Dólares malditos

Variação cambial e queda na demanda de produtos petroquímicos impactam os resultados da Braskem

Captação de recursos/Bimestral/Edição 102 / 16 de fevereiro de 2012
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Para a maior petroquímica da América Latina, 2011 foi um ano para ser esquecido. A queda substancial na demanda por resinas termoplásticas no Brasil e no mundo — ingredientes importantes de indústrias abaladas pela retração no consumo, como utensílios domésticos, componentes automotivos, sacolas e peças de informática — afetou o desempenho da Braskem. De julho a setembro do ano passado, a companhia amargou um prejuízo líquido de mais de R$ 1 bilhão. O resultado negativo também foi agravado pela valorização do real ante o dólar norte–americano — de 19% nesses três meses —, visto que cerca de 80% dos custos e 70% da dívida líquida da empresa são expressos na moeda norte–americana. Temerosos, investidores castigaram as ações preferenciais da Braskem (BRKM5), que despencaram mais de 42% no último semestre do ano.

A taxa de câmbio é um fator que influencia e muito as contas da petroquímica. Roberta Varella, responsável pela área de relações com investidores (RI) da companhia, ressalta que, no momento, não há efeito sobre a posição do caixa nem sobre o endividamento no curto prazo. “O desembolso só se dará por ocasião do vencimento da dívida, e a companhia tem investido no alongamento do prazo médio do seu endividamento, que atualmente está em 12 anos quando se trata da dívida total e em 17 anos para a dívida indexada ao dólar.” Ela reconhece, porém, o problema: “O real muito valorizado implica uma redução da geração de caixa da companhia”, afirma.

Em dezembro de 2011, diante do prejuízo e das projeções macroeconômicas mais contidas para o setor petroquímico, corretoras como Itaú BBA e Ágora reduziram o preço–alvo para as ações da companhia. As instituições alegaram que o mercado como um todo podia desacelerar em função da menor demanda por derivados do petróleo, como as resinas termopolásticas. Como o preço da commodity não dá sinais de declínio, a Braskem corre o risco de ter um aumento nos custos de produção, sem repassar os gastos ao valor final.

Outro aspecto negativo foram os benefícios fiscais concedidos por estados brasileiros a produtos importados em geral. Em 2011, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Goiás, Alagoas e Pernambuco conduziram uma “guerra fiscal”, abatendo o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na venda de importados. O objetivo era aumentar a arrecadação e desenvolver seus portos, mas, na prática, o subsídio prejudicou a indústria nacional.

Apesar do triste quadro pintado no ano passado, a companhia pode alimentar esperanças em 2012. O cenário ainda continuará desafiador, mas, segundo Luiz Otávio Broad, analista da Ágora Corretora, a importação de resinas por meio dos portos incentivados deverá recuar este ano, beneficiando as vendas da Braskem no mercado interno. Atualmente, o combate a tais incentivos está sendo discutido no Senado e é bem recebido pelo governo. Além disso, a companhia possui capacidade de produção bastante elevada — 7,5 milhões de toneladas anuais de resina —, alcançada graças às aquisições feitas nos últimos anos, com a compra da Quattor, da Sunoco e da divisão de polipropileno da Dow Chemical.

A corretora BB Investimentos mantém a recomendação de outperform (desempenho acima da média) para as ações da companhia. “A empresa segue com bons fundamentos e apresentou melhoria no perfil da dívida”, diz o analista Nataniel Cezimbra.

A expectativa de que as ações da companhia se valorizem também se baseia no plano de investimentos da empresa. “Esperamos uma recuperação a partir do segundo semestre. Os novos projetos são interessantes e possuem muito valor agregado”, observa Cezimbra. A empresa está investindo numa planta de PVC em Alagoas, com capacidade de 200 mil toneladas por ano e início de operação em maio. “O País tem déficit dessa resina e supre sua carência com importações”, conta Roberta.

Outro projeto em andamento é a expansão da capacidade da planta gaúcha de butadieno, substância usada na fabricação de borracha sintética, em 100 mil toneladas por ano. “Como grande parte das indústrias petroquímicas utiliza o butadieno, a matéria–prima se tornou escassa”, explica Roberta. No exterior, a empresa é parceira da mexicana Idesa para a produção de 1 milhão de toneladas de polietileno, que visa a atender à crescente e deficitária demanda local. Também tem um acordo com a PetroPerú, estatal peruana do setor de transporte, refino e comercialização de combustíveis, para um estudo de viabilidade de produção de eteno e polietilenos no país andino. Segundo a Braskem, a iniciativa, anunciada em novembro de 2011, faz parte da estratégia de se tornar uma das líderes mundiais da indústria química até 2020.


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