Combinação nefasta

Má fase da siderurgia soma-se às dúvidas de analistas sobre a atuação dos gestores da CSN

Captação de recursos/Bimestral/Edição 97 / 1 de setembro de 2010
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Um céu cinzento cobre o horizonte da siderurgia nacional. O prêmio do aço brasileiro — que chegou a custar entre 30% e 40% a mais que o similar importado — despencou para 7%, no caso dos produtos de menor valor agregado; e para 12%, nos galvanizados, os mais nobres, com a ameaça da importação pairando no ar. Resultado: o segmento amarga uma das maiores perdas na Bolsa este ano. Nessa avalanche, as ações ordinárias da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) caíram mais de 40% até 19 de agosto.

“O setor está pressionado, com os estoques na área de distribuição em 3,5 meses de vendas, enquanto o ideal seriam 2,6 meses. Isso deve manter os preços estáveis”, diz William Castro Alves, analista da XP Investimentos. “O câmbio valorizado reduziu a competitividade e expôs as fragilidades do setor”, observa Felipe Reis, analista do Santander. Há crescentes pressões de custos, como mão de obra, energia e matérias-primas (minério de ferro e carvão). E os compradores de aço nacional, por sua vez, não aceitam repasse de preços. A indústria automotiva, por exemplo, um dos maiores clientes da siderurgia, também sofre com a alta dos custos e a concorrência crescente provocada pelo ingresso de novas marcas no mercado brasileiro. Montadoras chinesas oferecem carros com mais equipamentos e preços baixos, aterrorizando as demais.

Não bastasse o inferno astral do setor, no caso da CSN, o mercado enxerga outros motivos para pressionar as cotações. Desde o início do ano, a empresa vem adquirindo ações da Usiminas na Bolsa. Em 19 de agosto, em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), informou já deter 11,29% das ações ordinárias e 15,15% das preferenciais. A CSN não concedeu entrevista, mas, na teleconferência do segundo trimestre, seu diretor financeiro, Alberto Monteiro, comentou que a empresa continuava “avaliando alternativas em relação a esse investimento, inclusive aquisições adicionais de ações”. Benjamin Steinbruch, principal acionista da CSN, anunciou publicamente seu interesse no controle da Usiminas. O negócio, segundo ele, traria grandes sinergias aos dois grupos.

Para Leonardo Corrêa, analista do Barclays Capital, o intento da CSN traz volatilidade para os seus papéis.
O controle da Usiminas é dividido entre os grupos Nippon Steel, Camargo Corrêa, Votorantim e o fundo de pensão Caixa dos Empregados, que não querem a entrada da CSN. Quando o avanço da companhia sobre as ações da Usiminas começou, em janeiro, os acionistas majoritários da siderúrgica mineira redigiram um acordo novo que garantia a eles estabilidade até 2031. “O ingresso da CSN no grupo de controle não será fácil e nada indica que será uma fusão de ativos, porque a Usiminas não está interessada”, analisa Corrêa. Nesse cenário, as sinergias seriam limitadas, avaliam os analistas.

Um ponto que curiosamente prejudica as ações da CSN é o caixa gordo da companhia. O dinheiro deveria ser um trunfo num momento de instabilidade como o atual, mas se tornou um fator de incerteza. Em 30 de junho, a despeito das compras de ações da Usiminas desde janeiro, a companhia detinha R$ 11,7 bilhões em caixa, que poderiam ser usados para oportunidades de aquisição em cimento, minério e aço. “Isso traz outras incógnitas: o que será comprado e a que preço?”, questiona Castro Alves, analista da XP Investimentos. Em 2010, a empresa se envolveu em uma longa disputa pelo controle da cimenteira portuguesa Cimpor. Ofereceu US$ 5,6 bilhões, mas perdeu o negócio para Votorantim e Camargo Corrêa, que, por sua vez, detêm relevante participação na Usiminas.

A área de mineração, que tem ganhado destaque no balanço da empresa, é outra fonte de preocupação dos analistas. Em 2011, a produção de minério de ferro poderá chegar a 31 milhões de toneladas, dez vezes mais que o volume de 2006. No segundo trimestre, 34% da receita líquida recorde total de R$ 4,3 bilhões provinha da mineração, que respondeu também por nada menos que 54% da geração operacional de caixa (Ebitda) no período. Trocando em miúdos, a CSN já ganha mais dinheiro com minério do que com aço. Isso diversifica o portfólio de negócios em um momento que a siderurgia nacional está pressionada, mas, a reboque, faz pipocar novos pontos de interrogação entre os analistas. “Existem dúvidas sobre alguns dos projetos em execução”, salienta Corrêa, do Barclays Capital.

A empresa prevê desembolsar R$ 11 bilhões nos próximos cinco anos para expandir sua capacidade portuária e de produção de minério de ferro para 84 milhões de toneladas anuais. “O mercado tem dúvidas de que essa expansão ocorrerá no prazo e de que será efetuada no preço orçado”, afirma o gestor José Luiz Junqueira, da Joule Invest. A queda dos papéis em abril tinha reduzido o peso relativo da CSN na carteira da Joule de 11% para 9%. Em abril, a empresa valia R$ 33,8 bilhões; em 19 de agosto, cerca de R$ 20 bilhões. Contudo, a redução de preço incentivou a gestora a comprar mais ações da companhia. “Hoje, 14,5% da nossa carteira está em CSN, porque achamos que o mercado está sendo excessivamente pessimista e atribui zero de crescimento aos projetos dela”, explica o gestor.

Desde 2009, os investidores aguardam a abertura de capital da unidade de mineração, que reuniria os ativos da mina Casa de Pedra e da mineradora Namisa, na qual a CSN detém 60%. “Mas as negociações continuam e não há um prazo definido”, justifica Corrêa. Em 2010, analistas estimaram que o IPO poderia movimentar mais de US$ 7 bilhões.


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