes em seus segmentos e ganharem expressão internacional. Para se ter uma ideia do tamanho da aposta, a soma dos empréstimos dedicados às sete companhias e a outras quatro empresas que se saíram muito mal nos últimos tempos — a Lupatech e o trio LLX, MMX e OSX — atingiu R$ 17 bilhões no período de 2008 a 2012.

Um exemplo de “campeã nacional” malsucedida é a LBR, originada a partir da fusão de Bom Gosto e LeitBom. Em 2011, o banco de fomento financiou a criação da companhia, que nasceu com o objetivo de consolidar o fragmentado mercado brasileiro de lácteos. No total, o BNDES aportou R$ 704 milhões na estruturação da LBR, por meio de empréstimos para capital de giro e da compra de debêntures conversíveis em ações. Já no seu primeiro ano de vida, a fabricante de leite amargou prejuízo líquido de R$ 305 milhões e, a partir daí, se afundou em dívidas e problemas operacionais. Em fevereiro deste ano, após sucessivos resultados decepcionantes, entrou com pedido de recuperação judicial. Em 2012, o BNDES confirmou que provisionou cerca de R$ 865 milhões referentes ao prejuízo com a LBR.

O lucro da BNDESPar com participações societárias desabou 97,9% entre 2011 e 2012

No caso da Marfrig, o emprego dos recursos do banco é mais visível. Entre 2008 e 2010, o BNDES investiu R$ 3,6 bilhões na companhia, entre dívida e participação, com o intuito de transformá-la em uma multinacional de alimentos. Justamente em 2010, a empresa adquiriu a americana Keystone Foods e a norte-irlandesa O’Kane Poultry, ambas do setor de alimentos, consolidando sua atuação no exterior. No mesmo ano, tornou-se a segunda maior exportadora brasileira de frangos e suínos, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior do Brasil (Secex), e viu seu número de vendas externas crescer 21,1% em relação a 2009. Como acionista, no entanto, mais uma vez o BNDES não se deu bem (atualmente, o banco detém 19,6% do capital da companhia). O ano de 2010 foi o único em que a Marfrig fechou no azul, com lucro de R$ 146 milhões. Em 2011 e 2012, a companhia registrou prejuízos de R$ 746 milhões e R$ 224 milhões, respectivamente. Seus grandes desafios são gerar caixa e reduzir o endividamento, que fechou 2012 em R$ 12,4 bilhões. Do início de 2010 ao último 24 de maio, as ações da companhia caíram 60%.No setor de papel e celulose, a Fibria é a campeã que não vingou. Recebeu empréstimos de ao todo R$ 1,3 bilhão entre 2009 e 2012, com a finalidade de financiar investimentos em infraestrutura, compra de máquinas e equipamentos, ampliação de florestas e modernização de ativos fixos. Não há divulgação de como os recursos foram utilizados, mas o balanço da companhia dá alguns sinais. Em 2009, foi contabilizada uma despesa de R$ 13,7 milhões para compra de maquinário e outra de R$ 3,6 milhões para aquisição e manutenção de florestas. Desde então, porém, a Fibria acumula prejuízos volumosos — R$ 698 milhões em 2012, R$ 705 milhões em 2011, R$ 873 milhões em 2010. Um dos pontos fracos da Fibria é seu alto grau de alavancagem: um indicador dívida líquida/ebitda de 3,4 vezes, comparado com 4,8 vezes em 2011. Além de credor, o banco também é acionista da companhia — atualmente, a BNDESPar detém 30,4% das ações ordinárias.

O valor emprestado pelo BNDES entre 2008 e 2012 foi o dobro do volume de ofertas de ações no mesmo período

Em 2009, foi a vez de a fornecedora de equipamentos para o setor petroquímico Lupatech receber do banco de fomento um empréstimo de R$ 374,7 milhões para projetos de aquisição de empresas e patentes, modernização e ampliação da capacidade produtiva e investimentos sociais. Em 2008, ela havia gastado R$ 103 milhões na compra de quatro companhias nacionais e, no ano seguinte, adquiriu a empresa argentina Norpatagonica S.R.L., do setor petroquímico, por US$ 3 milhões. Os resultados da companhia, no entanto, só decepcionam. Em 2012, exibiu um prejuízo de R$ 561 milhões, mais do que o dobro de um ano antes (R$ 241 milhões). O ebitda fechou igualmente negativo, em R$ 273 milhões. A BNDESPar, também acionista, aumentou ainda mais sua fatia na empresa nesse período: passou de 11%, em 2011, para 31% do capital, no ano seguinte.

O grupo EBX, do empresário Eike Batista, é outro cliente costumeiro do BNDES. Desde 2009, o conglomerado recebeu do banco R$ 3,5 bilhões em empréstimos. As companhias mais agraciadas foram a OSX (R$ 1,7 bilhão), a LLX (R$ 1,4 bilhão) e a MMX (R$ 484 milhões). Não é novidade que as três vivem tempos difíceis, graças às inúmeras promessas não cumpridas de Eike Batista. Em 2012, encerraram o ano com prejuízo de, respectivamente, R$ 26 milhões, R$ 29 milhões e R$ 792 milhões. Em contato com a CAPITAL ABERTO, as empresas informaram que os recursos estão sendo devidamente usados nos projetos contratados: na OSX, para construção do estaleiro de Açu; na LLX, para instalação de um canal no terminal do Porto de Açu; e, na MMX, para a obra do superporto Sudeste, cujo início das operações é previsto para o fim de 2013.

Questionado sobre os resultados decepcionantes de algumas das companhias que financiou, o BNDES argumentou, em nota enviada à reportagem, que os números não fogem à dinâmica dos investimentos, passíveis de prejuízos. Nos balanços da instituição, porém, essa “dinâmica” parece estar saindo cara. A provisão para perdas em investimentos em participações societárias da BNDESPar pulou de R$ 50,1 milhões, em 2011, para R$ 3,3 bilhões no ano passado. No banco de fomento, essa provisão disparou de R$ 126,1 milhões para R$ 4,8 bilhões no mesmo período.

COMPETIDOR IMBATÍVEL — Diante do crédito farto e barato, não é difícil entender por que as grandes empresas preferem recorrer ao banco em vez de procurar o mercado de capitais. O valor desembolsado pelo BNDES entre 2008 e 2012 é duas vezes maior que o volume de ofertas de ações das companhias listadas em bolsa no período. No total, entre IPOs e follow-ons, elas levantaram R$ 276,1 bilhões. “A falta de opções de linhas de financiamento de longo prazo e o alto custo para realizar emissões no mercado de capitais atraem as empresas a captar recursos no BNDES”, afirma Antônio Castro, presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca).

No estudo O que um banco de desenvolvimento faz? Evidências do Brasil 2002–2009, o professor do Insper Sérgio Lazzarini conclui que o BNDES tem um papel pouco representativo em socorrer empresas e, de modo geral, se limita a financiar companhias com capacidade de pagar os seus empréstimos, igualmente ao que um banco comercial faria. “Ao emprestar dinheiro para empresas que têm porte e reputação para se financiarem no mercado, o BNDES acaba virando um concorrente desleal”, critica Lazzarini.

O engajamento do BNDES em financiar as companhias de capital aberto é representativo no escopo das políticas públicas do governo federal. Em 2012, o banco emprestou R$ 27,6 bilhões para empresas médias e grandes listadas em bolsa — mais que o orçamento destinado ao Bolsa Família, por exemplo, de R$ 20 bilhões, e que o do Ministério dos Transportes, de R$ 20,3 bilhões, ambos em 2012.

A presença de grandes empresas na carteira, porém, é fundamental para a instituição preservar a sua liquidez, pondera Roberto Teixeira da Costa, ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e membro do conselho de administração da BNDESPar. Ele acredita que o BNDES deveria exigir maiores níveis de transparência e de governança das empresas que batem à sua porta. “É preciso ter condições mais severas nesse ponto”, diz.

Para Carlos Rocca, diretor técnico do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec) da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), é necessário ampliar a sinergia do BNDES com o mercado de capitais — algo que, observa, já vem acontecendo aos poucos. O banco de fomento tem estimulado, por exemplo, o uso de dispositivos do mercado de capitais por empresas do setor de infraestrutura e a listagem de companhias médias em que detém participação no Bovespa Mais: “Não se trata de excluir o banco; uma parceria é o melhor para o mercado”, afirma.

Em entrevista recente ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou que a estratégia de promover a competitividade de companhias brasileiras para estimular sua internacionalização foi concluída e que as bases já foram construídas. Sobre os resultados obtidos, porém, Coutinho disse que eles só poderão ser identificados e analisados no futuro, quando os frutos desses investimentos forem colhidos.

BNDES não presta contas dos resultados de seus investimentos

No decorrer da reportagem, a capital aberto procurou saber se os empréstimos e os aportes de capital
cedidos pelo banco de fomento foram devidamente usados pelas companhias nos projetos contratados.Essas informações, porém, não estão disponíveis no site do banco. Da mesma forma, o BNDESPar, diferentemente do que fazem as holdings de participações em geral, não comenta o desempenho específico de cada uma de suas coligadas no relatório da administração. Em nota enviada à reportagem, o BNDES informou que faz um monitoramento físico e contábil dos projetos para checar a efetividade dos montantes
aportados. Além disso, todas as empresas beneficiadas devem entregar ao banco um relatório mensal que dê conta do andamento do projeto financiado. Os dados, no entanto, circulam apenas internamente.

Trimestralmente, o BNDES envia um informe ao Congresso Nacional que relata os projetos contratados
no período e destaca os maiores aportes. Esse documento é público e pode ser acessado no site da BNDES, sob o nome Relatório gerencial trimestral dos recursos do Tesouro Nacional. Não há informações, contudo, sobre o desenvolvimento desses projetos a partir dos aportes.

Em dezembro passado, o Ministério Público Federal no Distrito Federal ajuizou uma ação civil pública, com pedido de liminar, contra o BNDES. A intenção é que o banco seja obrigado a dar transparência total aos financiamentos e apoios prestados — por ele ou por suas subsidiárias — a programas, projetos, obras e serviços que envolveram recursos públicos nos últimos dez anos, além dos que vierem a ser realizados. De acordo com o MP, devem ser prestadas informações sobre o empréstimo, como os destinatários, o tipo, a justificativa, o montante, os prazos e o grau de risco. O objetivo é compreender os critérios usados pelo BNDES e pela BNDESPar para determinar as prioridades de investimento. Nessa ação, o MP não requer que sejam prestadas informações sobre a evolução dos projetos financiados. (A.R.)


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