De olho nos vizinhos

Com a economia enfraquecida, bancos e gestoras nacionais buscam oportunidades em Chile, Colômbia,
Peru e México

Captação de recursos/Reportagem/Edição 138 / 1 de fevereiro de 2015
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de-olho-nos-vizinhosNão é de hoje que Chile, Colômbia, Peru e México exercem fascínio sobre gestoras de recursos e bancos de investimento nacionais. Agora, com a economia do Brasil murchando, a grama dos países vizinhos parece mais verde do que nunca. Com exceção do tamanho do PIB, eles levam a melhor em diversos indicadores econômicos (veja tabela na página 47). O dado mais recente do Banco Mundial mostra, por exemplo, que a taxa de investimento do Peru — a mais alta do grupo — chegava, em 2013, a 26,6%; a da Colômbia, segunda maior, atingia 24,5%. No Brasil, esse valor não passa de 18%. Os números são uma amostra de por que importantes players do mercado de capitais brasileiro, como Itaú, Bradesco, BTG Pactual e Pátria Investimentos, mantêm seu radar apontado para esses países.

O namoro do banco de investimento de André Esteves com os vizinhos começou com a aquisição, no fim de 2012, da colombiana Bolsa y Renta, maior corretora em volume de transações acionárias na Colômbia. Um ano depois, o banco passou a operar no México. E, em dezembro de 2014, foi a vez de colocar o pé no Chile, com a abertura de um escritório focado em negócios de crédito e derivativos. “Percebemos que algumas instituições financeiras estrangeiras estavam enfraquecidas e pouco focadas nos países latino-americanos. Isso colaborou para nossa expansão”, explica Mateus Carneiro, responsável pelas operações do BTG Pactual na região.

Segundo o executivo, Chile, México, Colômbia e Peru ganharam a confiança dos investidores nos últimos anos, na esteira de bons resultados econômicos e de melhorias regulatórias. Publicado no fim do ano passado pelo Banco Mundial, o relatório Doing business 2015: indo além da eficiência revela que diversos ajustes promovidos por essas nações ajudaram a impulsionar a atividade empresarial. A Colômbia implantou 29 reformas regulatórias desde 2005, com o que sua economia tornou-se a mais fácil para realizar negócios da América Latina. Entre as mudanças, facilitou o acesso ao crédito por meio de uma lei que torna o sistema de transações financeiras mais seguro. “Esses países aprimoraram sua regulação para facilitar a entrada de investidores estrangeiros e garantir segurança jurídica”, diz Marina Procknor, sócia do escritório Mattos Filho.

de-olho-nos-vizinhos2Na contramão do Brasil
Além das questões regulatórias, um indicador econômico torna esses países um oásis para instituições interessadas em promover operações do mercado de capitais: a taxa de juros. Ela beira magros 3% ao ano em Chile, Colômbia e Peru. No México, mantém-se em 4,5%. Sem a oportunidade de receber retornos polpudos comprando títulos públicos, como ocorre no Brasil — com a taxa Selic em generosos 12,25% —, o investidor é estimulado a adquirir ativos mais arriscados, como ações e cotas de fundos de private equity. O Itaú coordenou, em 2014, duas ofertas de companhias já listadas (follow-ons) no Chile: uma da empresa de investimentos Invexans, no valor de US$ 270 milhões, e outra da fabricante de navios CSAV, de US$ 195 milhões. O principal índice de ações do país, o IPSA, da Bolsa de Santiago, fechou o ano com alta de 4,10%, ante uma desvalorização de 2,91% do Ibovespa.

O Itaú está entrando com força na terra de Violeta Parra. Em janeiro de 2014, anunciou a fusão de sua unidade no Chile com o banco local CorpBanca. A união criará o Itaú CorpBanca, que administrará os negócios das duas instituições no Chile e na Colômbia. Será uma das maiores instituições financeiras da região, com US$ 45 bilhões em ativos e US$ 34 bilhões na carteira de crédito. Também no ano passado, o Itaú assumiu o controle da gestora de patrimônio chilena Munita, Cruzat y Claro. Sem divulgar os valores envolvidos na transação, informou que a aquisição de 100% da gestora — já detinha metade — vai ao encontro do objetivo de sua área de private banking: ser líder do segmento na América Latina.

Quem também anda enamorada pelo Chile é a Pátria Investimentos. A gestora de private equity pretende abrir, em julho, uma unidade em Santiago, como parte de um projeto de ampliação de seus negócios em países latino-americanos. No ano passado, iniciou a operação de um escritório em Bogotá, na Colômbia, que contará com uma equipe de até dez profissionais. Os movimentos acontecem após a gestora ter fechado, em julho de 2014, a captação de seu quinto fundo de investimento em participações com foco na América Latina no valor de US$ 1,8 bilhão, o maior já arrecadado. Empresas do continente já fazem hoje parte do portfólio do Pátria. É o caso da peruana Latin America Power (LAP), investida do P2 Brasil, fundo de infraestrutura criado pela gestora em associação com a Promon, empresa do setor de engenharia.

de-olho-nos-vizinhos3Atração pelo México
Em 2013, foi a vez de o Bradesco receber aprovação do Banco Central para inaugurar um banco de investimento, uma corretora e um banco múltiplo no México, com foco em concessão de empréstimo e gestão de caixa para empresas. Entre seus planos, está ainda a expansão do último modelo de negócio para Colômbia, Peru e Chile por meio da abertura de escritórios ou de acordos com instituições locais. “Por estar mais adiantado do ponto de vista de reformas regulatórias, o México é o mais competitivo entre seus vizinhos latino-americanos”, avalia Ricardo Denadai, economista-chefe da Santander Asset Management. A opinião é compartilhada pelo economista Richard Rytenband, especialista em investimentos e métodos quantitativos pela Fundação Getulio Vargas (FGV). “Mercados como o mexicano apresentam regras claras e pouco intervencionismo na economia”, observa.

de-olho-nos-vizinhos4Em 2014, dos países da América Latina, o México foi o que mais registrou aberturas de capital: houve cinco, do total de dez que ocorreram no continente, segundo a Dealogic. A maior oferta também veio de lá. O IPO do fundo imobiliário mexicano lastreado em hipotecas do Fideicomiso Hipotecario levantou US$ 639 milhões. Investidores locais compraram 39% das ações; os estrangeiros adquiriram os 61% restantes. De modo geral, no entanto, o ano passado foi decepcionante em termos de estreias em bolsa na região. Desde 2009, quando ocorreram nove IPOs, não se presenciava uma atividade anual de ofertas iniciais de ações tão baixa. A conta não inclui o Brasil.

Sacconato, da Brain, pondera que, apesar da atratividade do México, o mercado de capitais brasileiro continua sendo o mais forte da região, tanto em estrutura como em liquidez. “O Brasil apresenta mais de 80% do giro de ações da América Latina e entre 90% e 95% dos derivativos.”

Em fusões e aquisições, um nicho bastante atraente para os bancos de investimento, também nos saímos melhor. Em 2014, esse segmento movimentou US$ 56,2 bilhões no Brasil, que liderou o ranking de M&As da América Latina, de acordo com a Dealogic. O México vem atrás, com US$ 22,6 bilhões. Cabe aqui uma observação: enquanto o nosso volume é 20% menor que o registrado em 2013, o do México é 24% maior.

Como se vê, não faltam motivos para bancos e gestoras nacionais buscarem oportunidades nos arredores. Enquanto a economia brasileira patina, buscar um lugar ao sol na grama dos vizinhos soa como excelente negócio.

Ilustração: Beto Nejme/grau180.com


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Tags:  Itaú Unibanco México CAPITAL ABERTO mercado de capitais BTG Pactual Chile Peru Colômbia Pátria Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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