Cordilheira de oportunidades

Companhias brasileiras viajam ao Chile interessadas em abocanhar um pedaço da enorme poupança do país

Captação de recursos/Reportagem/Edição 113 / 1 de janeiro de 2013
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Com uma poupança interna elevada — aproximadamente 26,8% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do Banco Central do país — e um patrimônio gigantesco administrado por fundos de pensão, no total de cerca de US$ 160 bilhões, o Chile se tornou a cereja da América Latina. E, de todos os lados, há alguém tentando abocanhar uma lasquinha dessa montanha de dinheiro. Até porque o mercado chileno não conta com ativos suficientes para absorvê-lo. Para se ter uma ideia, enquanto a BM&FBovespa possui 364 companhias listadas, a bolsa chilena tem menos ainda: 258. De olho nessa mina, empresas brasileiras vêm promovendo roadshows no país para exibir as suas qualidades. Dados da BM&FBovespa apontam que o Chile ocupou, em 2011, a 14ª posição dentre os investidores que mais compraram ações do Brasil, com uma participação de 0,46% do total de investimentos estrangeiros, somando um volume de R$ 5,1 bilhões em compra e venda de ativos.

“O Chile é o terceiro maior mercado latino-americano e tem excesso de recursos disponíveis”, afirma Rodrigo Moliterno, diretor do Banco Fator. “Os investidores locais são bastante influenciados pelo índice MSCI Latin, criado pelo Morgan Stanley, que acompanha o desempenho de companhias abertas da região. Cerca de 60% delas são brasileiras”, acrescenta. A instituição organizou, nos dias 14 e 15 de novembro, em conjunto com o banco chileno Corpbanca, a 3ª Cumbre Latinoamericana, em Santiago. A conferência reuniu 50 empresas do continente e 40 investidores. Dentre os institucionais chilenos, havia nomes importantes como Celfin, BCI, Euroamerica, Drake, Penta Inversiones e Larrain Vial.

Chefe de renda variável do BCI Asset Management, Javier Brstilo ressalta que o Brasil está na rota de investimentos do banco para este ano. Segundo ele, blue chips, como Vale e Petrobras, já não são mais atrativas. “O foco agora são small caps”, afirma.

O Fator levou sete empresas brasileiras ao evento: Paranapanema, Bematech, CSU, Hypermarcas, Providência, Rodobens e Profarma. O número é quase o dobro do registrado em 2011, quando quatro companhias foram à convenção. Em 2010, eram três. Nos dois dias de conferência, a Paranapanema fez 12 reuniões. “Dos investidores latino-americanos, o chileno é o mais interessado no Brasil. Existe muita liquidez por lá. Os family offices, em especial, estão buscando diversificar seus investimentos”, diz Mário Lorencatto, diretor de relações com investidores (RI) da mineradora.

Atualmente, a Paranapanema importa US$ 1,5 bilhão em concentrado de cobre do Chile e mantém negócios com todas as empresas de mineração do país, como a estatal Codelco e a Antofagasta, e com vários bancos chilenos. “Somos muito conhecidos por lá”, ressalta Lorencatto. Após passar por uma reestruturação societária e financeira e solucionar passivos fiscais, a companhia iniciou uma estratégia de expansão e modernização. “Aumentamos a capacidade e melhoramos a produtividade. O mercado tem reconhecido isso”, conta.

Da mesma forma que a Paranapanema, a provedora de soluções em tecnologia Bematech aproveitou o encontro para atualizar os investidores. Contou sobre a reestruturação que vem promovendo para ajustar processos e buscar sinergias entre as oito empresas adquiridas de 2006 a 2008 — Gemco, C&S, GSR7, Rentech, SnackControl, MisterChef, Logic Controls e CMNet Soluções. A Bematech já havia feito, em julho, um roadshow pelo Chile. Hoje, a companhia tem 10% de estrangeiros na sua base acionária, incluindo os chilenos. “Quando fizemos o roadshow em julho, estávamos começando a ver os resultados da reestruturação. Desde então, a rentabilidade, o resultado e o preço dos papéis melhoraram”, destaca Marcel Vedrossi, diretor de RI. De julho a 20 de dezembro, as ações da companhia subiram 52,7%. Na convenção, o diretor participou de reuniões com o Corpbanca, a Euroamerica e com o family office Costa Verde, dentre outros investidores.

A agenda da CSU, que atua no segmento de cartões, também esteve lotada no Chile. “Nossa expectativa é que invistam na empresa no médio prazo”, afirma Mônica Carvalho Molina, diretora de RI e desenvolvimento corporativo da companhia. A executiva vem intensificando o relacionamento com investidores internacionais por meio de roadshows e conferências. Seu objetivo é recuperar a participação de 85% do free float que os estrangeiros abocanharam na oferta pública inicial de ações (IPO na sigla em inglês) da empresa, em abril de 2006, quando foram captados R$ 340 milhões. Esse percentual começou a cair em 2008, período em que muitos investidores resgataram seus investimentos em small caps, assustados com a crise mundial. Naquele ano, a CSU viu o percentual de estrangeiros ser reduzido para 50%. Em 2010, caiu para 35% e, em 2012, para 10%. Durante esse período, a empresa preferiu focar seus esforços no investidor doméstico, que conhecia melhor a operação da CSU. Agora, está voltando a olhar para o mercado externo.

A Rodobens Negócios Imobiliários, que possui 2% de chilenos em sua base acionária, participou de 15 reuniões com investidores nos dois dias do evento. Atualmente, cerca de 32% do free flot está nas mãos dos estrangeiros. “Os investidores chilenos são bastante qualificados”, elogia Flávio Vidigal de Capua, diretor financeiro e de RI. Nos encontros, ele reforçou o posicionamento estratégico da Rodobens, que, diferentemente das suas concorrentes, não atua nas regiões metropolitanas, mas sim em cidades do interior, que acompanham o crescimento agrícola. Gabriela Las Casas, gerente de RI da Providência, voltada para a fabricação e comercialização de não tecidos, também teve uma ótima impressão dos investidores chilenos, que representam 1% de sua base acionária. Moliterno, da Fator, comemora: diz ter recebido ordens de compra de US$ 10 milhões após o evento.

BONDS CHILENOS — O apetite dos chilenos pelo Brasil tem aberto espaço até para emissões de dívida na região. O Banco Pine se tornou, no ano passado, o primeiro emissor brasileiro de huaso bonds chileno, títulos de dívida corporativos que permitem às instituições estrangeiras captar recursos no Chile como se fossem empresas locais. Segundo Norberto Zaiet Jr, vice-presidente de negócios do Pine, a oferta reflete a estratégia do banco de diversificar suas fontes de captação, acessar bolsões de liquidez espalhados pelo mundo e racionalizar as datas de vencimento dos seus pagamentos.

O programa para emissão de até US$ 283 milhões em huaso bonds foi aprovado em agosto de 2012 pela Superintendencia de Valores y Seguros. A primeira emissão, com vencimento em 2017, foi realizada em 13 de dezembro, no valor de US$ 72 milhões.


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Tags:  bmfbovespa América Latina PIB Chile Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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