Diagnóstico incerto

Dasa começa a melhorar os números depois de longa reestruturação, mas atitude do novo proprietário incomoda investidores

Captação de recursos/Reportagem/Edição 138 / 1 de fevereiro de 2015
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diagnostico-incertoNo ano que passou, a Diagnósticos da América, ou simplesmente Dasa, esteve em evidência boa parte dos meses. A dona de laboratórios como Delboni Auriemo e Lavoisier foi alvo de uma tomada de controle protagonizada pelo empresário Edson de Godoy Bueno que foi longamente contestada por minoritários e até pelo conselho de administração (leia mais no quadro abaixo). Ainda às voltas com um processo de reestruturação de suas atividades, a companhia só começou a recuperar a boa forma nos últimos meses de 2014. Daqui para a frente, os números sinalizam que ela está pronta para voltar a crescer. Mas outro incômodo surgiu para os investidores: a atuação do novo controlador, na visão de alguns deles, não começou bem.

Livre de questionamentos e com apenas 28% do capital da empresa fora de suas mãos, Bueno tem trânsito livre na Dasa. Seus minoritários, porém, não são inexpressivos. Das ações restantes em mercado, 10% pertencem à Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, e outros 10,10% estão com os fundos da gestora americana Oppenheimer — dispersos no mercado há, de fato, apenas 7,6%. No fim de dezembro, o filho de Bueno, Pedro de Godoy Bueno, foi eleito diretor-presidente da companhia. Com toda a facilidade.

Carlos Fernando Costa, presidente da Petros e conselheiro de administração da empresa, posicionou-se contra a nomeação. “Diante da complexidade da Dasa e de seus grandes desafios de curto prazo, entendo que a indicação de Pedro Bueno não é adequada ao porte e às necessidades da companhia”, justificou, em documento anexado à ata da reunião em que ocorreu o pleito. Costa acrescentou que contratações deste nível deveriam passar por um criterioso processo de seleção, apoiado pelo comitê de gente, órgão criado pelo board da Dasa para orientá-lo no quesito recursos humanos. “Além da experiência comprovada, é importante que os candidatos à vaga passem por um assessment (avaliação feita por empresa especializada independente), para que o conselho possa avaliar as competências e conhecer com maior eficiência e critério os potenciais candidatos.”

O novo CEO é um jovem de 24 anos. Formado em 2011 em Economia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), trabalhou no Credit Suisse, no BTG Pactual e na Amil. É sócio e principal executivo da DNA Capital, o family office criado pelo pai para gerir sua fortuna. Até não muito tempo atrás, Bueno parecia liberar a ele e à irmã Camila de assumir funções nas empresas. “Quero que eles sejam felizes. É muito difícil, para qualquer um, trabalhar à sombra do pai”, afirmou em uma entrevista à publicação Istoé Dinheiro, em 2012.

Pedro substituiu Dickson Tangerino, executivo veterano, amigo e homem de confiança de seu pai. Tangerino entrou na Amil — a operadora de planos de saúde fundada por Bueno e vendida aos americanos da United Health por R$ 10 bilhões em 2012 — ainda na década de 1980, onde chegou a ser assessor da presidência e diretor de novos negócios. Comandou a Dasa por dois anos e meio, sem agradar os acionistas. Desde que assumiu a presidência até sua renúncia, a ação caiu cerca de 24%. Além disso, por ser bastante próximo a Bueno, era visto pelo mercado como títere do empresário.

Apesar de a nomeação do filho dele trazer a mesma impressão, alguns analistas foram generosos na recepção de Pedro. Mesmo sem conhecer seu estilo de gestão, acreditam que a escolha injeta sangue novo na companhia, o que tende a ser positivo. “Não sei se havia nomes melhores, mas uma mudança de comando era necessária”, opina Caio Moreira, analista do banco Fator. Principalmente agora, que começa a chegar ao fim um longo ciclo de reestruturação e investimentos, iniciado há pouco mais de dois anos.

diagnostico-incerto2Compras em série
Depois de abrir o capital, em 2004, a Dasa entrou em franca campanha de aquisições. Comprou, pelo menos, uma empresa por ano até 2011, com o objetivo de ampliar as atividades e a atuação regional. O problema é que o incremento gerou custos muito além do preço de cada novo negócio. Alguns laboratórios vieram capengas em equipamentos; sistemas de tecnologia precisaram ser integrados. A partir de 2012, um vultoso programa de investimentos ganhou prioridade para colocar a companhia nos trilhos.

O investimento em bens de capital somou R$ 234 milhões em 2012, R$ 144 milhões em 2013 e R$ 116 milhões entre janeiro e setembro de 2014. Um dos focos foi aumentar o peso dos exames de imagem — mais rentáveis que os clínicos — no mix de receitas da empresa. Agora, depois de alguns anos com as margens penalizadas por conta dos gastos, as coisas começam a melhorar. “O crescimento mais forte na primeira linha do balanço, a expansão das margens e a melhora do fluxo de caixa operacional indicam que as iniciativas de reestruturação estão dando frutos”, diz o analista Gustavo Pires Oliveira, em relatório do UBS. No terceiro trimestre do ano passado, a Dasa obteve lucro líquido de R$ 43,6 milhões, o maior dos últimos três anos.

Em dezembro, acabou uma pendência antiga com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que datava da incorporação da MD1 Medicina Diagnóstica pela Dasa. Bueno era o dono da MD1 e foi por meio do negócio que o empresário entrou no capital da compradora. Para aprovar a operação, o Cade exigiu a venda de ativos com faturamento acima de R$ 110 milhões por ano — coisa que ficou resolvida, agora, com a venda da Pro-Echo Cardiodata e da Lafê Serviços Diagnósticos, por R$ 66 milhões.

diagnostico-incerto3Hora de sair?
É possível, no entanto, que a melhora nos resultados da Dasa não seja compartilhada por muito tempo com os minoritários. Desde que Bueno assumiu o controle, o mercado se pergunta quais serão seus próximos passos. E a principal suspeita é que o empresário planeje adquirir a empresa inteira e fechar seu capital. Para levar essa ideia adiante, terá que vencer alguns obstáculos. “O estatuto da Dasa determina que qualquer oferta de aquisição tenha de oferecer, no mínimo, o maior valor pago pela ação nos 12 meses anteriores”, explica Moreira, do Fator.

“Com essa imposição, se Bueno quiser mesmo comprar o que falta da companhia, será obrigado a pagar pelo menos os R$ 15 por ação que ofereceu aos acionistas quando adquiriu o controle”, completa. No último ano, a cotação dos papéis da Dasa recuou — e não foi pouco. No dia 26 de janeiro, eram negociados a menos de R$ 11, preço 27% inferior ao pago na oferta pública de compra realizada em 2014. A baixa reflete as especulações de que a empresa possa fechar o capital e também a perda de liquidez das ações. Essa circunstância, na visão de Moreira, pode acabar adiando a saída do mercado de capitais. Esperar mais um pouco seria uma oportunidade de o controlador tentar negociar com os minoritários remanescentes um valor mais próximo dos preços praticados em bolsa.

Não significa, entretanto, que isso tornará o caminho mais fácil. Já no ano passado o valor de R$ 15 proposto por Bueno não agradou Petros nem Oppenheimer, que acabaram segurando seus papéis na oferta de aquisição. Não à toa. Quando a Petros alcançou sua fatia de 10% no capital da Dasa, em março de 2012, a ação da companhia estava cotada a R$ 16. A Oppenheimer, por sua vez, encerrou as compras em maio de 2013; à época, o papel valia cerca de R$ 12. Apesar da possibilidade de ganho, o fundo considerou a proposta injusta. A Tarpon, que também era um minoritário considerável (com cerca de 5% dos papéis) e inicialmente se opôs ao preço sugerido por Bueno, acabou se desfazendo de sua posição no ano passado durante a oferta. A gestora atingiu essa participação em junho de 2013, época em que as ações eram negociadas a cerca de R$ 11.

Apesar da dor de cabeça que uma negociação para fechar o capital possa dar, a conjunção de papéis em baixa e resultados em alta torna a porta de saída do pregão extremamente sedutora para Bueno. Talvez por isso o empresário esteja tão pouco preocupado quanto ao que o mercado acha de seu jovem herdeiro comandar a maior empresa de medicina diagnóstica da América Latina.

Ilustrações: Marco Mancini/Grau180.com


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